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Sócrates Frankenstein(1)

17/12/2008

Sócrates Frankensteins de Marilena Chaui.

  

Sócrates nunca foi “parteiro de idéias”. O método da “maiêutica” foi mostrado por Platão em uma passagem do Menon, para que o menino escravo ignorante chegasse a um teorema matemático. Todavia, esse livro pertence à fase em que Sócrates é um personagem platônico de Platão. Não é o “Sócrates histórico” que Platão apresenta nos “primeiros diálogos”. É aquele que apresenta o que é unicamente uma teoria de Platão, a da “rememoração” como pedagogia.

Faz mais de meio século que a literatura de língua inglesa sobre o assunto mostra que o método de Sócrates, se é que ele teve algum, foi o elenkhos – o “método da refutação”. Mas os manuais brasileiros, presos a uma bibliografia superada, insistem em falar do “Sócrates histórico” como parteiro de idéias.

Nos “primeiros diálogos”, onde concordarmos que Platão tentou mostrar antes o filosofar de Sócrates que o seu próprio, o que ocorre são conversas que terminam em aporia – ou seja, um impasse. O interlocutor é refutado no que afirma como resposta à pergunta socrática (“o que é a coragem?”, “o que é justiça?” etc.) e, por sua vez, também Sócrates não tem uma resposta. Ora, se é assim, como dizer que Sócrates “paria idéias”. Caso ele fizesse isso, ele obteria as respostas (como no caso do menino escravo).

Os escritores de manuais no Brasil nem precisariam investigar muito para perceber que ao afirmarem que os diálogos socráticos terminam em aporias não poderiam conviver com a afirmação de que Sócrates “paria” respostas. Ou seja, basta aplicar o próprio elenkhos aos autores de manuais de história da filosofia para derrubá-los. Eles são refutados (à maneira socrática) uma vez que afirmam dois enunciados que não podem ser mantidos juntos.

O Introdução à história da filosofia da professora Marilena Chauí (Cia. Das Letras, 2002) comete esse erro. Todavia, neste caso, a situação é pior que a comum. O livro de Chauí tenta fundir o elenkhos e a maiêutica. É um erro historiográfico e lógico. Todavia, no caso específico, é também um erro de descaso. Pois Chauí usa o clássico artigo do helenista Gregory Vlastos que separa o “Sócrates histórico”, o do elenkhos, dos vários personagens com nome de Sócrates, que falam uma linguagem antes platônica que socrática. Ora, tudo indica que ela usou o texto de Vlastos de maneira mecânica, copiando, sem refletir sobre o seu conteúdo. E então surge um Sócrates Frankenstein. Não é Sócrates, não é Platão, nem é um personagem que poderia endossar uma visão mais ou menos unificada, que perdurou durante algum tempo com certa validade, ao menos na literatura pré-Segunda Guerra Mundial.

Sócrates vem sendo maltratado no Brasil. Não há razão para ele ser esse monstro. Ele era feio, dizem, mas não tanto quanto Frankenstein. Atenas o condenou, já basta.

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo e diretor do Centro de Estudos em Filosofia Americana. – Venha para a rede do filósofo: http://ghiraldelli.ning.com


[1] Uma exposição mais detalhada do argumento deste texto está no meu livro História da filosofia – dos pré-socráticos a Santo Agostinho. São Paulo: Editora Contexto, 2008. Veja também: www.filosofia.pro.br

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