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Parmênides

24/11/2008

ParmenidesMais Filosofia Podcast  para você. A palhinha do livro Aventuras da filosofia, a sair no início de 2009 pela Brasiliense, agora é da parte 3, sobre Parmênides.

3. A deusa de Parmênides

Parmênides temia menos que Platão e menos ainda que Aristóteles o uso da terminologia de Homero e Hesíodo para a sua filosofia. Platão e Aristóteles não foram descrentes dos deuses; todavia, viveram em uma época em que sentiram que teriam de ser porta-vozes da delimitação de terreno não só entre a filosofia e a sofística, mas entre a educação homérica e a educação filosófica. E assim agiram. Ora, Parmênides não viveu nesse mundo, mas bem antes. Como Sócrates, ele não sentia dificuldades em falar das melhores conquistas do pensamento racional como obra divina. Não se tratava de falar do sobrenatural, e sim daquilo que seria o conhecimento digno dos deuses, e não o que é sujeito ao erro, característico dos mortais. Talvez suas descobertas tenham lhe parecido tão espantosas – no que ele não estava errado – que ele achou prudente manter a humildade e relatar aquilo como obra de uma revelação divina.

Aliás, diga-se de passagem, a maioria dos gregos não via qualquer problema entre tentar encontrar princípios ou leis para a natureza e ao mesmo tempo acreditar nos deuses. Pois estes não eram vistos como distintos por ultrapassarem tais leis naturais. Devemos sempre nos lembrar que o Monte Olimpo, a morada dos deuses, não era um lugar em “outra dimensão”, mas um acidente geográfico realmente existente. Os deuses eram distinguidos por serem imortais, e não por serem responsáveis por “milagres”. As cosmologias gregas, mesmo as mais próximas de uma ciência física que poderia ser chamada de materialista em um sentido quase moderno, procuravam assimilar as atividades dos deuses ao mundo. Além disso, filósofos que se indispuseram com a crença em deuses, acusando-as de reproduzirem um antropomorfismo banal, não negavam a existência dos deuses.

Por tudo isso, é possível dizer que Parmênides não falou da deusa como reveladora do saber do seu poema como uma simples figura retórica, mas como uma forma de mostrar que o saber ali posto não era o da opinião comum, não era o da doxa, a opinião dos mortais.

O que temos de Parmênides é parte pequena de um seu poema. Os antigos que nos deixaram testemunhos sobre o seu escrito disseram que o título do poema era “Da Natureza”. Neste, a deusa fala das vias para o pensamento. A via que ela indica é a do que “é”. A via do que “não é”, ela insiste, não é um caminho possível, pois o que não é não pode ser falado ou pensado. O nada, ou seja, o que não é, se pudesse ser pensado ou falado, nomeado, já seria alguma coisa – seria uma contradição dar nome para coisa alguma. Além disso, a deusa também diz que afirmar de algo que ele é e não é concomitantemente faz parte da atividade dos mortais, ou seja, um grave erro. Um erro típico dos mortais. O saber divino, portanto, só tem espaço pela via do que é – a do ser.

O helenista Terence Irwin[1] tem uma forma didática interessante para expor o essencial do poema de Parmênides:

1. Qualquer coisa de que se possa falar ou se possa pensar deve ser.

2. O nada não pode ser.

3. Daí que, então, o nada não pode ser falado nem pensado.

4. O que é não é o nada.

5. Daí que, então, o que não é não pode ser enunciado ou pensado.

Podemos falar então em mudança? Ora, não podemos! Veja:

6. Podemos falar e pensar do que muda somente se podemos falar ou pensar do que não é.

Foi por essa sua doutrina que Parmênides se transformou no contraponto de Heráclito, o pré-socrático que fez a apologia da mudança. A cosmologia de Heráclito foi condensada na sua frase “não podemos nos banhar no mesmo rio”, o que indicava que a única imutabilidade que tínhamos era a da perpétua mudança. Ora, Platão iniciou sua vida filosófica não como discípulo de Sócrates, mas como estudante de Crátilo, um mestre heraclitiano. Quando tomou conhecimento do poema de Parmênides, ficou indignado.

A primeira coisa que ocorreu a Platão foi se perguntar por que Parmênides havia fixado sua primeira premissa (1) de modo tão confiante. O que teria feito Parmênides acreditar serenamente que qualquer coisa que pode ser enunciada ou pensada tem de ser?

No Teeteto e no Sofista, dois de seus livros, Platão tentou formular uma resposta para tal questão.  Ele diz que talvez Parmênides tenha feito uma analogia entre acreditar e tocar ou acreditar e ver. Como tocar o que não é é tocar o nada, e então absolutamente nada tocar, a falsa crença (acreditar no que não é) seria acreditar em nada, e isso seria, enfim, absolutamente nada acreditar. A mesma coisa valeria para o falar. Nomeamos algo apontando para tal e expressando um enunciado qualquer. Ora, se indicamos o nada, estamos nomeando o nada, e então fazendo um enunciado que apenas um barulho vazio. Ou seja, falar do que não é não é verdadeiramente falar.

Platão buscou entender bem Parmênides. Todavia, não concordou com ele. Não concordou que não pudéssemos ter crenças falsas. Por conseguinte e, também, não deixando de lado seu heraclitismo, não quis ceder a Parmênides e tomar toda a mudança como simplesmente “o que não é” e, então, aquilo que não poderia ser descrito.

Também Aristóteles não concordou com Parmênides. Mas ele tampouco concordou com o resultado da solução proposta por Platão. 

Quanto a que, propriamente, Platão e Aristóteles se opuseram a Parmênides? Primeiro: Parmênides não havia deixado espaço para a falsa crença. Seguir seu raciocínio à risca era não admitir que se poder errar, já que o erro ficava vedado antes de acontecer. Tinha-se aí um problema no âmbito da teoria do conhecimento ou epistemologia (e mesmo da lógica). Segundo: era necessário ver que o poema também afirmava – como não poderia deixar de fazer – que ser e pensamento eram o mesmo. Assim, se não se podia pensar no não ser, não se podia pensar na mudança, ou seja, a ida do ser ao não ser. Desse modo, surgia também uma tese em física (cosmologia) e metafísica. Enquanto os cosmólogos jônios descreviam o movimento e, alguns deles, até afirmavam que tudo que há é o fluxo contínuo, como fez Heráclito, Parmênides estava simplesmente negando a existência do movimento.

Aliás, não podemos deixar de lembrar os argumentos do discípulo de Parmênides, Zenão. Ele levantou paradoxos para mostrar a inexistência do movimento; o fato de se poder ver o movimento não seria outra coisa senão ilusão – ilusão dos sentidos. Por exemplo, Zenão insistiu que uma flecha nunca alcançaria o alvo, pois sempre podemos dividir o espaço entre o arqueiro e o alvo em mais um pedaço, em tese, poderíamos fazer tal operação de divisão infinitamente. Ora, considerando esse raciocínio, num tempo finito teríamos de ter a flecha jamais alcançando o alvo. Assim, entendia Zenão que o que vemos não com os olhos do intelecto, mas com olhos do rosto, que é a flecha chegando ao alvo, nada seria senão apenas erro por confiarmos nos sentidos.

Platão e Aristóteles construíram seus sistemas, em boa medida, em cima de tais problemas. Isto é, eles levaram em conta o que pode ter sido o grande debate dos tempos pré-socráticos, a já anunciada polêmica entre os heraclitianos e os parmenidianos ou, em outras palavras, os da escola eleática (da imutabilidade do ser) e os da escola jônica (os do fluxo contínuo). Mas Platão e Aristóteles não agiram somente a partir desse debate. Eles foram auxiliados – e reconheceram tal auxílio – por outros filósofos pré-socráticos que tentaram dar uma resposta à objeção de Parmênides ao movimento. Esses filósofos foram cosmólogos bem mais próximos dos primeiros jônios que dos eleatas. Eles passaram para a história como os atomistas.

 

Paulo Ghiraldelli Jr.



[1] Irwin, T. Classical philosophy. Oxford: New York, 1999, p. 45.

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