Skip to content

Nietzsche, Zarathustra e o Gago

11/03/2009

Lohman star dancer

 

Alguns filósofos escrevem a partir de um vocabulário especial, técnico, que não se confunde de modo algum com os vocabulários do dia-a-dia. Outros filósofos escrevem de modo tão profundo quanto os primeiros, mas conseguem fazê-lo segundo um vocabulário aparentemente mais popular. Ambos os procedimentos são conhecidos de todos nós.

 

Alguns filósofos escrevem objetivando a justiça social. Outros fazem filosofia buscando auto-transformação. Marx e Habermas são do primeiro time. Nietzsche e Heidegger são do segundo time. Esta tese não é conhecida de todos, ela é relativamente recente, e foi elaborada pelo filosofo norte-americano Richard Rorty.

 

Nietzsche faz parte dos dois segundos tipos. Ele escreve de um modo belo e fácil. E ele visa antes a auto-transformação que a justiça social. Todavia, por esses dois aspectos, isso que é o seu mérito é também o gancho para que ele possa ser lido de um modo completamente desaconselhável. E a pior interpretação de Nietzsche é aquela que não leva em conta que essas suas características não o faz deixar o leito dos problemas centrais da filosofia. Todavia, não raro, encontramos leitores de Nietzsche que se esquecem disso, ou que não entendem essa sua vinculação ao que há de mais central na filosofia, caso possamos dizer que há alguma coisa central na filosofia.

 

A pior leitura de Nietzsche é aquela que o traz para o campo do “popular” e, no limite, da “auto-ajuda” ou de “leituras clínicas” ou coisa parecida. Isso é o que eu chamo de leitura desinformada de Nietzsche. No caso do seu livro Assim falava Zarathustra, o leitor despreparado pode imaginar que tem em mãos um manual de alegorias para a “auto-superação”, em um sentido exclusivamente psicológico da palavra “superação”. Nesse caso a figura do homem, o elemento humano, aparece como aquele que gostaria de “se superar” e vir a ser o “super-homem”. Mas Nietzsche está longe de dizer algo assim, que implique nessa banalidade da leitura pouco contextualizada.

 

A superação que Nietzsche aponta não é psicológica. Ela não é a auto-superação de Maria por Maria ou de Sônia por Sônia ou de Gabriel por Gabriel. É claro que Nietzsche está dizendo que a auto-superação é um trabalho de indivíduos, e não um trabalho coletivo de uma revolução organizada, como a de Marx. Mas Nietzsche está pensando, sim, em uma transformação de ethos. Especificamente: uma transformação ética. Todavia, mais profundamente, ele está também ousando indicar uma transformação cosmológica, algo que possa, talvez, até mesmo fazer desaparecer a nossa noção de ethos. Essa transformação ética ou essa “transvaloração de todos os valores” pode ser tão radical que leve ao desaparecimento do homem, “aquele animal que avalia”. Pode surgir dessa transformação alguém ou algo que não mais avalie. Algo para além dessa conversinha de dizer “isto é bom, aquilo é mau”. Alguém que esteja para lá do homem, um Além-do-Homem – um Übermench. Mas o que tal entidade deveria de fato pular? O que é que uma entidade assim salta para poder dizer “agora, eis que estou aqui”?

 

O que deve ser pulado, é claro, é a cultura moderna, e devemos entender a modernidade, em Nietzsche, como uma noção transhistórica. No caso específico, o que Nietzsche diz é que esta cultura está exemplificada pela filosofia. A filosofia vigente, centro da cultura ocidental, é o que deve terminar. E qual é essa filosofia? Simples: o platonismo. E seu correlato moderno, o humanismo. Mas também seus contrários: todo tipo de ceticismo sofisticado.

 

O que Nietzsche chama de platonismo é um platonismo caricato. Mas não devemos reprovar Nietzsche por isso. Ele pega a caricatura porque está pensando no platonismo disseminado na cultura, portanto, os traços mais fortes de uma metafísica que engloba todo nosso agir. Um dualismo metafísico que faz a apologia do homem, como se este fosse não só centro do universo, mas a finalidade de todo o cosmos. Todavia, essa forma caricaturesca do platonismo, utilizada por Nietzsche, não é erro. É um ato proposital de Nietzsche. Ele quer observar o caminho da filosofia que vai da busca de um ponto fixo à perseguição da superação da busca de um ponto fixo para além das aparências.

 

Isso não é estar engajado no movimento do anti-platonismo, no qual já estavam engajados, talvez sem saber, os sofistas. Nietzsche recusa o anti-platonismo. Quando os homens se tornam refinados e abraçam o ceticismo, quando Deus morre e tudo é altamente sutil, quando os homens piscam ao falar que inventaram a felicidade, nada ocorreu de tão fantástico ainda para Nietzsche. Pois os anti-platonistas são, antes de tudo, completamente humanos. Nietzsche expressa essa situação ao lembrar que quando o “mundo aparente” é desacreditado, também o “mundo real” não faz sentido, pois o que houve é a queda da dualidade aparência-realidade. Segundos antes dessa hora o Funâmbulo aparece na corda; e esta corda nada é senão o próprio homem. O Funâmbulo equilibra-se no fio que liga o animal ao Übermench. E é nessa pré-hora que o funâmbulo começa a andar, como está no prólogo de Assim falou Zarathustra.

 

O funâmbulo nada mais é que o homem culto, o homem do Renascimento ou mesmo o homem sofisticado do final do século XIX. Ele sabe que Deus morreu e desconfia de Platão. Mas ele ainda lê A República e ele ainda tem práticas da religião de Deus. É por causa de ainda estar preso a tudo que deveria ser extinto que ele não é forte o suficiente para se defender do Palhaço, aquele que surge na corda para atacar o Funâmbulo. Ele, o Funâmbulo, é um homem superior, mas ainda é homem. Ou melhor, ele ainda é corda e equilibrista ao mesmo tempo. Portanto, a figura do Palhaço pode jogá-lo para baixo e fazê-lo perecer.

 

O cenário que Nietzsche monta não poderia ser melhor: uma praça de mercado, uma corda estendida entre duas torres, um espetáculo circense na rua. Tudo isso ao sabor dos olhos de Zarathustra, que está ali como anunciador – aquele que imagina poder dizer algo sobre o que viria, que é o Além-do-homem. E o contexto se desdobra: o equilibrista não se equilibra suficiente, pois aquele que está no circo para aparecer em intervalos entre um número e outro, o Palhaço, derruba o funâmbulo. E causa sua morte. Os espetáculos são a que há de estrutural, o aparecimento do Palhaço é o contingente. Em qualquer circo é assim.

 

O homem superior, esse que se equilibra na corda e que parece que pode estar na direção correta, corre perigo. Sua profissão de equilibrista é perigosa. Qual o seu equilíbrio?

 

Ele sabe bem que não pode entrar no mundo sofisticado da cultura moderna e começar a falar de Deus. Afinal, quem acreditaria em Deus? Quem levaria a sério um Ser Perfeito? Esse homem superior sabe também que, neste ambiente sofisticado em que vive, ninguém leria A República senão para criticar, e para dizer que as Formas (eidos) são bela criação, mas nada além de mitologia. Mas esse homem, por ser o homem pós-morte de Deus e anti-platonista, ainda é completamente humano. Pois ele está preso ao que há de mais característico da cultura tradicional, ainda que por oposição e desdém.

 

Zarathustra não está pedindo uma fogueira de livros – que se queime A República e todos os outros livros que se seguiram daí e que montaram esse gênero literário chamado filosofia. Não! Zarathustra não está pedindo que todos façam qualquer coisa “sem eira nem beira” para comemorar a não existência de uma divindade perfeita regrando nosso mundo. Nada disso. Zarathustra está dizendo que esses comportamentos dos homens superiores são, ainda, um elogio ao que há de humano. E o que há de humano é o que deve ser superado. O homem é um ocaso, diz Nietzsche, pois ele é o fim, é ele que deve desaparecer.

 

Nem crente, nem ateu. Nem platônico, nem cético. Nem positivista e nem anti-positivista. Parece que é nesse caminho que poderíamos vislumbrar algum cheiro de Übermench. Mas os homens escutam Zarathustra e podem sentir o cheiro do Übermench? Eles o entendem? Não, no prólogo de Assim falou Zarathustra há uma lembrança esquisita: os homens escutam somente um gago (Stammelnden). É bastante estranho que Nietzsche diga isso, ou melhor, que pergunte isso. Um gago não é justamente aquele que temos dificuldade de escutar? Quem tem paciência para ouvir um gago? E, no entanto, Zarathustra se pergunta se não é este aquele que, em nossos tempos, pode falar.

Um gago? Aristóteles era um pouco gago, mas ele não é uma referência de Nietzsche. Sócrates tinha algo que poderia ser considerado um defeito de fala. Ele pronunciava algumas palavras com a língua entre os dentes, um pouco como se falasse com a língua presa. E Sócrates é exatamente o típico filósofo que Nietzsche identifica como aquele que é ouvido, que tem seguidores. E, como sabemos, trata-se da figura contra a qual Nietzsche se insurge. Poderia aí haver alguma alusão concreta a Sócrates? Há mais a dizer da figura do gago?

O homem que fala de modo eloqüente e direto, que tem o discurso cheio de normas e suas normas cheias de discurso, é visto pelo homem culto e sofisticado como um pregador dogmático, algo vindo do meio popular. Este homem pregador e não gago nem sabe que Deus morreu. Na vida cotidiana, faz todo seu cristianismo empurrar o que, no meio filosófico, ainda que também de modo caricaturesco, seja o chamado platonismo. Diferentemente, o homem que tem a “instrução”, aquilo que é o orgulho do homem sofisticado, gagueja. O gago aqui não é o ridículo, embora possa também passar por infortúnios. O gago é o exemplo daquele que titubeia e que coloca senões em tudo. O homem da filosofia tem dúvidas – sim, dúvidas! É sofisticado ficar parado olhando a baforada de fumaça de um cigarro francês enquanto se dá a impressão de estar formulando dúvidas. O que faz o filósofo? Ou melhor, o que faz o professor de filosofia senão praticar a arte das reticências? Não foi Descartes aquele que ensinou a não mais filosofar a partir do espanto e da admiração, mas diretamente a partir da dúvida? Nietzsche coloca Zarathustra desconfiado que são esses homens que gaguejam, que duvidam, que podem ser escutados. São escutados não pelas massas, mas escutados pelo público que é culto ou que se pretende se passar por culto – e a essa altura, para Nietzsche, tanto faz um ou outro público.

 

O problema que Nietzsche coloca para Zarathustra enfrentar não é o de escapar dos que falam como gagos e de voltar a falar bem, a pregar bem. Quem fala bem é o pregador, aquele que não sabe que Deus morreu e que tem tudo para aderir ao platonismo. Este homem é passado. O problema todo de Zarathustra é o de ver que há gagos aqui e ali, homens superiores, decadentes, e que são ouvidos – são escutados no âmbito dos meios instruídos. São os porta-vozes da reflexão. Gaguejar neste caso é essencialmente titubear e tornar charmoso ter dúvida. Gaguejar é parte do equilibrismo.

 

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo www.ghiraldelli.org

 

 

 

 

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: