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Só o diferente é igual

04/02/2009

Cate Blanchet

Você consegue imaginar um excelente filme sem nenhum personagem mau? Você consegue acreditar que um fantástico filme possa ser feito a partir de uma história que não é outra coisa senão flashs da história americana? Você consegue entender que a vida de cada um de nós, por mais corriqueira que seja, é uma maravilhosa história? Caso você possa responder sim para cada uma dessas perguntas, você saberá apreciar O estranho caso de Benjamin Button., com o roteiro do veterano Eric Roth.

A idéia básica do filme é tirada de um conto de F. Scott Fitzgerald publicado em 1922. Trata-se da vida de um homem que nasce (fisicamente) velho e morre bebê. Mas só a idéia é de Fitzgerald, o roteiro de Roth coloca outro tempo para a história e dá um enredo que espera adjetivos vindos do Céu, para sermos justos. 

 Brad Pitt faz o papel desse homem, Benjamin. Cate Blanchet faz o papel de sua namorada e esposa, Daisy. O elemento central do filme é o acaso, a fantástica força que, na filosofia, talvez só mesmo Schopenhauer tenha conseguido quase entender. Digo “quase” por uma razão simples: quem de fato a entendeu foi Benjamin Button.

Em Schopenhauer o acaso vem sem eira e nem beira (como vem o furacão que marca todo a narrativa do filme, tanto quanto o raio) e destaca assim os males que podem ocorrer, e que ocorrem. Benjamin Button é sereno o tempo todo, pois aprendeu com sua mãe negra que ele pode estar vivendo sempre para além do que se esperava, e então, ao contar tudo que se passa em sua vida, em nenhum momento ele relata o encontro com pessoas más. Não há nenhum personagem sem caráter no relato de sua vida. Nenhum. E se há a morte ou há a perda, e isso é o que há de desgastante em sua vida, e que ocorre durante todo o tempo, ela também não é um mal – todas as mortes que aparecem são vistas segundo o amor fati de Nietzsche — que está longe de ser uma resignação. A frase que as dá emblema, repetidas vezes, é mais ou menos esta: “quando as coisas ocorrem e nos dão contragosto, reclamamos e xingamos, mas quando elas realmente chegam ao final e são o que são, temos de aceitar”. As mortes são encaradas de um modo especial: são uma homenagem à vida, não um desespero.

É claro que Benjamin não poderia contar uma história que houvesse qualquer personagem de má índole. Ele estava contando em um diário, e é difícil imaginar que ele não soubesse que aquele diário iria ser lido não só pela sua amada, mas pela sua filha, com quem ele não viveu todo o tempo, dado que enquanto ela envelhecia, ele rejuvenecia, e por isso mesmo teve de se afastar dela. Aliás, pode-se até mesmo dizer que o diário foi feito para ela. O diário foi a forma de se apresentar a ela. Nesse diário, nenhum homem ou mulher má teve lugar. Ora, Benjamin havia aprendido com sua mãe negra – aquela que nasceu para ser mãe, pois todo mundo nasce para alguma coisa determinada – que para as crianças devemos contar boas histórias.

Mas há outro elemento além do acaso que se destaca no filme, que é o confronto entre a juventude e a velhice. Quantas e quantas vezes, mesmo em lugares que se dizem protetores dos idosos, não vemos os idosos apenas serem protegidos, sem que possam continuar a viver e fazer o que mais saberiam fazer, que é ensinar. Os idosos são tirados da convivência com os mais novos, pois eles são são serenamente subversivos.  Caso os velhos pudessem conviver com os jovens, e serem realmente ouvidos, falariam da não necessidade de um bocado de coisas que fazemos, e que são tão tolas. Ah! como nos  levamos a sério demais na juventude!

Ora, Benjamin cresce num asilo de velhos. Por isso é sereno e sábio. Ele aprende o que é necessário aprender. Deveríamos ser proibidos de sermos criados com pais, deveríamos ser filhos de nossos avós. Só é feliz quem conseguiu amar os avós. Sua namorada consegue, ao final da vida, ainda ensinar a filha a viver, e isso porque gastou uma parte de sua vida sendo avó do namorado, que rejuvenesceu até ficar bebê e morrer em seus braços. Foi certamente isso que a fez tão sábia na hora da morte, o fato de ter sido avó – sim, de certa forma, foi isso.

O filme dirigido de forma magnífica por David Fincher  é um poema. Trata-se do belo poema que canta os benefícios de não vivermos senão com parceiros de idades aparentemente diferentes. Ninguém que é sábio deveria fazer outra coisa que não isso, só se dar ao luxo do verdadeiro amor quando as idades não progredissem iguais.  Chaplin, a quem muitas vezes se atribui a idéia de contar algo como nascer velho e morrer bebê, viveu pessoalmente essa experiência, casando-se com uma mulher muito mais nova que ele. Chaplin foi extremamente feliz. Sua esposa também.

Quando for ao cinema, neste filme, lembre-se de notar o beija-flor. Ele aparece em horas que não poderia aparecer e em lugares impossíveis de estar. Mas ele é um sinal claro de que a morte é a continuidade da vida; de outros. O beija-flor é o pássaro que não pode parar de se alimentar, pois qualquer vôo lhe custa muita energia, dado a freqüência do seu bater de asas. Isso, inclusive, é dito explicitamente no filme. É nesse sentido que o beija-flor é o pássaro da continuidade. Nele nada pode cessar. Ora, isso nada é senão a morte, a continuidade dos outros, do mundo, dos que ficarão e terão de levantar cedo.

 Alguns levantarão de manhã, no outro dia, e começarão logo a se levarem a sério demais. Uns poucos farão como Benjamin Button – eles simplesmente … viverão.

 

Veja o site: http://www.benjaminbutton.com/

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo – www.ghiraldelli.org

 

 

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