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O crime da apostila

19/12/2008

 

Para o amigo e mestre fora da salBode Francisco Orelana, um intelectual em defesa do status quoa de aula, Luís Milanesi

Os escritores deveriam estar preocupados. Os professores também. O Ministro da Educação deveria dar atenção ao assunto. E nossa mídia independente precisaria começar a agir. É que o futuro do livro está ameaçado. Seriamente ameaçado.

Não pensem que estou falando do futuro do livro impresso. Que o livro vai ganhar outras formas, a partir da Internet e da associação da Internet com a TV, isso já sabemos. E isso será mais rápido do que imaginamos. O perigo não vem da tecnologia, vem do tipo de mentalidade que estamos formando e da política educacional que temos levado adiante.

Vi tudo na Rede Globo, no meio da novela “A Favorita”. Ao invés de ter a grata surpresa de encontrar Patrícia Pillar e Ari Fontoura fazendo a impagável dupla Flora e Silveirinha, tive o desprazer de ver mais uma cena de apologia de apostilas como “solução para a educação nacional”.

Esse tipo de “solução” vem de grupos de intelectuais que, no espectro político, se localizam bem mais à direita que ao centro. Eles possuem uma forte influência nos governos estaduais e no MEC.

Ao mesmo tempo em que atacam os cursos de pedagogia, considerando-os “ideológicos” ou “teóricos”, esses grupos colocam a didática contra a política educacional. Ou seja, priorizam demais ações de âmbito pedagógico-didático para preencher todo o discurso de política educacional. Abrir espaço no âmbito da discussão em política educacional os levaria a ter de ouvir o tema da desvalorização do magistério no Brasil (uma discussão que também o MEC quer evitar, inventando o “piso salarial”).

O resultado dessa estratégia é que querem antes vender apostila que qualquer outra coisa. No limite, todo o discurso ideológico deles contra a “ideologia marxista” e a “teorização” na formação do professor termina em um só objetivo: vender apostila. A idéia básica é entrar no campo editorial, transformando-o em lugar antes de reprodução que de criação. E como no Brasil a indústria do livro não sobreviveria sem o estudante e o professor, eles vão direto ao ponto: a escola. Caso quisessem ter uma rede própria de ensino apostilada, estariam em seu direito legítimo. Mas querem ludibriar a escola pública.

Eis a regra do grupo: ir direto ao prefeito de cada município e tirar dos cofres públicos o dinheiro. Desatento ao que pode ser uma boa educação, o prefeito cai fácil na conversa. Pensa “ganhar votos” ao dizer que fez no município “o que estava na novela”. Seguir o que está “na jogada” é sempre “uma boa” para o político – é o que imagina a maioria.

A apostila é cópia, apenas um modo de burlar a lei que regulamenta a “cópia xerografada”. Ela é apócrifa. Quando tem autor, esse autor é desconhecido do meio cultural. A apostila é fruto de algumas horas de trabalho de reprodução, não pertence ao mundo de anos de formação para a elaboração de um pensamento original, como o livro.

O conteúdo-livro vem do campo do escritor ou, no caso do livro para-didático ou acadêmico, do professor-escritor. No caso, o autor passa pela formação necessária de uma vida acadêmica que deveria ser exemplar. O autor da apostila passa pela capacidade de manipular bem a cópia. O livro faz o leitor e/ou estudante ter de raciocinar, pois ele tem um percurso próprio que vem da elaboração do autor, a apostila faz o leitor e ou estudante captar fórmulas prontas e induz o ensino baseado na memória – no limite, na “decoreba”. A apostila sempre serviu antes ao treinamento que ao ensino. O livro sempre serviu à imaginação e à educação antes que à criação do jovem robozinho.

Sobre o avanço do sistema de apostilas sobre a escola pública estamos diante da evolução de um crime, e estamos quietos.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.

www.filosofia.pro.br  e http://ghiraldelli.ning.com

2 Comentários leave one →
  1. jonoturno permalink
    12/01/2009 16:48

    Paulo concordo plenamente com mais este texto, pena que meus colegas de profissão não dão ouvidos, estão cansados ou não se interessam por estes textos como este que promove, no mínimo, uma indignação contra quem o escreve. Se isto fosse possível, ficarai muito feliz. Um dia desses eu colcoquei no mural da escola na sala dpos professores um texto seu sobre o dia dos professores e no dia seguinte alguém o tirou, não entendi e coloquei novamente, e tiraram novamente então fui perguntar quem saberia dizer quem tirou o texto e não encontrei respostas. Cheguei a pensar, alguém deve ter se interessado e levado para outras pessoas mais interessadas poderem ler, também cheguei a pensar que havia ressurgido algum grupo secreto pró-governo que observa professores (as) e inibem qualquer forma de pensamento crítico, bem não sei o que houve mas são coisas simples como esta que me faz pensar como anda estranha a escola e as pessoas que fazem seu cotidiano. Vamos continuar esta crítica água e furar esta pedra que nos barra e emburrece as futuras gerações, as atuais, as velhas…

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