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A parte não favorita de “A Favorita”

04/01/2009

Claudia Raia no tempo em que "raimundas" ainda imperavam!Após cair de joelhos diante de Flora e Silveirinha – e até de Dodi, quando este atua no triunvirato, não há como não pensar também no que ocorreu de lastimável em “A Favorita”.

A telenovela brasileira incorporou a propaganda. Para além das do intervalo comercial, há o merchandizing. O telespectador brasileiro se acostumou a isso. Em outros lugares do mundo, principalmente nos países onde acreditamos (de modo pouco culto e informado) que tudo funciona segundo “a compra e a venda”, tal coisa seria uma afronta. Mas, no Brasil, onde até o dia dos namorados não é uma data religiosa (como nos Estados Unidos), e sim uma invenção comercial, tudo é engolido. O problema é que a parte do merchandizing é feita com tão pouco capricho, que termina por depor contra a novela. Quebra o clima. E cria uma mal estar geral na sala. Não há uma pessoa de inteligente mediana para cima que não desvie o olhar da TV nessas horas, com vergonha. Podem reparar.

A sensação que se tem é que os atores não concordam com a merchandizing, e que nem mesmo o diretor concorda. E então as cenas são feitas como quem tem de tomar um remédio ruim: bebe-se numa golada só, para passar logo o gosto. Em “A Favorita” isso piorou demais. Sorte que, desta vez, ao menos os reis do palco, Flora, Silveirinha e Dodi, não foram constrangidos a vender bugigangas.

Sem dúvida, a pior merchandizing foi a da apostila do Grupo Positivo. Mas, nesse caso, pelo conteúdo ideológico da coisa. Apostilar o ensino médio é um erro, e pior ainda se isso é feito por meio do dinheiro público voltado para a compra de material produzido pelo ensino privado – material horrível, por sinal. A sorte foi saber que no Brasil, como no mundo ocidental todo, o corno é o elemento mais desprezível, tomado como burro, e que foi o prefeito corno que comprou o material dos reacionários do Grupo Positivo (ligado à revista Veja e ao ex-ministro Paulo Renato, à secretaria da educação de Serra, e à ideologia do ministro de Lula, Fernando Haddad).

Outro elemento ruim da novela foi a presença do Zé Bob(o), e de batom. Ator péssimo. Mas de batom? O que é que queriam com aquilo, atrair o público gay para um suposto Angelino Jolie? Tomara que ele seja dispensado de novelas. Ele deveria tentar achar o Igor e os dois poderiam abrir um programa chamado “não vale a pena ver de novo”.

Uma coisa insuportável na novela foi o Casal Não-Copula. O Tarcísio-Copola e sua mulher verdadeira, que estavam velhos demais para copular, mas que ficaram num beija mão sem sentido no final da novela. Tarcísio Meira e Glória Menezes sempre foram indigestos. Nunca foram bons atores. Mas agora, mais velhos, são canastrões de primeira. Ele bem mais que ela. Espero realmente que eles sejam finalmente aposentados. Na carreira de ator eles são os dois únicos que, ao ganharem mais experiência, ficaram piores do que quando novos. Nunca foram atores de verdade, mas, realmente, de uns anos para cá, ninguém mais agüenta aquilo. Até Francisco Cuoco, outro canastrão da Globo, seria mais palatável! Bem fez a Vera Fischer que se recusou a beijar o Tarcísio, dizendo que não punha a boca naquela boca velha nunca mais, que o homem tinha bafo.

Agora, sobre cenas desagradáveis, três delas foram eleitas aqui por mim, para presentear vocês. O Oscar de “Cenas que não devem se repetir”.

A primeira é a do discurso de Catarina, diante do prefeito e moradores da cidade onde fica a Fábrica Fontinni, em favor da “vida lésbica”. Nem mesmo uma atriz do porte da cozinheira de marido malvado, que já elogiei em revista (ela, não ele) por conta de outra novela, salvaria aquilo. Foi uma armadilha aquela cena. A atriz Lilia Cabral deveria ter recusado. Discurso didático sobre “ser lésbico ou virar gay” é a última coisa que cabe em novela. Ninguém acerta fazer. Pois discurso didático em novela lembra a sessão da tarde, quando Robin explicava ao público uma trama de uma hora, que não havia passado, para que então Batman pudesse voltar a ação. Isso ocorreu nos anos 50. Hoje, quando ocorre, quando ao final o vilão, apontando uma arma para o mocinho, explica todo o enredo do filme, tudo isso é adrede preparado para justificar um tipo específico de comédia.

Outras cenas didáticas chatas: as dos capítulos finais da novela, quando todas as cenas se resumiram a colocar a maioria dos atores assistindo o desempenho de Claudia Raia, de um lado, e Flora, de outro. É como se a maioria dos atores, inclusive alguns bons que não mereciam tal coisa, tivessem concordado com o público: vamos parar de trabalhar e vamos ficar vendo Flora versus Donatella, com lances legais de Silveirinha e Dodi. É como se (quase) todos dissessem: acabou a novela, fracassamos, e só não vamos apanhar do público (inteligente) porque no duelo final Ari Fontoura e Patrícia Pillar vão nos salvar a todos.

Por fim, uma cena deprimente. Aliás, duas iguais: duas pessoas, o deputado corrupto e a guerrilheira arrependida vão para a cadeia andando, como quem vai para umas férias conjugais após anos de um casamento sem sexo. Ah meninos da Globo, tenham dó! O público mais inteligente temeu que existissem mais bandidos na novela e que houvesse em determinado momento uma “fuga em massa” ao contrário, ou seja, todo mundo que é ruim na sociedade iria começar a pular o muro da prisão, para cair para dentro, ansiosos por pagar pelos crimes cometidos.

É claro que eu entendo que essa parte da novela também está no interior do didatismo da Globo em geral. A Globo adora “ensinar”, dar “aulinhas”. Mas há modos mais inteligentes de se fazer isso. Essa forma que a Globo tem feito, pressupõe o drama de consciência de um personagem, algo que não cabe em novela desse tipo, a não ser que a história esteja centrada naquele personagem, e que haja tempo para que o problema de consciência se desenvolva lentamente. Caso contrário, a mudança de atitude fica artificial, e a ida para a prisão surge como uma forma pueril do diretor da novela dizer: vejam como deveria ser a conduta humana! Ninguém agüenta isso.

Bem, a novela não acabou. Vamos todos fazer como Ciro Gomes faz à noite, lá em Brasília, sozinho, caso ele seja inteligente.

Seria legal, mesmo, que a Globo pudesse dar um fim triunfal para a novela, mostrando Flora matando mais uns ainda. E caso ficasse livre, viva, rica, ah, seria melhor que tudo. Silveirinha, que teve a vida roubada, não, deveria cair sobre ele toda a culpa. Caso não aconteça isso, desejo que todos que produziram a novela sejam trancados em um quarto, para assistir filmes do casal Copula copulando. Não vejo tortura maior que eu possa desejar a eles, se vierem a produzir o fim que estão planejando produzir.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.

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  1. eli12 permalink
    02/02/2009 23:27

    Caro Professor, excelente artigo. Corroborando com sua posição, antes de lê-lo havia mandado um email para a globo com o seguinte conteúdo:”Fico realmente decepcionada, ao ver o personagem da “nedina” mulher do prefeito ser execrada em público. Ela agiu errado sim, mas pela primeira vez em uma novela que eu assisto, uma mulher assume o papel da libido, da vontade sexual e é execrada por isso. Ela não tem direitos? porque o personagem que agiu com ela na traição não está pagando com a mesma moeda ou julgamento social? Penso que para uma diretora de escola que era o personagem dela, colocá-la como louca simplesmente porque demonstrou que tem desejo, gosta de sexo é retornar a um nível de machismo onde só os homens podem ter libido.
    Fico realmente decepcionada, também, por saber que as pessoas se separam comumente por questões de infidelidade, sofrem, mas tem seus direitos de casamento/divórcio e podem sim ser felizes novamente.
    Ressalto, é lamentável como o autor coloca a posição da mulher como a louca que quer sexo, e em contra partida ressalta a figura da lésbica frígida. não é uma contradição?!!
    Espero que este email ganhe repercussão nos pensamentos do autor.
    Mataram a mulher! Mataram a mulher! COMO ASSIM? O que pensa a respeito disto?

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