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Para derrotar o vírus da Tristeza de Natal

21/12/2008

 

glub_glubHá pessoas que ficam tristes no Natal. Especialmente na noite de Natal, há os que não conseguem ficar alegres nem por um momento, mesmo que aparentemente nada indique razão para aquele beiço enorme que fazem ou para aquela cara amarrada que vestem.

 

Não falo dos depressivos de sempre. Estes já deveriam estar tomando algum derivado de paroxetina, e se não tomam é antes porque adotaram a identidade de depressivos que por qualquer aversão a remédios.

 

Sobre a “tristeza de Natal”, chamo a atenção para os que ficam melancólicos “sem razão ou causa”. Quem é vítima da “tristeza de Natal” pode ter as orelhas murchas, os olhos diminuídos, a boca cerrada e o nariz endurecido. Pode também ter os olhos um pouco parados, as orelhas quentes, o nariz seco e a boca um pouco torta. Há os que perdem qualquer expressão, ganham apenas a cara de “tristeza de Natal”.

 

A “tristeza de Natal” é um tipo de melancolia. Mas não é melancolia. É quase um luto, mas não é um luto. É uma culpa – certamente. Mas um culpa diluída. A “tristeza de Natal” é um estado de quem sente que “falta algo” – um amor desfeito, uma paixão não vivida, uma parceria que acabou sem que a conversa tivesse acabado, um sexo bem feito que se perdeu, um dinheiro prometido que não veio, um emprego que foi embora, uma desvalorização imposta, uma falta de ter feito a coisa certa, uma incapacidade para agir, uma imensa falta de capacidade de “virar o jogo”. A “tristeza de Natal”, que se apodera da sua alma sem você saber de onde veio, chega antes que Papai Noel e vai embora mais tarde que ele. Adora uísque estrangeiro, mas como não sabe beber, a “tristeza de Natal” aceita qualquer coisa.

 

O pior remédio para a “tristeza de Natal” é a bebida. Mesmo quando você não se expõe e bebe quieto, na ceia de Natal na sua casa, a bebida traz pouco de vantagem; no máximo, ela o faz ganhar a ressaca do dia seguinte. Todavia, é bobagem você tentar encontrar outro paliativo para a “tristeza de Natal” que não a bebida. A bebida é como o supositório, você vai tomar naquele lugar, mas sabe que é bom, que é o que se tem naquele momento para sarar.

 

O segredo para que a bebida possa tirar você, ainda que aos poucos, da “tristeza de Natal”, é você beber devagar e encontrar nos familiares que ama o lugar do amor que foi dedicado a você. Caso tiver sua memória aguçada, irá descobrir que em algum momento da vida familiar um deles se dedicou a você. Apanhe isso é imagine que é uma caixinha vermelha de laço amarelo que você está abrindo. Feche os olhos e desembrulhe lentamente. Ah! Lá está no fundo da caixa algo chamado carinho – você recebeu sim, recebeu aquilo, e foi daquela pessoa da família, não foi? Então, beba. Perceba a bebida tomar seu corpo sem que lhe faça passar mal, e se aproxime do familiar que quer abraça e abrace. Deixe o corpo se entregar ao afago. Não abrace como quem abraça parceiros de negócios. Abrace para valer. Saiba que o que havia na caixinha era uma dádiva. A atenção de um familiar é uma dádiva. Você está a um passo de entender que é uma pessoa importante. Caso realmente queira, irá ver que a “tristeza de Natal” começa a retroceder. Daí para diante, é com você.

 

Esse tratamento pode ser iniciado mais ou menos umas três horas antes da meia noite na noite de Natal. Costuma não ter contra-indicações. É claro que às vezes você, na hora de abraçar, abraça uma prima casada, fica mais ousado aqui e ali e termina por tomar uns tapas do marido dela. Não tem importância, lembre-se que não há remédio que não tenha efeito colateral.

 

O remédio vale para o sexo feminino também, com a troca de palavras, de prima para primo e de marido para esposa. O remédio também vale para o sexo feminino, sem as trocas dessas palavras, quando for o caso. O mesmo se diz para o equivalente masculino.

 

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.

 

 

One Comment leave one →
  1. 22/12/2008 11:46

    Escutei numa rádio americana de um senhor de 90 anos: Vantagens dos tempos atuais: toda uma riquíssima parafernália tecnológica dentro de casa, impensáveis na época. Vantagens dos tempos antigos: o vizinho era um amigo; hoje o vizinho é um estranho. Esse distanciamento está afetando também a vida familiar. Já sei de pais que não contam nem com nem com os filhos crescidos nas festas de fim de ano. O Natal é uma festa essencialmente familiar, até porque celebra o surgimento da Sagrada Família. Nostalgia no Natal? É o preço que estamos pagando por esse distanciamento, fundamental para as liberdades adquiridas. Ontem vi um filme sobre Bouvoir e Sartre. Parece que no meio ela já estava farta.Ele diz o seguinte: “Quando criamos um casamento aberto a aventuras conjugais, nos esquecemos um fator importante: Os outros também têm sentimentos.” Enfim, contradições da liberdade.

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