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O ensino superior além do biscoito

06/12/2008

ovo-vaca-galinha

A universidade é burra por ser um ninho de apadrinhamento ou é um ninho de apadrinhamento por ser burra? Sim, a universidade brasileira está sob o Parodoxo Tostines, sabemos disso.

A universidade brasileira merece algo diferente do recebido pelo biscoito, que é devorado ao final do tradicional comercial (os mais jovens não conhecem?). Ela merece uma sugestão para sobreviver de modo digno.

Temos que buscar soluções antes que a onda do “eu sou pobre” se torne um meio de vida, e não uma denúncia justa, e, então, coloque todo o nosso ensino superior sob o tacão de “necessidades sociais” que não vão ajudar ninguém, menos ainda os pobres.

Estou falando da onda que força o ensino superior a nivelar suas regras “por baixo”, para que os menos capazes – estatisticamente identificados com “os pobres” – possam adentrar suas salas de aula e laboratórios. Querem dois exemplos? Eles aparecem travestidos com a fantasia “sou de esquerda”.

1. Segundo algumas estatísticas, os alunos do ensino médio que fazem a escola pública não entram na universidade estatal, dita (por ela mesma) como de melhor qualidade que a particular. A solução natural seria a melhoria da escola pública de nível médio, uma vez que ela já foi boa e já foi responsável pela nutrição da universidade estatal. A solução dos defensores dos “pobres” não é esta, é a famosa e inócua “cota social”.

2. Os professores que querem fazer mestrado estão cada vez mais despreparados para tal. Eles não possuem a segunda língua, necessária para as pesquisas. Então, em vez de termos sugestões para melhorar a qualidade dos professores e lhes dar uma segunda língua (eu aprendi o básico de uma segunda língua no “ginásio público”, nos anos 60, ora bolas), a solução proposta, vinda de alguns defensores dos “pobres” é a eliminação do inglês como segunda língua no mestrado. Isso seria maluco, pois teríamos pesquisadores que não poderiam ler os “papers” do Primeiro Mundo (alguns acham que podem ler através dos tradutores de Internet!).

Só esses dois exemplos já mostram que o não funcionamento da universidade brasileira provoca a nossa sociedade de um modo pouco alvissareiro. Em vez de olharmos para a universidade e para o ensino em geral, para melhorá-lo, começamos a ceder a populismos aqui e ali. Os primeiros a perder com isso são os pobres.

Bom, mas então, o que podemos melhorar na universidade brasileira?

Do ponto de vista geral, temos de começar a pensar na idéia de “administração da universidade”. O administrador de universidade no Brasil economiza sua imaginação. A universidade particular copia o modo de administrar o ensino superior da universidade estatal, principalmente seus erros. Do ponto de vista da legislação, a LDB pode dar asas para um bom administrador, mas ele não arrisca, na escola particular, a fazer algo diferente da estatal, pois ele teme que se não seguir o “modelão”, não irá ter o aval governamental necessário para funcionar.

Todavia, caso a imaginação pudesse ser realmente livre, o que faria um reitor de universidade ou um diretor de centro universitário ou faculdade, para impulsionar sua instituição? Eis duas medidas simples, plausíveis, de bom senso.

Uma medida objetiva. Deveria ser feito algo em relação aos concursos. Toda escola, particular ou estatal, deveria ter concursos para professores que fossem momentos chaves da vida universitária. Ou seja, contratar um professor teria de ser “um evento”. Não um evento para solicitar dos candidatos um volume de documentos e escritos que fazem com que muitos não consigam se inscrever. Não, a bibliografia deveria ser simples e objetiva, curta, curtíssima. E o candidato não iria entrar por julgamento de banca em “prova de títulos” ou “aula”, mas unicamente por prova escrita. A aula pública teria de existir, e com a maior publicidade possível, mas o aval para se ter o professor contratado seria apenas a prova escrita, o resto faria parte do ritual de apresentação do professor à comunidade (e os títulos são pré-requsito). Essas provas escritas deveriam ser publicadas. E a avaliação delas também, inclusive os pontos onde o avaliador julgou que o candidato estava errado.

Uma medida subjetiva. Teríamos de fazer valer na universidade a regra máxima da administração: cada um é incentivado na sua vocação, não na padronização. Que todos tenham mestrado e doutorado, isso é o mínimo e deveria continuar a valer. Mas que todos tenham de ser ou pesquisadores ou “auleiros” é uma má divisão que deveria acabar. Um professor que ultrapassa a regra de 16 aulas por semana, na universidade, mente se disser que realmente ministrou essas aulas “em nível universitário”. Ele não agüenta isso, mesmo se for jovem. Um professor que fica publicando “papers” e “papers” que ninguém lê, para ter “pontinhos na CAPES”, não está publicando nada de relevante. Isso não é um incentivo ao “improdutivo”. O certo é olhar caso a caso.  O correto, para evitar essas duas situações, é proporcionar aos professores maior tempo para se dedicarem às atividades de ensino e pesquisa que estão mais de acordo com suas vocações. Rádio, TV, EAD (verdadeira) jornais, assistência social, organização de congressos, administração setorial e, é claro, principalmente, tudo o que se faz para melhorar a sala de aula teria de ser “atividade do professor”. Mas não de todos, e sim dos vocacionados para cada uma delas. E isso o bom administrar descobre sem burocracia, mas conhecendo os que estão sob seu comando e direcionando-os para tais coisas.

Há uma série de outras medidas possíveis, eu sei; mas, com essas duas, se cuidadosamente seguidas, mudaríamos muito dentro do que podemos mudar no ensino superior. E isso, seguindo a regra de que o ótimo é inimigo do bom.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo www.filosofia.pro.br

 

 

 

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One Comment leave one →
  1. 09/12/2008 22:06

    Para variar, Paulo, uma análise breve e certeira da universidade. E, como bônus, uma sugestão sensata: esse formato de contratação de professores que você expôs seria interessantíssimo. Só acho que, no caso dos mega-concursos para professores públicos, as empresas contratadas pelas secretarias municipais e estaduais não teriam a mínima vontade (nem disporiam de avaliadores intelectualmente capacidados) de avaliar as provas escritas de milhares de candidatos. De qualquer modo, bela postagem, como de costume.

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