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Wittgenstein já sabia que o Pluto era filho da Pluta

18/02/2009

 

Pluto teme Wittgenstein!Que o “o Pluto era filho da Pluta”, já sabíamos. Nos anos setenta e início dos anos oitenta os adesivos de nossos automóveis vinham com esses dizeres. Até que um dia a Disney reagiu e conseguiu tornar ilegal tal coisa. Acho que foi um tipo de pré-história do movimento do “politicamente correto”. Mas isso não mudou o conceito: o Pluto continuou filho da Pluta.

Essa história dos adesivos ocorreu mesmo, ou é falha de minha memória? Só tenho um modo de saber: consultar documentos, consultar outros. Não posso confiar em minha memória.

Nossa memória não é confiável e, no entanto, ela é a base de nossa identidade. Somos quem somos para nós mesmos – em grande parte – por causa de nossa memória. E na maioria das vezes que temos dúvida, não agimos perguntando a outros ou consultando documentos, acabamos por consultar a memória uma vez mais e novamente e novamente. Ou seja, desconfiamos dela, e a consultamos mesmo quando desconfiamos dela, pois acreditamos que se ela falhou um pouco, a questão é reajustá-la aos acontecimentos, e então, mais cedo ou mais tarde haverá o que denominamos de “lembrança”. Será?

Pesquisadores americanos conseguiram criar a “falsa memória”. Técnicas simples de indução foram utilizadas por eles. E o resultado mostra que esse grupo de pesquisadores da Califórnia está quase conseguindo a garantia de que pode fazer as pessoas acreditarem em suas memórias e, no entanto, tais memórias serem completamente falsas e, ao mesmo tempo, terem como conteúdo coisas impossíveis de terem acontecido. O grupo californiano conseguiu gerar pessoas que acreditam de toda maneira que o Pluto lambeu suas orelhas quando elas eram crianças (o Pluto mesmo, não um cachorro qualquer com nome Pluto ou parecido com o Pluto).

É claro que o interesse militar disso tudo é grande. Mas, por outro lado, esse tipo de assunto é de suma importância para as interfaces entre filosofia e ciência. E isso remete a um ponto central do trabalho de Ludwig Wittgenstein.

Nosso filósofo austríaco não precisou de grandes técnicas psicológicas, como as desenvolvidas pelos californianos, para tomar como ponto de partida correto o pressuposto de que nossa memória não nos é imediata. Ao menos não nos é imediata no sentido que a noção de “imediato” tinha para os filósofos de antes do século XX. Pois os filósofos pré-linguistic turn aceitavam o pensamento como uma espécie de “fato mental puro”, sem vinculá-lo de modo tão estreito à linguagem como fazemos agora. Então, a impressão que tinham era a de quando pensamos, tudo que pensamos nos é imediato, ao menos em boa medida, pois nosso pensamento estaria envolto à uma espécie de “eu original”, pré-linguístico ou talvez montado a partir de uma linguagem própria, anterior à linguagem que falamos para nos comunicar socialmente. Ou seja, uma boa parte dos filósofos acreditava na tese da “linguagem privada” ou, como Donald Davidson a chamou, o “mentalês” (por analogia ao “português”, “inglês”, “francês” etc). Foi essa tese que teve em Wittgenstein um inimigo. Mas essa tese é ainda defendida por alguns. Steven Pinker é um propagandista dela. E Chomsky é talvez um dos últimos filósofos adeptos de tal concepção essencialista, a de que realmente temos um “mentalês”.

Caso tenhamos (ou tenhamos tido) um “mentalês”, uma linguagem mental anterior à linguagem que falamos como adultos, jamais saberíamos. Por uma razão simples: toda vez que falamos, falamos a linguagem que temos, e não fazemos a operação que era pressuposta por filósofos do passado, a de que teríamos uma máquina que ficaria traduzindo a linguagem que falamos (no idioma português, inglês ou outro qualquer) no “mentalês” e vice-versa. Não há essa máquina; ou ao menos não podemos pressupor tal máquina, pois, uma vez existindo, teríamos de pressupor também outra máquina, uma que viesse a corrigir a primeira máquina no seu funcionamento de tradução. Ora, é claro que aí teríamos o começo de um regresso ao infinito; iríamos pressupondo mais uma máquina para verificar o uso da anterior, e isso sem parar mais.

Sendo assim, Wittgenstein passou a tomar nosso pensamento como sendo da mesma ordem estrutural da nossa linguagem. Eliminou a possibilidade da “linguagem privada” ou “mentalês”, e assim nós passamos a investigar boa parte da vida mental por meio da investigação da linguagem. Já se fazia isso na filosofia, antes dele. Era o procedimento de Moore e Russell. Mas eles agiram assim por causa de outros pressupostos, não propriamente pelo pressuposto da “impossibilidade da vigência da tese da linguagem privada”. Wittgenstein não, ele acoplou sua pegada em filosofia analítica à destruição da idéia da existência do “mentalês”.

Voltemos à memória.

O que Wittgenstein tomou como pressuposto é o que agora os cientistas da Califórnia também aceitaram e, por isso mesmo, tiveram sucesso nos experimentos pouco convencionais que fizeram. Eles criaram memórias falsas. As pessoas acreditam que o Pluto lambeu as orelhas delas quando elas eram crianças, mesmo sabendo que o Pluto nunca deixou de ser apenas um personagem de desenho animado. Elas consultam suas memórias e eis que a memória lhes garante, com boas lembranças, esse fantástico episódio na infância de cada uma. Caso elas morassem todas juntas, num mesmo lugar, sem contato com o exterior, elas poderiam começar a pensar que ao menos naquele lugar, no passado, o Pluto deixou de ser um personagem, e realmente saiu do papel e circulou pela cidade, lambendo as orelhas das crianças. Sendo isso impossível, elas começariam a imaginar que teria havido, em um determinado momento, alguma coisa no passado semelhante a isso, e que causou a ilusão coletiva. E elas começariam, então, a ver como que poderiam sair da Caverna.

Quanto à memória, o problema todo que se examina com isso é o seguinte: ela é tão lingüística quanto qualquer outra coisa da vida mental, e por isso mesmo, quando fazemos intervenções comportamentais, em geral lingüísticas, podemos alterá-la. Não há nenhum “mentalês” ou “linguagem privada” que venha salvá-la, corrigindo-a. Não há como sacar um núcleo ainda preservado do “mentalês” – que Chomsky tanto gostaria que houvesse – para vir corrigir o erro provocado por técnicas feitas sobre a linguagem que temos quando adultos. Em suma, Wittgenstein sabia bem aquilo que Chomsky nunca conseguiu entender, a saber, que o Pluto era mesmo filho da Pluta, isto é, que mesmo como desenho, era um cachorro  normal, filho de uma cachorra, e que, sendo assim, podia sair por aí lambendo orelha de criança.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo. Filie-se na http://ghiraldelli.ning.com

 

 

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One Comment leave one →
  1. 20/02/2009 14:57

    Cuidado, você não entendeu a experiência.
    Paulo

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