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Giannotti inflaciona a religião em Gaza

02/02/2009

Gigi diz que a culpa é Dele lá!O professor José Arthur Giannotti começa seu artigo sobre Gaza (“Estados Terroristas”, Folha de S. Paulo, 01/02/09) dizendo que não sabe do assunto que vai escrever. Confessa que não acompanha os detalhes do conflito em Gaza. E então escreve uma página toda. Isso lembra Marilena Chauí que, na crise do PT, quando do “mensalão”, fez o “silêncio obsequioso”. Foi a época em que falou pelos cotovelos.

Todavia, há de se reconhecer que Giannotti tem o mérito de ser sincero. O artigo mostra de fato que ele não sabe do assunto. E o ponto central do seu texto mostra isso. Diz uma verdade, mas que se transforma em erro, pois nada é senão o que meu amigo Richard Rorty apelidava de algo que, no português, poderia ser chamado de “sobre-filosoficação”. Ou seja, não se atendo às informações vindas do conflito, puxa pela memória o que mais passa pela cabeça de professor de filosofia, ou seja, que tudo no mundo pode ser reduzido a um conflito de idéias, ideais e ideários. E como o ambiente geográfico é o de Jerusalém, então a filosofia é travestida de religião, eis que a guerra é explicada por meio da guerra de doutrinas religiosas.

Bem menos feliz foi Saramago, que reduziu a motivação da Guerra em Gaza às determinações do conceito de Deus judaico (artigo: Gaza). Os israelitas seriam adoradores de um Deus pouco benevolente e, então, por isso, fariam guerra como fazem. Giannotti não chegou a tamanho absurdo, dado que, como professor de filosofia, escapa de usar a digitação de modo tão caolho como Saramago. Todavia, no frigir dos ovos, seu argumento também é de estilo do lusitano. Ou seja: a culpa é dos judeus. E o termo “judeu”, no caso, vem em um invólucro pouco aconselhável de ser posto.

Giannotti faz uma diferenciação entre o que seria o Estado de Israel se tivesse se desenvolvido como um Estado israelita, e o que ele é hoje, um Estado judeu, segundo ele. Israel teria sido criado por grupos de esquerda, que queriam um Estado laico, mas virou um estado belicista porque se desenvolveu como um estado controlado por fundamentalistas. Esses fundamentalistas ele tende a chamar de “judeus”. Tudo isso é culpa, segundo Giannotti, de Israel não ter uma Carta Magna escrita. Israel adota o sistema de regras do convívio, que é conhecido nosso pelo exemplo inglês. O país funciona como a Inglaterra, mas, ainda segundo ele, sem a tradição daquela.  Isso teria permitido o Estado se travestir de Estado Religioso. Nesse caso, em vez do homem ocupar a terra, é a terra que se coloca nos pés do homem por direito divino. E eis que isso determina sua loucura bélica. Possuído por Deus, e não sendo israelitas e somente judeus que, enfim, assumiriam o radicalismo dessa condição de deter direitos filtrados pela divindade, os homens e mulheres de Israel estariam motivados ao ataque. Do lado oposto, o Hamas e outros grupos também seriam motivados por religião, e assim o quadro da guerra estaria posto. Uma guerra levada adiante porque as pessoas possuem religião. Eis aí a sobrefilosoficação de Giannotti. Os homens guerreiam porque estão cheio de idéias na cabeça. Estranha conclusão para quem bate no peito dizendo que veio de uma tradição marxista.

O texto de Giannotti cria um tremendo incômodo para quem é filósofo. Será que nós, filósofos, só sabemos escrever invocando e evocando filosofia? Será que não conseguimos mesmo nada dizer que não seja inflacionado por idéias e doutrinas? Será que sempre que olhamos o bípede-sem-penas não conseguimos ver nada a não ser cabeças cheias de doutrinas distintas que, sabe-se lá por qual razão, levariam a todos para as trincheiras? Damos importância demais às doutrinas, pois para vários de nós, cujo ganha-pão vem de dar aula de filosofia, a filosofia se torna a coisa mais importante e decisiva do mundo.

Creio que nós, filósofos, deveríamos poder fazer melhor. Poderíamos agir antes como filósofos que como professores de filosofia. Poderíamos imaginar as pessoas com menos idéias e ideários organizados na cabeça do que fazemos.

Um menino do colégio, em Israel, disse uma frase melhor que a de Giannotti no sentido de melhorar nosso entendimento do conflito em Gaza. Ele explicou as coisas assim para um repórter: “o Hamas não admite a existência do Estado de Israel, e quer acabar com Israel, então Israel precisa acabar com o Hamas antes disso”.

A frase do garoto é mais condizente com a história que a sobrefilosoficação de Giannotti. Ou seja, desde a fundação do Estado de Israel, houve oposição a tal criação ali naquele lugar. A oposição foi criada porque alguns povos ali localizados se sentiram desalojados e submetidos a uma situação artificial e injusta. Afinal, eles também estavam ali há tempos. Qual a razão daquilo ser dado aos judeus, por um decreto da ONU? Alguns desses grupos deixaram de lado a oposição, logo passaram a determinar que a melhor coisa que poderiam fazer era colocar a vida em função do fim do Estado de Israel. As motivações que alimentaram para agir assim não precisariam de ser religiosas e, de fato, na maioria das vezes,  não foram. Da boca para fora até que vieram a evocar a religião e, depois, as mortes geradas pela guerra – ou seja, o ódio que alimenta o ódio. Mas as motivações decorreram do simples modo como a política anda. Ou seja, grupos armados internamente, em função de garantir privilégios de uns sobre os outros, conquistam a capacidade de se colocar na liderança do povo de onde emergiram, criando a idéia do “inimigo externo” e também a idéia de que são eles, e não outros, os patriotas que defendem a população contra tal inimigo. Durante anos isso foi mais facilmente observado do lado dos palestinos que do lado de Israel. Embora isso funcione de modo travestido pela democracia também em Israel.

Ou seja, do lado de Israel o que foi feito foi a construção de um estado em moldes ocidentais. Do lado palestino o que se organizou foi uma plêiade de milícias que optaram pelo terrorismo contra Israel. Quando Arafat viu que ele podia, de fato, criar o Estado Palestino, e que ele tinha a hegemonia entre seu povo, ele passou a desistir do conflito bélico. E nem árabes e nem judeus deixaram de ser religiosos por causa disso. Os Estados Unidos tiveram um papel fundamental nisso. E a gestão de Clinton promoveu acordos memoráveis entre os dois lados. A paz no Oriente Médio parecia que havia finalmente chegado. Amigos meus dos dois lados começaram atividades culturais e educacionais conjuntas.

A perda de eficácia desses acordos foi sem dúvida nenhuma a política de Bush para com o mundo Árabe. Nenhum analista hoje em dia – nem mesmo os que estiveram com Bush – negam que sua política de invasões e reações indiscriminadas ampliou o terrorismo no mundo. E o fato dele estabelecer uma cruzada contra o mundo “não democrático”, querendo encontrar o que foi para Reagan a URSS, o “império do mal”, acabou repondo não uma guerra fria, mas uma permanente frente de guerra quente. Ora, sendo Israel interpretado como a ponta de lança americana no mundo árabe, os ataques se reiniciaram. Pois morto Arafat, a briga pelo poder nas milícias palestinas voltaram a disputar poder. Houve então o retrocesso na paz. Primeiro veio o Hizbolah e, agora, o Hamas.

A troca de poder no comando do Planeta, fazendo surgir o fenômeno Obama, ao contrário do que poderia parecer, não trouxe a paz. Trouxe mais guerra. Ao menos em um primeiro momento. Pois os grupos palestinos passaram a atacar Israel exatamente para serem notados pelo novo presidente. Pois cada grupo quer ser o representante internacional dos palestinos. Não à toa o líder do Hamas está no Irã, confortável enquanto seus comandados, a partir de quintais de suas próprias casas, provocam Israel fazendo vítimas esporádicas, pelo ataque de foguetes. O Irã se propõe a ser a sede e o interlocutor máximo de todos que vivem segundo a ordem não ocidental. Por sua vez, Israel reage como sempre. Sua reação é sempre desproporcional. E isso tanto faz seu governo ser de esquerda, de direita, de centro, religioso ou não religioso.

A reação de Israel é desproporcional por razões simples. O povo Israelense se ocidentalizou. Não há mais vontade de participação em guerras. A juventude tende a querer antes as discotecas que a trincheira. Há um alto padrão de vida em Israel. E ninguém mais quer passar a vida como cidadão-soldado. Ao mesmo tempo, diante dos ataques, ninguém quer ser visto como covarde ou traidor e não apoiar uma ação de resposta. Então, a resposta vem pelo ar, e só depois que o terreno é devastado é que há ação por terra.  A ação por terra é feita a partir da idéia da repressão ao terrorismo urbano. Ou seja, é necessário atirar primeiro e perguntar depois, uma vez que o miliciano pode perfeitamente se passar por civil. E inclusive pode ser uma criança ou uma mulher “colaboradora”. Essa é uma tática parecida com a que o americano usou no Vietnã, e foi completamente abandonada na invasão do Afeganistão. Pois é uma tática que por princípio compromete quem a faz ao chamado crime de guerra ou mesmo o genocídio.

Filosofia? Doutrina? Religião? Não! Nada disso é ponta de lança no conflito de Gaza. As idéias religiosas e filosóficas, nesse caso, são antes arrastadas que motivadoras. A fala de Giannotti ainda ecoa a de Saramago: a culpa é de Deus – o Deus judeu é perverso. Nós filósofos tínhamos obrigação de fazer mais que isso ao querer explicar as coisas. Saramago é perdoável, dado que tropeça em filosofia e sociologia, mas nós não. Exatamente por sermos estudiosos de idéias, ideais e ideários, de estarmos familiarizados com doutrinas, não deveríamos conceder a elas mais forças do que realmente possuem.

Deveríamos ler figuras como Marx, Dewey, Veblen e Weber – os que procuraram ensinar aos filósofos que as práticas às vezes comandam o mundo antes que conjuntos organizados de idéias, as doutrinas.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo – http://ghiraldelli.ning.com

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One Comment leave one →
  1. 08/03/2009 12:51

    Paulo, a análise que você faz sobre as causas do conflito em Israel e na Palestina é a mais simples e isenta possível, e o diagnóstico do artigo do Gianotti é exato. Como de costume, excelente texto.

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