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Parto Natural para Programa de Pós-Graduação

01/03/2009

Os programas de pós-graduação nasciam da capacidade que os professores de uma determinada instituição possuíam no sentido de gerar boas aulas, produzirem livros a partir de pesquisas e orientarem alunos de graduação no campo da iniciação científica. Foi assim no passado recente. Durante os anos setenta e início dos anos oitenta o nascimento de um programa de pós-graduação foi entendido dessa maneira. Era o parto natural.

Muito do que se fez na PUC-SP e na PUC-Rio nos anos setenta e início dos anos oitenta seguiu esse tipo de parto.

Mas o desprestígio da graduação e principalmente o desprestígio da função de professor na sociedade brasileira, levou a universidade em geral a criar inúmeros programas de pós-graduação, muito além do possível com o parto natural. Esses programas estiveram alinhados com o intuito de gerar no interior do ensino superior uma instância mais alta, uma nova fonte de prestígio social e um inusitado instrumento para o jogo político. Sociólogos ligados ao pensamento de Pierre Bourdieu viram nisso um destino inescapável. Para eles, não poderia ser diferente. As elites (não necessariamente econômicas) iriam realmente criar um local para adquirirem diplomas diferenciados, com mais prestígio social do que aquele vindo dos velhos diplomas de graduação, então já distribuídos para mais gente do que tais elites gostariam.

Não sei o quanto essa análise sociológica teve ou tem razão. Mas o que o que ocorreu foi que o parto natural de programas de pós-graduação diminuiu muito. O parto artificial conquistou todas as mamães.

As universidades estatais abriram programas de pós-graduação, no que foram seguidas pelas particulares, para além do que ambas poderiam de fato ter feito. Ficou claro para todos, e esse era inclusive o discurso corrente, que era necessário ter cursos de pós-graduação, uma vez que havia doutores na casa. Os programas deixaram de nascer por conta de um bom trabalho na graduação e uma articulação desse trabalho no sentido de se ter grupos de pesquisa reais. Começaram a nascer não só sem essa base, mas muitas vezes até contra tal base.

Esse movimento se deu socialmente, e o poder estatal, como de praxe, logo viu que precisava regrar os programas de pós-graduação. E o estado brasileiro agiu de modo característico. Em vez de fomentar e balizar, como então vinha fazendo, passou a doar, policiar e punir. Em vez de se preocupar com a graduação para, então, forçar o parto natural, preferiu deixar os programas nascerem de modo artificial e, após isso, transformou a CAPES em órgão policialescamente burro. Novamente aqui, poderíamos chamar Bourdieu, e ele diria que tal movimento no interior do Estado também foi proposital, visando dar ao próprio aparelho estatal novas instâncias burocráticas e de poder político.

O resultado que temos hoje na sociedade brasileira é este: temos mais programas de pós-graduação isolados, descolados de uma política de iniciação científica na graduação, com inúmeros grupos de pesquisa fantasmas, com uma série de grupos em que a produção é maquiada e, no frigir dos ovos, um dispêndio de dinheiro enorme, tanto no campo do que é estatal quanto no campo do que é privado. E do lado do governo temos a polícia, a CAPES.

No meio disso tudo, a presença daquele professor de filosofia que esteve à frente da CAPES, e que disse que um mestrado em ciências humanas poderia ser feito ao todo com duzentos dólares, foi um fato vergonhoso, mas não de se estranhar. Ele mesmo já era fruto de um sistema sucateado no mestrado, no qual produziu um texto que não era mais que uma apostila, e não tinha a menor idéia de como é o gasto de um verdadeiro laboratório de pesquisa em ciências humanas. O pior disso tudo é que grande parte dos professores brasileiros atuais não sabe mesmo o quanto é caro um laboratório de ciências humanas, pois nunca usaram um, nunca sequer viram um.

Um historiador no exterior trabalha com aparelhagem científica de todo tipo. Computadores, laboratórios de análise genética, laboratórios de arqueologia, bibliotecas online em diversas línguas etc. Nenhum historiador que se preze imagina que o seu trabalho é simplesmente o trabalho do rato de arquivo que aprendeu algumas técnicas de hermenêutica. Só isso já custa bem mais que duzentos dólares, mas hoje em dia ninguém no exterior, no mundo desenvolvido, iria chamar de historiador aquele historiador que não pudesse entrar e se sentir bem em um laboratório de ciências humanas. Aliás, o trabalho interdisciplinar pressupõe esse engajamento laboratorial de equipe. Basta ver o History Channel e percebemos logo como que as universidades americanas e inglesas trabalham no campo da pesquisa em ciências humanas. Algo que fica muito mais caro que duzentos dólares.

Poderíamos ter no Brasil alguma universidade que viesse a apostar em uma pós-graduação articulada a uma graduação forte e de uma amarração consistente entre disciplinas do mestrado e do doutorado com os trabalhos de iniciação científica? Caso possamos ter isso, já seria um bom começo. Esse seria o caminho correto. E com isso voltaríamos ao parto natural para programas de pós-graduação. Em uma época que a palavra “natural” atrai tanta gente, talvez fosse bom falarmos em parto natural de programas de pós-graduação.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo: WWW.ghiraldelli.org e  http://ghiraldelli.ning.com

Primeiro de Março de 2008, cidade de São Paulo

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