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Nietzsche gostava de mulher

27/12/2008

Lou SaloméNão existe um “Nietzsche para Dummies”. Caso alguém tenha tentado fazer isso, não quero ver o resultado. Tanto quanto Marx, Nietzsche só escreveu para pessoas inteligentes. Todavia, diferentemente de Adorno, que escreveu de modo a não poder ser copiado por idiotas, Marx e Nietzsche escreveram de modo direto e jornalístico. Eles não estavam preocupados com bocós capazes de copiá-los e transformar seus escritos em doutrinas baratas. Há quem diga que Adorno acertou mais fazendo o que fez. Duvido. Já vi até mesmo Adorno ser lido por farofeiros do Guarujá.

O que escrevo aqui, portanto, não é uma tentativa de “popularizar Nietzsche”. Apenas aponto algumas poucas linhas sobre aquele tipo de erro mais comum, que não quero ver reproduzido. Há pessoas inteligentes, mas que, às vezes, por conta de desinformação ou de muita informação sem a devida formação, caem em valetas evitáveis. Vamos ver se consigo dar uma dica de três valetas.

Primeiro erro: Nietzsche despreza as mulheres. Não. Errado mesmo! Nietzsche tinha apreço por Lou Salomé, talvez até mais que apreço. Admirava as mulheres. Agora, em seus escritos filosóficos, a “mulher” é um personagem (trans-histórico) que se encaixa na sua tipologia dos “fracos” ou “doentes” ou “escravos” ou “servos” ou “homem moderno” ou “cristão” ou “socialista” ou “feminista” ou “judeu”. Qual foi o papel desse tipo? Um dos principais: ter feito a primeira “transvaloração de todos os valores”. Ou seja, em termos éticos: ter instituído a moral da prudência em detrimento da moral da honra. Em termos epistemológicos: ter instituído a atividade racional em detrimento do uso dos instintos. Em termos cosmológicos: ter colaborado com a vontade de potência no que esta empurrou as forças reativas. Em termos de filosofia da história: ter dado alimento ao niilismo. Em termos filosóficos amplos: enquanto elemento fraco, ter colaborado com os criadores da metafísica.

Segundo erro: Nietzsche foi nazista antes do nazismo. Não. Errado, errado, errado! Nietzsche foi um dos primeiros pensadores contemporâneos – e talvez por isso ele seja um dos filósofos do final do século XIX que os filósofos ainda lêem no início do XXI – a criar uma filosofia efetivamente perspectivista e, por isso, pluralista. A epistemologia de Nietzsche é de um pragmatismo avant la lettre e, então, necessariamente perspectivista. Nietzsche nunca acreditou que poderíamos falar em conhecimento ou saber a partir de uma visão “do Olho de Deus”, muito menos uma visão “relativista”. Teríamos de ir escolhendo visões, compondo visões, complexificando visões – mas sempre seria antes visões que visão, nunca uma única compreensão absoluta. No meu jargão rortiano: Nietzsche sempre achou que sem redescrições não faríamos o que ele dizia, mais ou menos, que eram “experiências do pensamento”. Uma filosofia deste tipo não poderia nunca coadunar com o totalitarismo, que exige unidade de doutrina e de olhar.

Terceiro erro: o Übermensch de Nietzsche pode ser assimilado a qualquer coisa como super-homem. Não deve. O Übermensch não pode ter qualquer característica humana. Portanto, é complicado falar em super-homem, uma vez que o super-homem tem algo de homem. Além-do-homem é uma tentativa melhor, pois indica de modo mais fácil que é algo que pode não ser humano. O homem é um ser que valora – assim escreveu Nietzsche. O que ele queria é que pudéssemos eliminar de uma vez por todas os seres que valoram, pois valorar é uma atividade não autêntica, e certamente, não é boa coisa, não nos fez o que existe na terra melhor ou mais feliz. Agora, é errado achar que Nietzsche, não sendo metafísico – de fato a tese de um Nietzsche metafísico, de Heidegger, é controversa –, não poderia falar em Além-do-homem. Este não seria um ponto fixo, metafísico, num futuro. Ele apenas seria o que está … além. Este além não precisa estar em um plano metafísico. Meta-física é além-da-física (ou aquém, depende de como olhamos), mas além do homem (físico) não é metafísico. Cuidado!

Há mais pontos. Mas, quem seguir esses três, já terá andado bastante.

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo (veja: http://ghiraldelli.ning.com)

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2 Comentários leave one →
  1. klaudia60 permalink
    27/12/2008 12:36

    Olá, Paulo, não me graduei em Filosofia, mas fiz vários cursos avulsos com Claudo Ulpiano, Henrique Antun e Gerd Bornheim e principalmente li os filósofos que me interessavam. Estou um tanto afastada, mas sempre volto com saudades. 1) Creio que Platão já se preocupava em divulgar sua filosofia amplamente e por isso a teria escrito em forma de diálogos, com clareza coloquial. Soube ainda que Aristóteles teria se preocupado em ser menos lido do que Platão e teria reescrito suas idéias de forma mais clara em escritos “exotéricos”, que teriam sido queimados no incêndio da Biblioteca de Alexandria.
    2) Basta aproveitar uma única coisa em Nietzche para ele mudar sua vida. O conceito dele que mais me seduz é o de alegria dionisíaca, sem necessidade de procurar sentido para a vida (vontade de verdade). 3) Mulher: Ele disse que a “super-mulher” é um tipo mais raro que o “super-homem”, mas quando surge é mais aprimorada que o segundo. Agora o que realmente me deixa boquiaberta é a associação ao nazismo. Por que ninguém cita o aforisma 251 de “Além do Bem e do Mal”?…estou lendo e digitando:…”Mas os judeus são incontestavelmente a raça mais vigorosa, mais tenaz e mais genuína da Europa, sabem caminhar nas piores condições, e talvez muito melhor que em condições favoráveis…(mais abaixo)…Um pensador responsável pelo futuro da Europa, deveria incluir os judeus e os russos, fatores seguros e prováveis na liça, no grande confronto de forças.” Só isso “mata” qualquer associação ao nazismo.
    Claudia

  2. luiz leite permalink
    25/03/2009 19:04

    Ola Paulo,
    Muito bom o artigo. Ousei falar sobre Nietzsche num artigo em meu blog.
    Uma visita e um comentário seu seria muito legal.
    http://www.luizvcc.wordpress.com
    abração

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