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Mangabeira Unger é (quase) lúcido no governo Lula

05/02/2009

Mangabeira e seu patrão, LulaNão tenho nenhuma dúvida que o professor Mangabeira Unger tem uma visão desfocada a respeito do Brasil. Sua compreensão do país sempre foi estranha, desde o tempo que apoiava Brizola. Na época, nos idos da década de 80, ele era contra o PT e dizia apoiar o PDT por uma razão simples: só Brizola conseguiria lidar com o “trabalhador desorganizado”, aquele sem carteira de trabalho e sem sindicato. E era nessa categoria, a de “pobre desorganizado”, que ele via a maioria da população brasileira. O PT nunca cresceria, pois jamais seria populista o suficiente para fazer o que Brizola fazia, e que, segundo Mangabeira, fazia corretamente.

Era uma tese esquisita, mas vinda de Mangabeira, um brasileiro que cresceu nos Estados Unidos e sempre foi pouco afeito a ouvir, sempre preferindo falar muito, era perfeitamente inteligível. Mangabeira nasceu em família de coronéis da UDN, e sempre cultivou certo preconceito contra a capacidade das pessoas pobres. Ficava olhando o Brasil através da janela das salas de Harvard, soltando teses esdrúxulas sobre como salvar o Terceiro Mundo. A sociedade americana tem carência de latino-americanos social-democratas. Os latino-americanos de esquerda sempre foram vistos como “marxistas” ou revolucionários, idólatras de Chê Guevara. Ora, Mangabeira passou a ser ouvido, uma vez que se dizia de esquerda e não apoiava a “luta armada” e coisas do gênero. Foi assim que alguns americanos toleraram Mangabeira e, em alguns momentos, até encheram sua bola (alguns, que eram meus amigos, se arrependeram bem disso!)

Com o tempo Mangabeira largou Brizola. Uma vez que Lula passou a agir como Brizola, cada dia mais populista, Mangabeira começou a ver motivos para namorar o PT. Isso começou antes de Lula se eleger pela primeira vez. Todavia, veio o “mensalão” e Mangabeira, sempre muito afoito, escreveu que o governo de Lula era o “mais corrupto de toda a história do Brasil”. Era o fim de Lula, segundo ele. Mangabeira chegou até a montar um partido, onde ele seria o mentor oficial, já que não conseguira isso no PDT e no PT.

Mas acontece que a oposição a Lula, em 2005, estava com o rabo preso e, ainda por cima, não tinha base popular o suficiente para repetir com Lula o que foi feito com Collor. Empurrado pela economia internacional e pelos programas de doação de dinheiro aos mais pobres, Lula conseguiu melhorar sua imagem. E eis que Mangabeira começou a sonhar com uma reaproximação.

Lula mostrou que realmente não só era o populista que Mangabeira gostaria de ver na presidência, já que Brizola não conseguiu tal coisa. Lula provou isso ao comprar Mangabeira, trazendo-o para o governo.

Na verdade, é necessário fazer justiça a Lula. Lula não queria Mangabeira. Diante de Mangabeira Lula até chegou a voltar a ser o político com fama de sincero que um dia ele foi. Queria Mangabeira longe do governo e chegou a dizer isso. Mas a amizade de Mangabeira com o Vice-presidente José de Alencar acabou fazendo Lula ceder.

Para uma pessoa com a fama de destrambelhado de Mangabeira, Lula deu um ministério com nome destrambelhado: “Ministério para Assuntos Estratégicos”. Mangabeira ficou dois anos ali sem nada fazer. Repentinamente, agora, partiu para uma viagem ao Nordeste e recuperou seu amor por Brizola. Sim, só pode ter sido isso. Pois, no Nordeste, voltou à tese de que pobre não consegue fazer muita coisa, que é necessário investir nos que são “quase classe média”, que ele chamou de “batalhadores” com “dois ou três empregos”. Ou seja, a idéia é a mesma de quando ele tinha amores pelo PDT: pobre não se move sem que alguém o puxe. E como não há quem vá puxar mais, então, a hora é de investir em outro tipo de gente.

Ora, poderíamos deixar Mangabeira de lado. Qual a razão de ainda querermos levar a sério alguém como ele? Ter sido professor de Harvard não dá a ninguém o direito de não ser um pouco fora de órbita.  Todavia, é necessário ver que Mangabeira é uma espécie de Cristóvam Buarque. Ele fala demais e fala um monte de coisas desconexas, mas no meio disso, ele tem lá alguma coisa aproveitável. E em um governo como o de Lula, quando alguém fala alguma coisa aproveitável, é bom agarrar, pois isso é bem raro de acontecer.

O que Mangabeira falou dos pobres é uma enorme bobagem. O que ele falou sobre investir em alguém que é o “batalhador” é algo sem utilidade.  E o que ele acrescentou nisso tudo, que o Nordeste é um lugar “vazio de idéias”, também não é lá coisa que se possa considerar. Todavia, no meio de tanta tolice, há algo que ele notou que ninguém no Governo quer notar: os programas de ajuda à pobreza no Brasil não são programas eficazes. É necessário apoio de capacitação profissional junto com os programas de bolsas – no mínimo.

Ora, Mangabeira percebeu com dois anos de atraso o que todos nós sempre dissemos. E percebeu, ainda, meio que de modo errado, pois ele insiste que o pobre está aquém de ser capacitado. Todavia, o fato de ter percebido que algo está errado com a forma de Lula lidar com a política de combate à pobreza, ajuda muito. Afinal, criticar isso é tabu no PT.

Aliás, quando o PT era um partido sério – aos meus olhos e de mais muita gente que, talvez, quisesse ser ingênua – também as vozes desse partido disseram isso, ou seja, que  os programas de ajuda aos pobres deveriam ser bem dirigidos. Por isso todas as formas de bolsas que o PT criou no passado, quando ninguém acreditava que Lula seria Presidente, eram bolsas em que as pessoas que as recebiam tinham que oferecer sua contrapartida. Essa era a tese de Eduardo Suplicy e tantos outros. Diga-se de passagem, também o PSDB endossou isso, ainda que tenha posto em prática em menos prefeituras que o PT. Famílias com bolsas tinham não só de colocar filhos na escola e controlar as faltas, mas também controlar as notas das crianças. Isso era fundamental. O PT no governo federal acabou por eliminar todo tipo de contrapartida. A bolsa se transformou apenas em mecanismo de esmola e, assim, virou o que virou: mais uma forma de compra de voto.

Mas e agora? Ora, Lula está chegando ao final do segundo mandato e não investiu na infra-estrutura do país. Investiu menos que Fernando Henrique em educação, não barateou os remédios, não fez estradas, não diminuiu o lucro dos bancos, não deu condições à indústria e não fez o mercado interno crescer de modo sustentável. Agora, com a crise internacional, o país se vê à mercê de ter de dizer aos pobres: apertem os cintos. Será que os pobres vão se conformar? Será que vão acompanhar Lula até o final, como fizeram com Vargas? Duvido. O destino de Lula e o nosso começa a depender, dia a dia, a partir de agora, de Barack Obama e, enfim, da sorte.

O fato de Mangabeira Unger, dentro de sua completa inaptidão para entender o Brasil, começar a falar que é necessário nós termos programas de ajuda que tenham suporte de modo a ser algo além da mera distribuição de dinheiro, faz com que a gente se escandalize. Pois soa assim para nós: no governo Lula, o louco é quem fala a coisa mais sensata. Pouca coisa e, ainda por cima, bem torta; mas ainda assim, a única com alguma utilidade.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo

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