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O MEC e o novo vestibular

16/04/2009

 

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Paulo Renato está certo. Fernando Haddad está errado. Em termos simples, é isto o que há para se falar de efetivamente objetivo sobre a transformação do ENEM em exame de ingresso para as universidades federais.

O secretário de educação de São Paulo diz que o ENEM foi pensado não como exame, e sim como um averiguador de habilidades gerais do jovem que freqüenta o ensino médio. A idéia de Paulo Renato, segundo ele próprio, é a de que quando comandou o MEC, criou o ENEM como um instrumento capaz de fazer uma anatomia intelectual do jovem, e com isso preparar uma transformação no Ensino Médio, há muito descaracterizado.

Eu critiquei a gestão de Paulo Renato – e fiz isto em livro, Filosofia e história da educação brasileira (Manole, 2009) – não pelo que fez, mas pelo que deixou de fazer. A gestão de Paulo Renato preparou um conjunto enorme de mecanismos de avaliação da educação brasileira, para que o país pudesse ter um mapa de seu ensino. Todavia, em 8 anos, poderia ter ultrapassado a fase de elaboração de peças para o diagnóstico e seguir para a fase de aplicação de remédios. No meu entendimento, isso não ocorreu. Todavia, não posso dizer que os mecanismos de diagnósticos não deveriam ter sido criados. É um erro crasso menosprezar tais mecanismos. E é um erro maior ainda desviá-los de suas funções.

Capitaneado pelo jovem Fernando Haddad, o MEC atual quer mudar a função do ENEM. O mecanismo de diagnóstico do jovem será descaracterizado. Tal mecanismo será transformado em vestibular. É claro que é um vestibular com alguns elementos diferentes do vestibular tradicional, mas não é esta a questão. O problema é que o ENEM não será mais um diagnosticador de habilidades gerais do jovem. Ele será um exame, de estilo do vestibular. Segundo o MEC, tal exame cobrará do aluno o conteúdo das matérias do Ensino Médio que são pré-requisito para se conseguir acompanhar o Ensino Superior. Ora, isso era e é a função do vestibular. Fazer o ENEM cumprir essa função é perder o ENEM como mecanismo de averiguação para o qual ele foi criado, e é dar sinais, de uma vez por todas, de que não há interesse em modificar o Ensino Médio.

Resumindo: antes tínhamos o ENEM e o vestibular, cada qual com a sua função, de agora em diante teremos somente o vestibular, com nome de ENEM.

O MEC de Fernando Haddad pode contra-argumentar dizendo que o novo exame é necessário, que se trata de uma exame que não irá privilegiar a memória, que irá dar mais oportunidade ao estudante à medida que permitirá o aluno opções durante os anos de estudo e não apenas no final etc. Ora, mas quase tudo isso já foi tentado com o vestibular e, em certa medida, com a obtenção de bons frutos. E o que não foi tentado, pode ainda ser buscado.

No passado, para fugir da prova de múltipla escolha, acusada de frágil, a FUVEST adotou a prova com questões escritas. Além disso, criou mecanismos para que o exame forçasse o aluno a recorrer antes ao raciocínio que à mera memorização. Essas transformações foram bem vindas. Tal direção poderia ser mantida e tudo nela poderia ser continuamente aperfeiçoado. Escolas diferentes, a partir do esforço da FUVEST, poderiam inovar e dar sugestões. Não era necessário destruir o ENEM, que tinha suas funções específicas, para se propor algo novo. Essa política de reinventar a roda, apenas com mudanças de nomenclatura, que o MEC atual segue, acaba por não ser útil para ninguém.

Assim, por vias inversas, o MEC de Lula reedita não o acerto do MEC de Fernando Henrique, mas seus erros. O erro do MEC de Fernando Henrique foi o de ter gasto muito tempo na construção de mecanismos avaliadores. O erro do MEC de Lula, além de ter idéias demais e não levá-las a término, é também ficar antes envolvido com exames que com soluções para o ensino. E o resultado disso é simples: estamos sem melhora de qualidade no desempenho dos alunos brasileiros em exames internacionais e, por não fazermos as reformas necessárias que teríamos de fazer, vamos continuar piorando. Estamos com um ensino que coloca nossos jovens de classe média baixa, aos 17 anos, após uma vida de aulas, sem as condições que o jovem de classe média baixa, aos 17 anos, tinha nos anos 60 e 70. E não fazemos nada para mudar isso, queremos alterar exames achando que assim, por um passe de mágica, alteraremos tudo que leva o nosso ensino a ser um dos piores do mundo.

Estamos piorando, e o MEC patina e a cada dia aparece na imprensa com nova idéia, em geral inacabada, com uma capacidade incrível de antes desestruturar as coisas do que fornecer bons caminhos pavimentados.

Ou seja, o MEC de Fernando Henrique pecou pelo excesso de zelo, enquanto que o MEC de Lula peca pela carência de zelo. Um ficou tempo demais em uma única parte do seu plano, gastou duas gestões para fazer aquilo que, estrategicamente, deveria ter feito em uma só gestão de quatro anos. O outro vai acabar gastando duas gestões na proliferação de idéias que aparecem na imprensa ainda sem qualquer acabamento, sem esmero, criando a praxe do reboliço.

Como em todas as outras vezes que o MEC lançou idéias, na gestão de Fernando Haddad, também desta vez, a de mudança do ENEM, o que está ocorrendo é que todos sentem que haverá a desestruturação do que vem funcionando sem que se possa colocar em prática algo melhor, e que realmente funcione.

Na prática, o que está para ocorrer são dois erros, com duas conseqüências graves: uma primeira é o da perda do próprio ENEM, a segunda é que a sociedade brasileira vai acordar qualquer dia desses com os mecanismos de vestibulares enfraquecidos, confusos, prontos para desnortear o jovem. Aliás, os jovens que estão para entrar no ensino universitário já estão reclamando: “qual é a do ministro”, perguntam eles. Não sabem o que devem estudar. E o que é pior: agora, o MEC também não sabe.

 

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo

www.ghiraldelli.org

 

 

 

 

 

 

One Comment leave one →
  1. mattias85 permalink
    17/04/2009 11:45

    A meu ver, o vestibular unificado é uma vergonha! não no modo social… mas do jeito que eles está sendo introduzido, ou seja, tomando lugar no ENEM que é um exame averiguardor da educação no Brasil, então quando o ENEM tem resultado negativo ou péssimo ele passa a ser uma prova irrefutável de que a educação no país precisa de melhorias… Pois assim não há ninguém pra alegar, COM PROVAS(O ENEM) -, que a educação precise de melhorias.

    O MEC não quer criar vestibular unificado, ele quer é ACABAR com o ENEM.

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