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A filosofia da educação para a liberdade

23/04/2009

Não estamos no Paraíso. Todos nós acreditamos que sabemos disso. Mas, não é verdade que sabemos disso efetivamente. Há lugares onde o Paraíso é tomado não só como existente, mas como o terreno real onde vivemos. Quais são esses lugares? Salas de aula.

Há salas de aula em que a idéia de aprendizado ainda se confunde com a prática estúpida em que um fala – e nem sempre sabe corretamente do que fala – e outros escutam e copiam, sem que qualquer atitude reflexiva ou crítica apareça. Contestação, então, nem pensar! Parece incrível, mas após tantos anos de divulgação da literatura filosófico-pedagógica vinda do campo da contestação, a maioria de nossas salas de aula do ensino superior vive o elogio à atitude do cabisbaixo. Que ninguém ouse não dizer amém – este é o lema da sala de aula brasileira. Vivemos o desconhecimento dos anos 60 e o oposto dos anos 80. Andamos hoje nos restos da mediocridade dos anos 90.


Novamente entregamos nossa liberdade de modo fácil. Parece que somos livres, hoje, mas, na verdade, estamos aquém da sofisticação de raciocínio para a qual estávamos apontando nos anos 80, quando estávamos usando a liberdade.


Dou um exemplo.


Fui falar na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Ao meu lado estava um professor da UnB, representante da Presidência da República para as questões de Direitos Humanos. Eu falei primeiro. Na introdução da minha fala, eu comentei de passagem que não sabia se poderíamos, nós humanos, falarmos em “direitos nossos”. Pois, após o que havíamos feito com os outros animais, as plantas e toda a Terra, me parecia bastante discutível que ainda quiséssemos, nós humanos, termos direitos. Qualquer animal ou planta iria nos ver como cínicos ao escutar a expressão “Direitos Humanos”. Existiria algum “direito humano” a ser reivindicado, após termos usado de todo tipo de direito que nos cabia e que não nos cabia, retirando direitos dos outros habitantes do Planeta?


Minha rápida fala, nesse sentido, tinha um caráter visivelmente irônico. Todavia, ela não se encerrava na ironia. A ironia pela ironia não é um dos melhores instrumentos. Sócrates usava dela, mas ele a acoplava ao elenkhós, o método da refutação. Como bom admirador de Sócrates, minha ironia não estava ali apenas para ser ironia, ela se fez presente para que eu pudesse desterritorializar o tema daquele dia. Pois, é claro, só fazendo assim é que eu poderia, por meio da filosofia, evitar que meu colega de palestra começasse com uma ladainha já conhecida. Eu já sabia que ele iria falar genericamente em “tolerância” e iria lembrar a Declaração dos Direitos do Homem e, enfim, falaria em “liberdade, igualdade e fraternidade”. Propositalmente, então, trouxe o tema não para o confronto homem-Estado, e sim para o confronto homem-Planeta, o que é, enfim, o confronto Homem-Homem.


Imaginei, então, que ao fazer isso a nossa discussão sobre “Direitos Humanos” pudesse ser ampliada. Ao invés de pensarmos em ética, pensaríamos em cosmologia. Seria como que uma “virada nietzchiana”. Mas não foi o que ocorreu. Meu parceiro de mesa não entendeu a ironia. Não conseguiu acompanhar a tentativa de deslocamento que fiz. E ao começar a falar, voltou para a estrada de chão batido. Passou a se justificar e, pior ainda, a justificar o cargo que exercia no governo. Queria convencer os estudantes sobre a importância dos “Direitos Humanos”, uma vez que eu, o filósofo ali presente, parecia não ver a “importância nos Direitos Humanos”. Ora, mas o que eu disse não tirava o mérito dele ou do emprego dele no governo. O que eu disse se fez no sentido de mostrar um modo de pensar diferente, quiçá mais amplo. Mas, infelizmente, ele não “pegou” a coisa.


Esse exemplo é significativo. É em relação a isto que digo que nossas salas de aula não possuem liberdade. Não há a liberdade para ser inteligente. Pois não há, afinal, a liberdade. Estamos tão acostumados a ouvir e copiar, tão adestrados para não responder de modo duro ao professor, tão postos para sermos pequenas Danusas Leão vomitando etiquetas, que não somos mais capazes de pegar a cauda de foguete de uma ironia. Não somos mais capazes de “ir no vácuo” de uma tentativa de desterritorizalização. Perdemos a liberdade, o humor e a inteligência. Nossas sala de aula são uma chatice só. Estamos no anti-clímax dos anos 70 e 80.


Como readquirir a liberdade? Com o jovens? Parece ser impossível, hoje, ver algum jovem capaz de contestar. Afinal, jovens com algum livro de esquerda em casa têm pai, tio, primo ou puxa-saco no governo federal. E os jovens “de direita”, contestariam? A direita é limitada na sua contestação, pois após alguns primeiros gritinhos ela logo estanca, uma vez que sua função objetiva é a de preservação máxima do status quo. A juventude parece estar com dificuldade de ser livre.


Mas, e os mais velhos? Ora, o exemplo que citei é de um professor da minha geração. Ele fugiu da ironia. Ele não soube se abrir para a liberdade. Ele não conseguiu fazer outra coisa senão justificar o fato de que estava no governo e que “os Direitos Humanos são coisa importante”. A fala dele foi a fala mais domesticada que já escutei nos últimos anos. Não havia um pingo sequer de rebeldia. Não havia uma isca de uso da liberdade. Não havia uma lasquinha de contestação. Tudo que é necessário para que a inteligência floresça e a verdade possa nadar de braçada, eu não encontrei ali.


Não consigo cumprimentar o Brasil de hoje. O Brasil de hoje é um fantasma de Brasil. Precisaríamos redescrever uma filosofia da educação para a liberdade, de modo a trazer a liberdade para o campo no qual ela faz sentido, que é o campo prático. Só assim poderemos voltar a usar da inteligência. Sem contestação, é difícil ser inteligente.


Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo


http://ghiraldelli.org e http://ghiraldelli.ning.com

http://filosofia.pro.br e http://mogulus.com/filosofia

5 Comentários leave one →
  1. pexigo1f permalink
    25/04/2009 17:37

    Paulo,
    Antes de tudo te direi quem sou. Me chamo Pablo, estudo filosofia na universidade e sou inteligente. Sou extremamente contestador desde muito jovem, sempre li bastante e tenho facilidade como ciencias exatas e humanas. Tive diversos problemas no colegio por indisciplina devido a um direcionamento caótico da minha energia, mas desde que descobri a filosofia, esta puta caridosa, sou uma outra pessoa. Atualmente vivo em Santiago de Compostela, estou no terceiro ano de curso e tenho 23 anos. Agora basta.
    Já li algun textos seus, vi alguns videos e de vez em quando me pergunto se seria capaz de aguentar seu sotaque e sua arrogância pessoalmente. Quem sabe um dia? De qualquer forma, gosto de ler aqui de vez em quando, apesar de sua prepotencia.
    Tive vontade de comentar este post porque aqui na faculdade de filosofia a situação esta periclitante, apesar de que eu não sei bem o que significa este termo. A maioria absoluta dos professores são umas bestas quadradas com cinco lados em matéria de didática. Muitos deles repetem a mesma ladainha a anos e nas provas recebe mais nota quem é capaz de reproduzir mais fielmente suas palavras. Sigo bastante contestador, porém bastante menos imaturo: estou satisfeito com os conflitos extra acadêmicos, necessito notas boas para conseguir uma bolsa de estudos para meu doutorado, me satisfaço se consego incitar sutilmente a discordia entre os alunos.
    Esse comentário é uma especie de relaxamento. Neste momento estou resumindo uma coletânea de artigos de Quine, “acerca del conocimiento científico y otros dogmas”, parei para comer um hot dog e descansar um pouco. Tenho uma dificuldade absurda para resumir por escrito de maneira mecânica, por uma desgraça de uma nota, caralho, eu gosto de é pensar, não repetir!
    Ah! Te fiz uma caridade, parece que ninguém comenta seus escritos, talvez eu te faça companhia.
    Ps: Sinceramente, talvez seja uma questão de desconhecimento ontológico da minha parte, porém este gosto por autointitular-se filósofo me parece ridículo. Filósofos não existem, como alguém pode amar algo que não existe?

    • 26/04/2009 19:17

      Pablo, o ridículo é a pessoa exercer a condição de filósofo e não dizer que é filósofo. Agora, o fato de você fazer caridade para mim, é estranho. As pessoas comentam meus textos, e muito, mas não aqui. Pois eu as recebo diretamente em e-mail, msn e na rede social e pela TV. Você não é contestador, está longe disso. Apenas repete jargões.
      Paulo

  2. 27/04/2009 17:19

    Já percebi logo quem é: um derrotado com raiva de si mesmo. Adeus!

  3. ivanetesilveira permalink
    03/05/2009 20:57

    Paulo,
    parece que muito poucos percebem a distância entre criticar, contestar e simplesmente falar mal. Assim como a distância entre opinar e vomitar. Mas o que esperar de um jovem de 23 anos que provavelmente fez sua formação básica em escola brasileira, aliás, tão bem descrita em seu artigo? Acho que a rebeldia tem uma chance de tornar-se útil quando bem orientada. E nossas escolas estão a anos luz do entendimento dessa prática. Há de tudo em nossas salas de aula. Segundo professores da educação básica, há vagabundos, rebeldes sem causa (reminiscências da ditadura), marginais, e tem aqueles que o rótulo depende do poder aquisitivo: os pobres são indisciplinados e os ricos hiperativos. Mas isso é papo pra outra hora.
    Ah, admiro-o por se respeitar como filósofo. Afinal, filósofo não é quem tem curso de filosofia, ou decorou uma ou duas citações de Sócrates ou Nietzsche, mas aquele que tem atitude filosófica e assina o que pensa.

    Ivanete.

    • 03/05/2009 23:37

      Jovem de 23 anos? Que isso! Com 23 anos eu estava casado, sustentando família e já tinha no mínimo 6 anos no lombo como professor. Jovem? Jovem eu sou agora.
      Paulo

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