Skip to content

Flora, a rainha; Patrícia Pillar, a trabalhadora

03/01/2009

Flora vive!Patrícia Pillar e Ary Fontoura já estavam consagrados como atores. Mas, em “A Favorita”, eles ultrapassaram todos os limites da perfeição profissional. A atuação foi tão esplendorosa que até mesmo atores fraquíssimos foram progredindo com eles na contracena. Tirando o péssimo Zé Bob(o) (tão fraco que esqueci o nome do ator), que patinou o tempo todo, vários foram os novatos que amadureceram bem ao terem de atuar com os dois.

Um destaque, neste caso, é para Murilo Benício. Não é mais um jovem ator. Todavia, sempre deixou a desejar. Nesta novela, ao participar do triunvirato do crime, ele conseguiu entrar realmente no palco.

É claro que o destaque maior é para Patrícia Pillar, que na pele de Flora não deixou para ninguém mais. Eu não via algo tão perfeito (com as devidas proporções de estilo, tempo e, é claro, a postura de época) desde o “Dr. Valcour”, feito por Sérgio Cardoso.

Flora causa todo sentimento dúbio que não queremos ver aparecer em nós mesmos. Toda sua vontade de poder, o seu desejo de mandar e, enfim, sua tara por vingança – sabe-se lá do quê – se associa perfeitamente à sua fantástica beleza não-bela. Trata-se da beleza de Patrícia Pillar, é claro. Mas a atriz tinha uma beleza dócil. Chamada para utilizar a beleza dócil junto com a beleza má, autoritária e um pouco doentia, ela transitou nisso como uma campeã de patinação. Tirando Luís Gustavo e Plínio Marcos em “Beto Rockfeller”, nada foi tão espontâneo no teatro e na TV como o modo de Flora ser Flora.

Como Flora, Patrícia Pillar conseguiu fazer de nós, em determinados momentos, tudo que desejamos esconder não só de nós, mas principalmente de nossos filhos. Flora é o nosso Tony Soprano de saias. Sua vingança contra o mundo nos ganha. Todos os dias somos injustiçados por um Terceiro Mundo perverso, que só nos tira direitos. Então, uma personalidade como Flora, na vida dada a ela por Patrícia Pillar, tem tudo para nos trazer para o seu campo. Pegamo-nos torcendo para a vilã.

Flora não é Odete Roitman, de “Vale Tudo”. Aquela maldade envelhecida não nos conquistava. Flora não é Frau Herta, interpretada pela fantástica Norma Blum, na primeira versão de “Selva de Pedra” (Romance de Lygia Fagundes Telles que virou novela em 1981). Herta não tinha jogo de cintura. Flora é, antes de tudo, a moça que tentou cantar no seu estapafúrdio casamento com Dodi, para uma platéia paga, e nem mesmo assim arrancou palmas. Então, chorou. Um choro que surgiu como dor, mostrando aquele nariz adunco de Patrícia Pillar; e como essa moça sabe o usar esse nariz em poses muito bem estudadas. Quando má e triste, o nariz aparece de perfil, lembrando a transformação da Rainha (de “Branca de Neve”) na bruxa. Quando deslumbrante, o nariz aparece no meio perfil. Quando boazinha (fingida, é claro) o nariz aparece um pouco mais de frente. O sorriso de Patrícia é perfeito, alterando-se em cada posição, para acompanhar o nariz e o jogo dos cabelos encaracolados. É como se não existisse Patrícia Pillar, e somente Flora. Não é um trabalho de atriz dando vida a um personagem. É o trabalho de um personagem que tem vida. Fora existe. Duvido que Ciro Gomes consiga dormir em paz ao lado de Flora.

Dizem que Patrícia Pillar deixa a Globo louca, pois quer refazer cada cena até chegar à perfeição. E chega. Como sempre, o trabalhador faz a empresa ser melhor do que realmente é. Mas, no caso de Patrícia, ela irradia capacidade para além de Flora. Dodi pega isso. Silveirinha não precisa pegar, basta ter Flora para ele ser quem ele sempre foi – a criação também com vida feita por Ary Fontoura, um ator para além de qualquer  limite.

Patrícia Pillar deveria ser chamada para uma campanha nacional em favor do bom profissionalismo, em favor de algo como “seja você uma pessoa competente”. É claro que em muitos lugares, você perderia o emprego, pois no Brasil a maior parte das instituições não quer trabalhadores inteligentes e capazes. Nem a Globo quer. E não pense que a Globo precisa de Patrícia Pillar. É que Patrícia Pillar tem conseguido exigir, tem conseguido dizer: “sou boa, não vou aceitar ser ruim”. É muito difícil isso, e não sabemos se isso se repetirá com ela. É muito difícil isso em um lugar onde a mediocridade é a regra – não por culpa de alguém em especial, mas por conta da mentalidade da indústria do entretenimento no Brasil, que na busca de fugir de “programa cabeça” foge também do bom programa.

Há medo de apostar no trabalho bem feito no Brasil. Patrícia Pillar vai na contramão. Só por isso, eu desejaria ver Flora se sair bem no final de “A favorita”. Pena que vai imperar o moralismo barato.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo

Anúncios
7 Comentários leave one →
  1. klaudia60 permalink
    03/01/2009 17:11

    Concordo em gênero, número e grau quanto ao trabalho da Patrícia Pillar. Acho que ela será inclusive mais respeitada como atriz daqui para frente. Por sua beleza loura e angelical ela era a eterna Desdêmona, a eterna boazinha. O Murilo Benício também me surpreendeu. Está engraçadíssimo. Só faço uma restrição, não ao trabalho de Patrícia, mas à construção da personagem pelos autores do texto. Ela é unidimencional, não tem nuances, não tem claro-escuro. Ela só é má. Tem prazer em ser má. Não se justifica nem perante si própria. Na vida real os maiores canalhas se justificam, ou por revolta ou por motivos ocultos que os outros não compreendem. Se apegam a teorias conspiratórias, a abusos sofridos na infância. Al Capone esperneava quando preso e se dizia um homem bom. Está no filme e é factual. Até os nazista saíram à cata de filósofos como Nietzshe e Spengler (que flertou e se desiludiu rápido c/o movimento) para dar um “estofo intelectual” que justificasse moralmente, além de sua belicosidade, o extermínio de uma raça, o que não ocorreu nem à Átila e Gengis Khan.

    • 04/01/2009 3:11

      Mas Claudia, a Flora está longe de ser má. Você não está assistindo a novela, vou colocar falta para você! A Flora está fazendo o papel de uma pessoa psicopata. Aliás, raramente ela é má. Ela apenas planeja ter sucesso, é como uma criança mimada. O personagem está bem construído sim – é uma patologia bem típica essa da Flora. Aliás, Patrícia é boa exatamente por ter mantido essa capacidade que o tipo patológico possui, de ser previsível.
      Agora, sobre Patrícia, ela já tinha saído do condição de “loirinha”. Mas se tivesse ficado, seria boa do mesmo modo. Para mulher bonita há espaço sempre. Para mulher bonita e boa profissão, nossa!
      Paulo

  2. klaudia60 permalink
    04/01/2009 11:24

    Oi, Paulo, antes de mais nada, votos de um feliz 2099 para você e sua família. Talvez você tenha razão com relação à personalidade da Flora. Vi um debate com uma psiquiatra a respeito do psicopata. Ele sabe diferenciar o bem do mal, mas simplesmente não tem sentimento algum. Perguntaram se passaria em um detector de mentiras. Ela respondeu: “Passa fácil. Detector de mentiras é para pessoas normais, como nós, que têm sentimentos”. Ainda assim, sei lá…falta qualquer coisa, tipo um personagem dizer “Flora não é normal, precisa de tratamento ”; tenho idéia do Haley tê-la chamado de psicopata, mas na maioria das vezes é chamada apenas de monstro. Tenho uma 2ª teoria aplicável: a bela mal-amada é a pior megera. (conheço algumas e tenho uma na família). Conscientemente ou não pensa: “Se, com toda a minha beleza, não me amam, devo ter algum grave “defeito de fabricação”. Aparentemente há grave rejeição paterna. Ser amada pelo pai é fundamental para a auto-confiança da mulher, eu acho. No mais, posso discutir, mas não sou “expert” em atores de TV, porque esta é a primeira novela que acompanho desde Roque Santeiro que terminou em fev 96. O resto não agüentei. Só vi 2 filmes da Patrícia: “O Quatrilho” e “Amor & Cia”, em ambos ela faz a “boazinha meio sonsa”, só sorrindo o tempo todo, enquanto os personagens “densos” foram dados a Marco Nanini e Gloria Pires. Soube que fez Desdêmona, mas não vi. Beleza em TV e cinema é faca de 2 gumes. A indústria tende a estereotipar. A pessoas bonita faz sucesso, mas não mostra todo o seu potencial. Depois que a belíssima Charlize Theron ganhou prêmio “enfeiada” em “Monster”, e só depois foram descobrir que era linda, soube que a Catherine Zeta-Jones ficou muito impressionada com o fato e está à cata de um personagem onde apareça feia, para provar que tem talento. No mais, obrigada por me convidar para este recanto, onde há vida inteligente na Internet.
    Abraço
    Claudia

    • 04/01/2009 21:02

      Mulher feia tem de ser boa. Patrícia e linda sem ser bonita. É excelente atriz, e fez Roque Santeiro, aliás onde se saiu muito bem. Você pode não lembrar, pois havia muita fera ali.
      Paulo

  3. klaudia60 permalink
    04/01/2009 12:03

    Desculpe, é 2009.

  4. Pândego Endiabrado permalink
    04/01/2009 20:28

    Concordo. Mas, com a ressalva de que Ary Fontoru já é consagradissimo, pelos menos para quem o conhece no teatro.

    Já o público de novelas infelizmente não tem conhecimento de sua carreira como ator teatral.

    Até mais.

    O Pândego Endiabrado
    http://opandegoendiabrado.wordpress.com/

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: