Skip to content

Para além da direita e da esquerda na formação de professores

28/11/2008

LiberdadeEunice Durham fez uma pesquisa em que analisou documentos de cursos de pedagogia. Ela concluiu aquilo que, em parte, o seu próprio grupo ideológico já vem dizendo faz tempo, talvez sem qualquer pesquisa (JC, 28 de novembro). Esse grupo ganha expressão fácil na revista Veja, e tem sido caracterizado, entre outras coisas, pela insistência em dizer que os cursos de pedagogia e de formação de professores são “teóricos”, e o que é preciso é dar aos futuros educadores uma formação enxuta que possibilite a eles ensinar o que não conseguem ensinar – todos os conteúdos da escola de ensino fundamental.

Durham e outros de seu grupo, que estiveram junto com o ex-ministro da Educação Paulo Renato no governo FHC, e que circulam agora em torno do governador de São Paulo José Serra e o de Minas Gerais Aécio Neves, quer nos fazer acreditar que suas posições são “técnicas” e, sendo assim, não são ideológicas. Só os “esquerdistas”, assim denominados por ela, são ideológicos. Essa sua posição é ou ideológica e/ou acrítica. Eunice faria melhor se assumisse que está falando de um ponto de vista ideológico também, como todos nós, só que, diferente do meu ponto de vista, trata-se de uma visão conservadora, que podemos chamar de “direita”.

Feita essa ressalva, eis os pontos que vale a pena destacar entre direita e esquerda no Brasil quando falam do problema da formação de professores. E para assim fazer, vou me valer, como ponto de partida, da fala de Eunice Durham.

A pesquisa dos membros da direita no Brasil nunca aponta para os problemas da formação de professores que envolvam de modo decisivo elementos de planejamento de estado e de recursos. Uma verdade óbvia, que os da esquerda mostram e que, assim, agem de modo correto, é que temos professores que não conseguem dar conta do seu serviço, e isto por razões salariais. A direita não vê assim.  Acredita que o que a esquerda está dizendo é em relação a cada professor existente, ou seja, bastaria pagar mais o professor e ele se tornaria competente do dia para a noite. Mas não é isso que a esquerda diz, ao menos não é isso que a parte responsável da esquerda diz ou deveria dizer. A questão não é imediata e de decisão individual. A questão é de estratégia de política educacional: há de se tornar a profissão de professor mais atrativa financeira e socialmente e, então, teremos melhores pessoas nesse ramo em um prazo de cinco anos ou pouco mais. Reformas de cursos de pedagogia e licenciatura serão úteis quando a clientela que procurar tais cursos for uma clientela um pouco mais intelectualizada.

A direita está correta quando lembra que há corporativismo entre os professores da rede de ensino, e que eles, não raro, se recusam a ver problema na escola em que lecionam. Não é difícil ver que usam de discursos escapistas: quando alguém aponta a falha deles, dizem que é “campanha da Globo para privatizar a escola”. Então, responsabilizam o estado por estarem mal formados e evitam tomar decisões individuais importantes para melhorar. Muitos dos alunos que irão ser professores sabem que não sabem matemática e não tomam a decisão de aprender matemática antes de entrar para cursos de metodologia do ensino de matemática, por exemplo. Também é verdade que uma boa parte dos professores, em especial os professores que formam professores, possui um discurso ideológico de esquerda que é vazio e inculto. Falam em “neoliberalismo” e “globalização” de maneira pomposa, mas tropeçam se são cobrados para dizer o que isso significa para além de frases de propaganda.  Todavia, isso afeta a educação de um modo bem menor do que a direita quer fazer crer.

Eunice Durham diz que os cursos de pedagogia estão voltados para “muita teoria”, ou seja, para o que as faculdades chamam de “fundamentos da educação” – história, filosofia, sociologia etc. –, e ela acerta em um ponto: mostra de fato que tal coisa não pode funcionar. Caso ocorresse, não funcionaria, pois os cursos são rápidos demais para que exista possibilidade de se cumprir os objetivos grandiosos que se espera deles, ao menos no papel (e Eunice acreditou demais no que estava no papel, nas diretrizes desses cursos). Seria necessário bem mais tempo de formação para que os tais “fundamentos da educação” viessem de fato a ser apreendidos pelo futuro professor de modo a melhorar sua capacidade de fazer educação.

Todavia, o que a direita não percebe é que não é isso que ocorre, não há “teorização” nos cursos de formação de professores. Ao contrário, o que ocorre nesses cursos é exatamente o que a direita sugere que deva ocorrer. Há uma formação centrada em psicologia da aprendizagem, didática e metodologias de ensino; e isso é ministrado da maneira a mais rasteira possível. Quem faz o curso sabe disso. A direita política não sabe. Essa formação dada é ruim e estreita. E é mal feita mesmo. Mas não é pela sua tese, ou seja, em princípio – o de que a formação teórica atrapalha –, que não funciona. Não funciona porque nada funciona em um curso em que a clientela é a raspa de tacho do vestibular; e não funciona porque as faculdades que possuem o curso de licenciatura há anos foram colocadas como faculdades “de segunda” – pela sociedade, governo, empresários e pelas próprias reitorias de universidades. Foi isso que o professor Florestan Fernandes disse e insistiu no passado: no trem universitário a faculdade de filosofia, letras e ciências humanas foi posta como vagão de classe A, e a faculdade de educação ficou junto com vagões de carga, lá no fim do comboio. Esse modelo, o da USP reformada pelo regime militar, se reproduziu no Brasil; e o pior ocorreu: fora dela as próprias “faculdades de filosofia, ciências e letras” municipais desapareceram ou se descaracterizaram.

A esquerda pensa de modo a centrar fogo em questões econômicas e nem sempre faz isso alertando antes para a necessidade de melhoria no médio prazo; prefere a luta imediata, a do salário e de sua ampliação por meio de greves. A direita não percebe que essa forma de agir é legítima, e que no limite isso até pode levar os planejadores governamentais a mudar o eixo e tentar fazer algo para que a carreira de professor seja atrativa. A direita escorrega e deixa transparecer à esquerda que gostaria de ver as greves abafadas e o sindicalismo controlado. Ora, parte da esquerda até gosta disso – sindicatos cubanizados ou sovietizados. Então, essa parte da esquerda acaba antes piorando as coisas que ajudando o professorado.

A direita parece gostar do liberalismo no momento em que encontra os responsáveis pelo ensino ruim: o indivíduo é então valorizado. Ele, indivíduo-professor, ganha poderes extraterrestres de decisão – mas não decide. Ele é ruim e não decide melhorar, diz a direita. Mas a direita é menos liberal quando aponta programas de melhoria, pois, neste caso, fala de mercado para dizer que a escola está distante dele, mas não vê que mercado é também mercado de trabalho. O mercado de trabalho para professores é ruim. Nessa hora, acaba o liberalismo da direita. Ela se esquece de que ser liberal é, antes de tudo, enriquecer o mercado para que ele possa ser o “livre mercado” – todo e qualquer mercado, o que inclui o mercado de trabalho, claro.

Na questão do mercado, a esquerda não quer se aproximar do liberalismo, ao menos em ideologia. Mas, na prática, se aproxima. Pois quer melhores salários para o consumo, para o mercado, e até gostaria de ver um mercado de trabalho mais promissor. Mesmo sendo ruim, o professor gostaria de ver o mercado de trabalho exigir mais dele. A esquerda finge não querer o mercado e, então, na falta do diálogo aberto sobre o assunto, não percebe que é por ele, o mercado, e não pela revolução esperada contra ele, que pode melhorar o ensino. Um mercado que é incentivado a ser exigente vai pedir uma mão de obra melhor em todos os setores. Tanto quanto aos professores formadores como quanto aos formados professores por tais professores universitários, os que saem do ensino médio, o que é reivindicado pelo mercado é a satisfação de exigências dadas por uma revolução industrial, tecnológica, intelectual e moral contínua no mundo atual. Falta perceber isso. Falta perceber que a revolução que devemos fazer não é a que pede abolição do mercado, mas uma revolução liberal autêntica que lembre que o mercado enriquecido pede gente melhor preparada.

A esquerda que não tem ódio do liberalismo entende que o mercado não é o causador de problemas na educação, é seu solucionador. Todo nosso ensino está voltado para o mercado. Direta ou indiretamente. E muitas vezes o mercado exige mão de obra competente, inclusive do ponto de vista da competência em Humanidades e pensamento crítico. E eis que nossas escolas ficam aquém do mercado. Nisso a direita é mais realista. Mas ela também fica cega no ponto de chegada. Ela acredita que satisfazer o mercado é enfiar “ensino técnico” goela abaixo. Mas ela não entende o que é o bom ensino técnico, o verdadeiramente requisitado pelo mercado. Não percebe que a história, a geografia, o inglês e a filosofia são disciplinas tão ou mais profissionalizantes que matemática ou física. A esquerda, por sua vez, não consegue ver isso também, mas por razões ideológicas diferentes: não quer nem tocar no assunto da relação entre ensino e mercado.

Esquerda e direita não querem ver que em frente da minha casa existe uma locadora de vídeos que precisa de moças “com ensino médio” para trabalhar, e paga-se ali mais que o salário de um professor do ensino médio; todavia, a vaga não é preenchida. As candidatas não conseguem pronunciar o nome do filme. Elas não sabem contar a história do filme para o cliente, mesmo assistindo o filme dublado várias vezes. Elas não fazem idéia de que poderia ter havido algumas aulas de filosofia, história e literatura em que tudo aquilo que precisavam para poder entrar no mercado de trabalho poderia ter sido ensinado; elas não tiveram essa aula. Elas não tiveram esse necessário ensino técnico.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo e diretor do Centro de Estudos em Filosofia Americana

2 Comentários leave one →
  1. nelsonrodri permalink
    08/12/2008 20:30

    “Reformas de cursos de pedagogia e licenciatura serão úteis quando a clientela que procurar tais cursos for uma clientela um pouco mais intelectualizada”. Sinceramente, não sei como um filósofo consegue escrever isso. No mínimo uma contradição…
    Lamentável…

Trackbacks

  1. O ensino público paulista sobreviverá? | GHIRALDELLI

Deixe uma resposta

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: