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Vestibular e Memorização

24/03/2009

fitmemorycartoonO ministro da Educação volta a lançar idéias. Fazia já algum tempo que ele não vinha com coisas assim, de ir para a imprensa para jogar balões de ensaio. Mas, como novamente há índices ruins cercando a educação, mostrando mais uma vez que o Brasil não avança neste campo de modo algum, então, é claro, ele aparece com coisa nova, para encobrir tais notícias. O modo dele fazer isso é criando temas que desviam a atenção do principal, e o tema do vestibular é o de praxe, já utilizado por outros ministros e com a mesma função.

O que ele disse? Ele disse que o vestibular privilegia a memorização, e quer testar em 2010 novas fórmulas. (Entrevista)

O ministro não fala algo novo. Qualquer um poderia dizer isso e não ser contestado. Pois, sabemos, há verdade nisso, e muitos já afirmaram tal coisa com boa capacidade para mostrarem onde estava o problema. O ministro, que não é da área da educação, até pode achar que está falando novidade. Todavia, ele não está falando novidade, e nem está falando algo tão tranquilamente correto como os leigos podem imaginar.

Faz tempo que o vestibular, em geral, não privilegia mais somente a memorização. E, aliás, mesmo que tenha questões que assim fazem, estão corretos nesta ação, uma vez que uma parte do aprendizado real de elementos importantes da cultura não só depende de desenvolvimento da memória como só podem nos ser úteis por conta disso.

Quando eu, por memorização, sei que uma determinada fórmula matemática representa uma lei física, talvez eu também saiba como demonstrar essa fórmula e também saiba o conceito que ela envolve. No entanto, para que essa fórmula seja útil, isto é, possível de ser operacionalizada, ela tem de vir à minha mente de modo imediato. Seria ridículo eu precisar obtê-la com derivação algébrica a partir de seu conceito no momento que preciso dela para dar seqüência a um raciocínio. Caso eu tivesse de assim agir, eu perderia tempo, e para que determinado tipo de operação mental seja útil é necessário que não exista perda de tempo. É como tabuada: pode haver máquina que diga a tabuada, pode haver raciocínio para entender a tabuada, mas ela só é útil mesmo quando a temos na cabeça bem memorizada, de um modo automático, quando em uma seqüência de raciocínios mais sofisticados que a simples continha da tabuada.

Em outras palavras: uma série de atitudes que temos e que são hábitos não podem não ser hábitos automatizados, pois não sobreviveríamos caso não fossem. Como poderíamos dirigir um carro caso tivéssemos de pensar no que estamos fazendo ao mudar uma marcha? Há aprendizados que não só dependem mesmo da memória, mas, antes disso, precisam se tornar automáticos. Quando negamos isso, não estamos advogando um ensino que favoreça a criatividade, estamos simplesmente mostrando ignorância em pedagogia.

Aliás, para sermos livres é necessário que sejamos escravos – escravos de hábitos bons. Pois é a automação de uma série de atividades que nos liberta a mente.

Não raro, as pessoas que não se saem bem nos vestibulares querem nos provar que elas são gênios incompreendidos. Muitas vezes elas são apenas incultos muito bem compreendidos. Ou até mesmo nada são senão pessoas incapazes mentalmente, mas que teimam que todos são inteligentes e que elas, que são burras, são apenas pessoas que “ficam nervosas no vestibular”.

Aliás, nem sempre a crítica que afirma que o vestibular é uma forma de seleção apenas (e não uma forma de avaliação real) está correta.  Às vezes está correta, mas, na maioria dos casos, isso é muleta sociológica para não se enfrentar o fato de que todos nós que passamos em vestibulares concorridos, de fato tivemos de estudar e aprendemos muito assim fazendo. Vemos isso claramente na universidade: é bobagem querer ensinar um aluno que não fez vestibular achando que ele terá menos ou igual dificuldade que um aluno que estudou para o vestibular e passou. Quando olhamos a desenvoltura em sala de aula daqueles que fizeram o vestibular, que por meio disso adquiriram noções básicas que são necessárias na universidade, não temos dúvida de que antes um vestibular ruim que nenhum, e que qualquer vestibular que preste precisa realmente não deixar a memorização de lado, até pela razão de que isso seria impossível.

Fernando Haddad inventou um assunto velho. E mais uma vez, no que falou, está errado. E olha que ele passou no vestibular! E foi um bom vestibular, o da Faculdade de Direito da USP. Mas acho que, no caso do Direito, talvez ele realmente esteja certo: há muita memorização em tudo que se faz nessa área, e pouco raciocínio, ao menos é o que dizem os engenheiros.

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo. – http://www.ghiraldelli.org


Paulo Ghiraldelli Jr.
O Filósofo da Cidade de São Paulo
Inscreva-se na rede social:
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