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Deus e o Diabo disputam o ensino brasileiro?

13/12/2008

Carol Castro com Jesus[Escute no PodCast Filosofia ]

[Veja o Vídeo!]

Finalmente Deus e o Diabo chegaram ao Terceiro Mundo. Demorou, mas vieram. Durante a década de 90 eles se mantiveram nos Estados Unidos. E eu estava intrigado: por que só lá? E os outros mortais, não poderiam usufruir da polêmica dos séculos passados sobre se devemos ou não colocar o “criacionismo” nas escolas? Afinal, estamos no século XXI, e é natural que se lemos tanta coisa dos séculos passados e imaginamos ser algo atual, não custava nada também ressuscitar isso. Afinal, o homem comum não ressuscita Lázaros, só pode fazer isso com velhas polêmicas.

Todo tipo de religião entra na escola. Umas entram mais, uma vez que são as religiões das elites ou de grupos emergentes. Éramos católicos todos, até pouco tempo, mesmo que fôssemos aos terreiros de Umbanda. Hoje nós continuamos indo a terreiros, claro, pois são mais interessantes. Todavia, uma boa parte de nós virou evangélico. Nunca houve uma escola laica no sentido radical do termo no Brasil. Estudei em escola pública a vida toda (e por isso me formei bem, pois a escola pública não era o que os governos – inclusive o do PT e do PSDB – a transformaram), e não foram poucos os dias que rezamos em sala de aula, segundo um bom ritual católico. Os “crentes”? Ah, eram apenas dois ou três “ignorantes” – era assim que nós pensávamos, os da religião oficial. E foi assim. Em parte, é assim. E se “os crentes” se tornarem a elite, não vai mudar, talvez até piore.

Escola é lugar de religião. Você a chuta para fora, pela porta. Sabe o que ela faz? Ela volta pela janela. Você fecha a janela. Sabe o que ocorre? As pessoas falam: ficou muito escuro aqui dentro agora, é necessário luz. E vem a luz: a da ciência, a da filosofia e, é claro, um cara sempre grita lá no fundo: “e a luz de Jesus?” E vem Jesus. É assim que funciona um lugar de jovens e crianças. Os adultos não conseguem imaginar um processo educacional sem religião. Eles até podem ser ateus. Mas eles não possuem nenhum projeto verdadeiramente laico para educar os filhos. Podem até dizer para os filhos que Deus não existe. Mas como acreditam no Diabo, acabam mostrando aos filhos que, ao menos na escola, seria legal conviver com Deus. E lá vem a religião. E vem com tudo, sempre. Vem padre que gosta de criança e vem o Cacá para virar pastor. Religião é uma fonte de renda imensa.

Bem, do ponto de vista de um filósofo como eu, que não sou professor de filosofia, sou uma pessoa que vive como filósofo, não há como não estar com um pé no iluminismo. Todavia, antes do Iluminismo, tivemos o Renascimento e o início das idéias liberais. Aprendemos com Locke e outros a idéia de “tolerância religiosa”. Eu penso que fui além. Aprendi com William James a idéia de que a religião, a ciência e a filosofia são espaços diferentes.  

Não vou dizer aqui que a religião trabalha com metáforas e a ciência trabalha com o literal e a filosofia reflete sobre as duas. Isso seria uma opinião, não uma posição filosófica. Uma posição filosófica precisa ser mais qualificada. Talvez fosse interessante começar a pensar que todas as três trabalham com metáforas, todas elas são grandes ficções. São narrativas de convívio, nada mais. O inteligente é saber que elas indicam lugares de convívio. Elas criam espaços de convívio. Elas inauguram praças e clareiras em florestas. Todas as três possuem algo horrível. Ou seja, em todas elas o Diabo se aloja. Ele se chama dogmatismo. Sim, o Diabo tem vários nomes. Mas no âmbito da cultura, ele se chama dogmatismo.

Então, quando Deus dá uma cochilada (e Deus faz isso de propósito), o Diabo reaparece. Ele vem com aquele papo dele, de Diabo. Finge de tolerante, de liberal e … pimba, solta lá o seu verbo dogmático. Ele inventa guerras. Quando Deus acorda do seu sono fingido, começa a soltar raios … ah, desculpa, é Zeus que solta raios. Bem, Deus acorda nervoso (assim fica melhor). E ele diz: “puxa vida gente, eu imaginei que só Bin Laden estivesse nessa de ficar brigando por religião ainda”.

Mas nós não ouvimos Deus. Caso ouvíssemos, seríamos santos. Mas que sem graça! Então, nos engalfinhamos em polêmicas absurdas. Começamos a querer resolver como que a escola deve ensinar a origem do mundo. Uns falam que as teorias evolucionistas (que, aliás, não deveriam se resumir só a Darwin, caso quiséssemos ser honestos) deveriam ter o monopólio do ensino sobre a criação da vida. Sim, o evolucionismo tem boa história para contar – eu admito. Outros falam que se os evolucionistas contam sua história, os criacionistas deveriam poder contar também (bom, se quiséssemos mesmo ser honestos, deveríamos então abrir espaço para as religiões afro!). Ora, mas qual a razão de não podermos contar todas essas histórias para as crianças? Qual a razão de contarmos uma história do “Lobo Mau e os Três Porquinhos” e não podermos contar uma história da “Branca de Neve e Sete Anões”? Não há nenhum argumento capaz de convencer uma pessoa mais ou menos sadia mentalmente de que uma história de certo tipo irá tornar a criança melhor e outra mais ou menos do mesmo tipo não irá. As histórias antes formam que deformam. A TV também. Essas histórias têm menos poder sobre as crianças que queremos fazer crer. Crianças são antes guiadas por exemplos de pais e parentes que por histórias escolares.

Agora, a questão é o tipo de hora de se contar uma história. Nossa grade curricular ainda é vertical. E caso Deus continue a viver, sem que o Diabo o mate na hora que ele cochilar, a nossa escola continuará tendo uma grade vertical e os que apostam na transversalidade serão queimados no fogo dos infernos – ou qualquer outro fogo. Pode ser apenas num fogo de bar, numa bebedeira, se quiserem. Bem, com eu dizia, nossa grade curricular é vertical, então, temos de colocar as coisas em “disciplinas”, “matérias”. Ora, não vejo nenhum problema em manter as várias teorias da evolução nas aulas de ciências – pois a questão da evolução, hoje, não é uma questão como era no tempo de Darwin, ou seja, uma teoria não laboratorial, passa pela engenharia genética etc. – e manter as aulas de religião vigentes, com todas as religiões tendo seu espaço. Ou seja, poderíamos até melhorar o quadro: que tal a transformação da aula de religião em “história das religiões”? História da religião para valer, com bons professores e, inclusive, com debates com intelectuais de Sinagogas, Muçulmanos etc.

Com isso, todo mundo poderá fornecer sua narrativa. Ah! Sim, sei sei. Os religiosos irão dizer: “ah! mas então nós vamos contar a história, que admite versões, e a ciência vai contar a verdade? Assim não vale”. Ora, mas se o religioso pensa assim, que o evolucionismo, só porque está na aula de “ciências”, deve ser tomado como verdade e o criacionismo, por estar na aula de religião, deve ser tomado como uma “parábola”, um “mito” ou uma “versão”, ele próprio, religioso, está conferindo à ciência um poder que ele, se fosse um religioso culto, não daria. A aula de ciências também lida com versões – por isso seria mais justo e honesto que pudéssemos falar em neolamarckismo nas aulas de ciências tanto quanto falamos de darwinismo.

Todavia, podemos ser mais honestos ainda. Podemos ser justos. Então, recuperaríamos os transversalistas. Tiraríamos esse pessoal da quarentena e fundaríamos com eles espaços intermediários na grade curricular. Nesses espaços, poderíamos discutir, por exemplo, as inúmeras formulações filosófico-religiosas que acoplam teorias evolucionistas e religião. Na Igreja Católica, por exemplo, existe uma série de versões do projeto criacionista em que o projeto evolucionista é absorvido e respeitado, integrado mesmo. Afinal, a Igreja Católica nunca foi obscurantista. Ao menos não na cúpula! Ela sempre tentou lidar com o novo – ainda que, nas bases, ela tenha usado da força. Ora, mas quem não usou, não é? Será que outras igrejas também possuem esse tipo de sofisticação? Creio que algumas sim, afinal, as igrejas não católicas já estão aí na praça faz tempo, e algumas delas nasceram de projetos nitidamente intelectuais.

Bem, as coisas poderiam ser assim. Poderíamos acomodar Deus e o Diabo dessa maneira. Mas, para tal, precisaríamos ter uma escola funcionando. E no Brasil a escola pública está acabada, e a escola particular, em grande medida, está fingindo que faz algo. Só alguns grandes colégios usam livros e pagam bem professores. O grosso da escola particular ensina mal e paga mal. Sobrevivem porque a classe média não quer voltar para a não-escola, que é o que virou a escola pública. Então, em um país onde não há escola, não adianta querer acomodar Deus e o Diabo, pois ambos pressupõem a escola para viver. Eles logo logo descobrirão que não temos escolas e voltarão para América. Até eles querem viver o sonho americano.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo (religião? Ah, sim, acredito nos deuses greco-romanos, é claro, e como bom italiano, vendo uma macarronada me torno devoto de Baco imediatamente).

 

 

 

 

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