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O Ensino Médio em busca de um rosto

23/12/2008

 

Haddad, do MECO ministro da Educação Fernando Haddad quer a obrigatoriedade do ensino médio. Deseja também a modificação da grade curricular desta faixa do ensino básico. A idéia anunciada (Estadão, 22/dezembro de 2008) é a de quebrar a barreira entre o ensino técnico e o propedêutico. Tem como mira, segundo ele, a excelência do ensino dado nas escolas técnicas federais.

 

A excelência das escolas técnicas federais foi o que apontei como o que teria de ser notado, no contexto da minha “crítica ao PDE”, feita por encomenda do MEC, cujo trabalho foi financiado pela Organização dos Estados Ibero-americanos. Fico feliz que após mais de um ano da entrega do meu texto, o MEC tenha levado em conta ao menos esta sugestão. Todavia, podemos ficar contentes?

 

Há uma série de problemas que o MEC não quer enfrentar. Ou se quer, não diz.

 

Em relação ao ensino médio seria necessário antes de começar a soltar balões de ensaio, tornar mais claro o que se deseja. Um ponto complicado é o da obrigatoriedade. É difícil para um país como o nosso, com um ensino básico tão deficiente a ponto de nos colocar nos últimos lugares dos exames do PISA, tentar forçar uma obrigatoriedade de mais de nove anos de ensino. Principalmente se levarmos em conta que o próprio governo que propõe isso, o do Presidente Lula, não cumpre a lei que rege os gastos da União com a educação. Todavia, vamos supor que exista uma intenção do governo Lula de cumprir essa lei, que foi promessa de campanha, e então ao menos no último ano de governo fazer o prometido. Além disso, vamos supor que o país daqui para diante não pare de crescer e que sejamos capazes de dar 12 anos de ensino obrigatório. O que seria, então, a reforma do ensino médio?

 

O Governo Federal não tem poder para legislar no ensino médio, dado que tal faixa é da alçada dos Estados. Então, só isso já deveria fazer Fernando Haddad ser mais cuidadoso. Mas, se ele acredita que pode convencer alguns Estados a mudar, o que teria de ser mudado?

 

Fernando Haddad diz que quer quebrar a fronteira entre ensino técnico profissional e ensino propedêutico. Todavia, será que há clareza quanto ao que se diz que é essa barreira?

 

O grande drama posto por essa barreira é que muitos imaginam que o “mercado de trabalho” requer um ensino especializado, ou seja, um “ensino técnico”. A idéia de relacionar o “técnico” com o “trabalho” está arraigada na mente de muitos brasileiros, e até mesmo de teóricos da educação. Todavia, nada mais distante do mundo do trabalho brasileiro do que nossa concepção popular do que é “técnico”.

 

Imaginamos que “técnico” é um ensino profissionalizante na medida em que ensina o básico de uma profissão. Até aí, não há muito a objetar. Todavia, daí para diante as coisas se complicam, pois a nossa visão do que é uma profissão nem sempre está adequado ao que o mundo do trabalho forja como sendo uma profissão. Vou dar um exemplo concreto. Lula tem uma profissão, ele é torneiro mecânico. Ele aprendeu um saber chamado de “técnico”. No sindicato da empresa, aprendeu outra profissão: sindicalista. Depois, no PT, aprendeu mais uma: político. Lula hoje tem três experiências profissionais distintas. E ele não é um caso isolado. Ao contrário, a maioria dos brasileiros tem esse perfil, o de cruzar a vida numa contínua re-profissionalização.O problema da nossa concepção de “técnico” e de “profissionalizante” é que acreditamos que torneiro mecânico é a profissão do Lula, que sindicalista e político não. E acreditamos, então, por decorrência, que podemos fazer um curso técnico-profissionalizante de “torneiro mecânico”, mas não de sindicalista ou político. A idéia de que nos profissionalizamos continuamente, e que mudamos de ramo, não é absorvida. Mas é a realidade.

 

Em outras palavras: o campo do saber que lida com a cultura geral ampla, que passa não só por rudimentos de matemática e português e ciências, mas também por filosofia, sociologia, biologia, literatura, religião, geografia, história, fisica etc., não é visto por nós como saber técnico-profissionalizante. Não conseguimos aceitar que existam cursos técnico-profissionalizantes que sejam exatamente os cursos que educam as elites para o comando político, em altos escalões ou em escalões médios. As elites aprendem o comando do país em escolas. Os outros, os que não são da elite, aprendem “na vida”.

 

Mas, em outros países, não é assim. Uma boa parte da população, elite ou não, aprende profissões de comando em escolas. É que em outros países – e os Estados Unidos são um exemplo disso – o ensino é sempre um ensino para exercer liderança, seja onde for, e para tal o melhor ensino profissionalizante é o ensino que articula o saber dos clássicos com a capacidade de formulação e resolução de problemas.

 

Para romper com a barreira que Haddad quer romper, e necessário mais do que à primeira vista se imagina. É necessária a intervenção aguçada da filosofia da educação no debate. Pois é preciso, antes de um rearranjo curricular, uma discussão em epistemologia da educação e em ética, para sabermos que tipo de conhecimento queremos que os jovens saibam e quais os valores que fazem com que o mundo do trabalho e tais conhecimentos de adaptem um ao outro de modo ótimo e não prejudicial a nós mesmos.

 

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo

 

Filosofia e história da educação brasileira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em 2009 você terá a educação brasileira na palma de sua mão com este novo livro do filósofo Paulo Ghiraldelli Jr: Filosofia e história da educação brasileira. São Paulo: Manole, 2009.

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