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Filho adotivo, filho biológico e o “não”

21/01/2009

discipline1As pessoas que entendem pouco de filosofia ficam horrorizadas com a história de Rousseau e seus filhos. Rousseau escreveu O Emílio ou Da Educação, tratados de filosofia da educação. Mas Rousseau, ele próprio, nunca quis ser pai, e doou seus filhos para o orfanato. Quanto de bobagem condenatória já se escreveu contra Rousseau por causa dessa atitude ou, então, por causa de sua “incoerência”. As pessoas evitam conjecturar sobre uma possibilidade legítima: o desejo de não ser pai e não ser mãe. 

Em um tempo que evitar filhos não era coisa fácil, Rousseau simplesmente não se achou em condições – não só financeiras, mas emocionais – de ser pai. E não foi. Entregou seus filhos para as instituições responsáveis que, ele entendia, fariam melhor por eles do que ele próprio poderia fazer. Todavia, a condenação vem do fato de que cada um de nós teme como ninguém a solidão, o abandono. Quando alguém diz que não quer ser pai ou mãe e, caso isso ocorra, irá dar o filho para a adoção, o mundo desaba sobre ela. Os opositores falam de falta de responsabilidade, mas não é isso que movimenta a condenação. É que os opositores se colocam no lugar da criança, e julgam esta como abandonada, no mesmo sentido em que a criança-robô é deixada pela mãe na floresta, no filme que Spielberg pegou de Kubrick, “Inteligência Artificial”. Aquele terrível medo que sentimos em determinada idade, de ficarmos sozinhos no mundo, reaparece com força ao assistirmos o filme. E este medo se repõe, em forma de crítica, contra os que podem tomar qualquer atitude parecida com a de Rousseau, ou até mesmo contra os que decidem não gerarem filhos.

Na verdade, todos nós somos órfãos, verdadeiramente ou não. E, não raro, muitos que não são órfãos verdadeiros sentem mais pavor ao relembrar do sentimento infantil de “ficar sozinho no mundo” do que os órfãos verdadeiros. Pois o tamanho da presença desse sentimento não tem muito a ver com fatos reais explícitos, e sim com o imaginário que permanece dele, na vida adulta. Por isso reagimos de maneira tão furiosa quando alguém rejeita seus filhos. Uma boa parte de nós, inclusive, gostaria de dar uns bons tapas, também, naqueles que soltam animais domésticos nas ruas. O processo é o mesmo: a idéia do temor do abandono reaparece para cada um de nós. O abandono do inocente nos deixa revoltados.

Colocamo-nos facilmente no lugar do abandonado, mesmo que não tenhamos sido jamais abandonados. O pavor nos move e este nos leva ao bom sentimento de tentarmos proteger o abandonado, mas também a um não tão nobre sentimento, o de avaliar de modo severo aquele que rejeita filhos.

Esse sentimento está na base, também, de várias atitudes dos pais que possuem filhos adotivos. E às vezes também dos que tem filhos não adotivos. Concretamente, estou falando aqui da idéia de permissividade. Não estou fazendo referência à permissividade escancarada, aquela do pai ou da mãe que é incapaz de dizer um não para os filhos biológicos, coisa mais comum ainda de ocorrer no caso de se ter filhos adotados. Estou falando daquela permissividade consciente, aquela estranha atitude que temos de acreditar que as crianças estão nos vendo “pelo exemplo”, e que o exemplo vale mais que a palavra, e que podemos dizer “sim” para elas, pois o nosso exemplo ensinará melhor que um possível “não”.

Na verdade, todos os medos infantis de abandono reaparecem para nós, na vida adulta. Tratamos nossos filhos sem qualquer “não”. E com filhos adotivos, então, nem se fale. Quando nos pedem algo, fazemos o maior dos sacrifícios para dar a eles o que querem. Sempre acreditamos que eles “estão vendo o nosso sacrifício”, e que nossa condescendência não irá prejudicá-los. Acredito que esse nosso medo infantil do abandono deveria ser melhor controlado, e que não deveríamos apostar tanto nessa idéia de que nossos filhos podem ser tão observadores de nossos sacrifícios quanto queremos crer. E no caso dos filhos adotivos, isso também é verdadeiro. A observação e a gratidão não são as coisas melhor distribuídas entre os humanos. Quem acredita que sim, em relação a filhos, pode cair do cavalo. Eis aí um tombo feio.

E tudo passa muito depressa. Um filho deixa de ser uma criança em menos de 10 anos às vezes. E uma década é um piscar de olhos. Em um primeiro momento ele está ali, pedindo coisas de todo tipo, e você se esgoelando para fazer o que ele quer. Em um segundo momento ele está ali, simplesmente exigindo coisas, tratando você mal e, talvez até, indo para a polícia para denunciar você por coisas que você não merecia a denúncia. Quando você acorda, eis que seus filhos – inclusive o adotado que, sabendo da adoção, deveria ser mais grato – viraram seus inimigos, mesmo tendo sido você o maior amigo deles durante todo o tempo. Eles não observaram o seu exemplo, como você esperava. Não notaram o seu sacrifício, como você achou que eles notariam.

Em geral, isso ocorre por conta de dupla autoridade sobre os filhos. Ou melhor, dupla falta de autoridade. Quando a mãe nunca desautoriza o pai, os filhos tendem a crescer melhores. Mas quando a mãe é um foco de desautorização do pai (ou vice versa) diante dos filhos, as coisas tendem a caminhar de mal a pior. Eis que o sentimento de abandono da infância, casado com a disposição da mãe para tirar os filhos do pai (ou vice versa), são tudo que os filhos precisam para serem deseducados eternamente.

No caso dos filhos adotivos, esse problema também aparece de modo muito acentuado.  A adoção nunca é compartilhada pelo casal de modo completamente igual. E isso vai se manifesta no futuro. Em determinado momento, o casal passa a usar dos filhos para obtenção de amor ou mesmo como arma em suas próprias desavenças. Filhos adotivos, sabendo ou não que são adotivos, logo percebem esse tipo de jogo. Em vez de procurarem ficar isentos, aprendem a tirar proveito disso para estragarem suas próprias personalidades. E como fazer o errado é sempre mais fácil, logo crescem errado.

Infelizmente aprendemos tudo isso tardiamente. Mas você que é um pai jovem ou um mãe jovem, talvez possa se salvar.

 

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.

 

 

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