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Quatro Contemporâneos e Platão

20/02/2009

Rorty, Davidson, Wittgenstein, Nietzsche e PlatãoNietzsche disse que ler Platão é um tédio.[1] Para ele, Platão escrevia mal, mesclando estilos. Wittgenstein ironizou Platão: ao ler comentadores que escreveram que os filósofos atuais não estavam mais próximos da realidade do que Platão, perguntou como que Platão foi “tão esperto”.[2]

É claro que as duas implicâncias não foram dirigidas, do mesmo modo, propriamente contra Platão em um sentido idiossincrático. Nietzsche falou o que falou antes para diferenciar o modo como iria criticar Sócrates do que para realmente fustigar Platão. E Wittgenstein escreveu o que escreveu apenas para lembrar a questão do progresso em filosofia. Ou seja, acreditar que Platão e nós estamos na mesma situação quanto às investigações em filosofia não seria algo a respeito da inteligência de Platão ou de nossa mediocridade, e sim uma situação a ser creditada à nossa condição de pessoas sob os limites da linguagem que, enfim, não seria uma linguagem tão diferente da utilizada desde Platão.

Todavia, ainda que Nietzsche e Wittgenstein não estejam totalmente voltados para destilar veneno contra Platão, poderiam ter escolhido outro filósofo para falar o que falaram. Mas, de fato, escolheram Platão. E não creio que escolheram Platão pela mesma razão que hoje, não raro, citamos a observação de Whitehead, de que toda filosofia nada mais é que rodapé da obra de Platão. Não! Tanto no caso de Nietzsche quanto no caso de Wittgenstein, por razões diferentes, Platão parece que foi o escolhido para cair na berlinda por sua capacidade de ser o próprio emblema de um tipo de filosofia que, não raro, quer se passar como sendo a filosofia tout court.

Vamos esquecer por um minuto ou, melhor dizendo, por dois parágrafos, o contexto das objeções de Nietzsche e Wittgenstein. Tomemos as suas observações de modo quase desterritorializado. Podemos então notar que Nietzsche está contestando um lugar comum na história da filosofia: que Platão é encantador, literário, bom escritor. E o mesmo está fazendo Wittgenstein. É como se ele quisesse mostrar que seria um pouco ridículo conferir a Platão uma inteligência capaz de dar conta de vinte e cinco séculos de trabalho intelectual depois dele, ainda que isso possa, às vezes, ser realmente o que pensamos.

Platão chato – diz Nietzsche. Platão não tão estupendamente genial – diz Wittgenstein.

Voltemos aos territórios.

Platão é chato, para Nietzsche, porque ele escreve mesclando estilos. Ora, por mais que gostemos de Platão, a verdade é que a forma de diálogos, e o modo como Platão conduz a narrativa, fazendo-a sinuosa, talvez querendo fazer parecer que ela era a cópia de um diálogo real, não é agradável. Há momentos lindos em Platão. Mas, perto de Nietzsche, falta-lhe entusiasmo.

Platão não é gênio de todos os tempos, para Wittgenstein, pois de fato ele não poderia fazer aquilo que ninguém pode fazer, a saber, sair da própria pele para observar o corpo. Ou seja, Platão estava tão preso à nossa linguagem tanto quanto nós estamos presos à nossa linguagem que, enfim, ainda não é tão diferente da de Platão.

Richard Rorty também é um filósofo que implica com Platão.[3] Mas sua crítica é diferente. Ela é tão espirituosa quanto a de Nietzsche e Wittgenstein, e ela também aponta para um dado, digamos, psicológico de Platão. Mas, ao mesmo tempo, ela é uma observação a respeito da inserção de Platão na batalha cultural do seu tempo. Rorty diz que Platão ficou encantado com o “ser” de Parmênides. Platão teria achado maravilhoso ter algo mais augusto – e tão intocável – que Zeus para apontar. Colocou as “Formas” e, dentre estas, a Forma do Bem”, no lugar da divindade máxima, e só foi mais otimista que outros ao acreditar que ao menos os que se modelassem a partir de Sócrates poderiam alcançar esse reino. Este seriam os filósofos, é claro.

Assim, se somamos as observações dos três contemporâneos temos que Platão é chato, limitado e um falso padre. Escreve mal, está amarrado na sua fala e, enfim, é um vendedor de novos deuses. Tudo isso é muito pejorativo, eu sei, mas é também e ao mesmo tempo muito elogioso. Sim, por incrível que pareça, há nisso tudo um enorme elogio a Platão.

Vejamos a crítica de Nietzsche. Platão escreve mal e é um chato? Pode ser, mas sua capacidade de trazer o tédio é o início do niilismo, é o caminho dos fracos. Ora, na filosofia da história de Nietzsche os fracos terminam por vencer os fortes. Então, na constatação da chatice de Platão, Nietzsche está, também, admirando a capacidade de vencedor do filósofo grego.

Vamos à crítica de Wittgenstein. Platão está preso à linguagem? Sim, mas quem não está? E não é justamente por Platão mostrar-se ainda hoje preso à linguagem que pudemos, então, ver mais de perto a tarefa da filosofia como terapia, e não como platonismo?  Não é a própria concepção de filosofia levada a cabo por Wittgenstein uma possibilidade que dependeu de Platão ter mostrado todos os seus limites? Ora, se é assim, então de fato há em Wittgenstein um insight a respeito da tarefa da filosofia só possível por conta da esperteza de Platão.

Chegamos agora à crítica de Rorty. Platão é apenas um arremedo de sacerdote? É claro que Platão está elegendo as Formas como o que é para ser alcançado por um tipo específico de cidadãos, e essas pessoas são os filósofos. Todavia, quando Rorty diz isso, podemos também tomar tal observação como que nos contando que Platão ofereceu uma cultura quase laica contra a cultura homérica, povoada por demiurgos. E se é isso que também está implícito na frase de Rorty, e sabendo o que sabemos de Rorty, ou seja, de sua simpatia para com o projeto laico e naturalista, poderíamos notar aí também um elogio.

O resultado dessas três posições contemporâneas em relação a Platão revela também o quanto se pode zigue-zaguear sobre uma filosofia que muitos assumem como dizendo uma e a mesma coisa. Mesmo Platão, um filósofo que gerou uma doutrina canônica chamada platonismo, pode ser lido interpretativamente de maneira criativa, para além da canonização. Mas e o próprio Platão, o que acharia disso tudo?

Ora, se lançarmos mão de mais um filósofo contemporâneo, Donald Davidson[4], talvez possamos imaginar uma resposta de Platão.

Entre os quatro filósofos contemporâneos que citei até aqui, Davidson é o único que trabalhou no seu doutorado com Platão. Ao voltar da II Guerra Mundial, Davidson defendeu sua tese com o título de Plato’s Philebus. Um dos subprodutos dessa tese é a idéia de que Platão não seguiu o platonismo por toda sua vida. Ao final da vida, talvez descontente com as dificuldades advindas do que Aristóteles chamou de “o problema do Terceiro Homem”, Platão teria voltado ao método socrático original, o elenkhos. Assim, já próximo dos oitenta anos, Platão teria visto em Sócrates, e não no platonismo, o melhor caminho para a filosofia. Ele teria abdicado de jogar uma âncora para fora da linguagem, que visava atingir as Formas, para voltar ao procedimento socrático de continuar a conversação da filosofia, e avaliar enunciados verdadeiros a partir da consistência destes com o conjunto todo do que se está dizendo.

Não há como não admirar Davidson nessa sua avaliação (que muito deve a Vlastos). Esse Platão reeducado por Davidson poderia muito bem dizer a Nietzsche: “você ainda me considerará um chato se eu prometer para você que tudo que vou continuar repetindo estão apenas nos diálogos socráticos?” Ele poderia dizer a Wittgenstein: “você não vê que estar limitado pela linguagem não necessariamente nos leva a ter de fazer metafísica, que posso continuar a fazer filosofia como Sócrates, sem um traço de metafísica?” E poderia, ainda, retrucar a Rorty: “você não percebe que talvez eu seja menos dogmático ao aderir à religiosidade de Sócrates do que ao projeto laico contrário ao projeto educacional de Homero?”

Acontecendo isso, duvido que Rorty, Wittgenstein e Nietzsche não viessem a repensar não só suas opiniões sobre Platão, mas também sobre suas próprias filosofias. Caso tenha tido espaço para mais gente no Limbo de Dante, talvez esse pessoal todo esteja lá, conversando mesmo desse modo.

© 2009 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo

Visite e se inscreva aqui: http://ghiraldelli.ning.com

 

 


[1] Nietzsche, F. O crepúsculo dos ídolos. São Paulo: Cia das Letras, 2006, pp. 102-3.

[2] Wittgenstein, L. Apud Hacker, P.M.S. Wittgenstein. São Paulo: Editora da Unesp, 1999, p. 11.

[3] Rorty, R. Pragmatism and romanticism. Philosophy as cultural politics. NY: Cambridge University Press, 2007, p. 105.

[4] Davidson, D. Plato’s philosopher. Truth, language and history. NY: Oxford University Press, 2005.

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