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O adeus à “ilusão liberal” ou a educação não é mais um valor

19/04/2009

CartoonOs professores dos anos 30 e 40 reclamavam das Histórias em Quadrinhos. Segundo eles, elas desviavam o aluno do esforço de leitura e os tirava da concentração necessária para as aulas. Os professores dos anos 70 diziam que não podiam competir com a TV. A televisão estaria apresentando espetáculos bem melhores que os das aulas. Alguns professores dos anos 90 repetiram isso, só que somaram o problema da TV com o apego dos jovens à Internet.

Esses argumentos todos nunca tiveram correspondência com a realidade. Sempre foram desculpas esfarrapadas de ou professores fracassados ou professores azarados. Aos poucos as pesquisas de campo foram desmentindo essa pseudo-sociologia da educação. Hoje em dia, tais desculpas já não se fazem mais presentes como no passado. No entanto, exatamente agora é que realmente os jovens estão saindo da escola não mais por outra coisa senão por desinteresse na escola. Há pesquisa sobre o assunto, e os resultados indicam claramente que a evasão no ensino médio é por desinteresse na escola em primeiro lugar, e só em segundo lugar por questões ligadas às necessidades de sobrevivência familiar, trabalho etc. (veja a notícia aqui).

O problema, portanto, é o de saber qual a razão do desinteresse dos jovens na escola. Um elemento que deve ser levado em conta é que para a nossa sociedade, de um modo geral, a educação já não é mais um valor como foi nos anos 50, 60 e 70. É claro que hoje há uma enorme demanda por ensino superior. Mas é uma demanda por diploma, não por educação. A vida intelectual e a idéia de “ser uma pessoa educada” deixoaram de ocupar a tábua de valores de uma boa parte da classe média brasileira. Por mecanismos diversos, uma parte de nossa sociedade encontrou um caminho de sobrevivência e até mesmo de ascensão social que não passa pela educação, ou que ao menos aos olhos dos jovens parece não passar pela escola.

Um dos pilares da sociedade liberal é o cultivo da idéia de que a educação é o caminho natural para a ascensão social. Quando essa idéia se esvai, essa sociedade começa a dar demonstrações claras de que está perdendo uma das pernas. Não importa aqui se essa conclusão liberal, da escola como elemento de ascensão social, é ou não ideológica. Pode ser. Mas tanto faz. O que importa é que ela mantém os jovens imantados pela escola. E fazendo assim, força os políticos a dar alguma atenção à vida cultural da nação. Ora, nossos políticos não mais se preocupam com a educação como já se preocuparam no passado. Pois eles estão refletindo em seus trabalhos o que a sociedade quer. Não há razão para grandes debates técnicos em educação, nem atos concretos, pois a sociedade não exige isso.

O resultado disso tem um reflexo no MEC. Como o Congresso Nacional não se posiciona diante dos problemas educacionais de modo tecnicamente competente, então há a oportunidade do MEC de criar um volume grande de idéias e projetos pouco factíveis, atropelando assim a capacidade de absorção e entendimento do Poder Legislativo. É o que temos assistido durante o Governo Lula: desmobilização social diante dos problemas educacionais e tropeço do Poder Legislativo diante da selva de projetos vindos do MEC. Em alguns momentos, parece que o feito é até premeditado, como se o ministro da Educação percebesse que, uma vez livre dos olhos da sociedade civil, pode dar um tombo no Congresso, criando a cada dia um fato novo. Não importa aqui se o ministro da Educação vence ou não o que quer vencer no Congresso. O que importa aqui, nesta minha observação, é que se a intenção dele é aparecer na imprensa e, resolvendo ou não os problemas, dar a impressão de que seu ministério não está parado, então ele de fato é um vencedor.

Isso é tão verdade que o ministro da Educação, em pouco tempo, tem conseguido debater com vários especialistas do campo educacional, mesmo sendo ele uma pessoa estranha ao meio pedagógico. Ele consegue isso por uma razão simples: uma parte dos que vinham discutindo educação no Brasil envelheceram ou, então, foram cooptados pelo PT e estão no poder. A reação dos intelectuais em relação ao MEC nunca foi tão pobre como tem sido nessa segunda gestão de Lula na presidência. Desse modo, há aí a coroação do desinteresse da sociedade no campo educacional. O desinteresse é de tal ordem que vários de nós, que nos anos 80 e 90 fizemos da educação nosso campo de interesse prioritário, hoje escrevemos sobre vários assuntos, conversamos sobre vários assuntos, e não mais fazemos da educação uma prioridade em nossos trabalhos intelectuais. Nós mesmos, que fomos filósofos treinados para analisar o campo da educação, ampliamos nossos horizontes. E assim agimos por uma razão negativa: a educação não nos dava mais o que queríamos. Vários entre nós acabaram percebendo que se continuassem só escrevendo sobre escola e ensino, acabariam sem leitores!

Essa bola de neve da desvalorização da educação pode não ter parada. E os efeitos negativos dela podem ser bem maiores do que os efeitos positivos que porventura vieram a ser levados adiante na vida de cada um de nós, os filósofos ou intelectuais que tiveram a educação como ponto de interesse no início de suas carreiras, mas que agora gastam bem mais tempo e energia em outros assunto.

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo e diretor do Centro de Estudos em Filosofia Americana.

http://ghiraldelli.org e http://ghiraldelli.ning.com

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