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Ensino e vestibular: contra o rico ninguém pode

26/04/2009

Colombo

Alguns burocratas da pró-reitoria de graduação da USP estão exultantes. Qual a razão? Segundo eles mesmos, o objetivo que tinham era o de “democratizar a USP” que, também segundo eles mesmos, seria “elitizada”. Agora, como dizem, estão contentes porque a USP finalmente aderiu ao sistema de cotas para o exame vestibular; no caso, a chamada cota social: 50% das vagas da USP devem ficar para os alunos provindos da escola pública.

Não posso ficar feliz com isso. Pois apesar da aparente boa intenção desses professores burocratas (alguns deles não passaram no vestibular da USP), sua idéia sobre o assunto é equivocada. Trata-se de um equívoco que também percorre os corredores de secretarias de educação, gabinetes de reitorias por aí afora e vai acabar batendo no MEC e no Congresso. E essas instâncias, todas elas muito afeitas ao populismo barato, tenderão a errar segundo o mesmo erro da pró-reitoria atual da USP.

Caso a intenção não seja a de mero populismo, e que realmente seja um erro de avaliação e não um engodo proposital, então qual é o erro? Simples: acreditar que a Universidade tem o poder de forçar a melhoria da escola pública por meio de exames. Não tem. Nem de forma direta e nem de forma indireta. Talvez no passado isso pudesse acontecer. Agora, na situação em que a escola pública se encontra, esse tipo de ação vai antes prejudicar os cursos universitários que ser uma cunha para a melhoria da escola pública básica.

A escola pública está aquém de conseguir se recuperar a partir desse mecanismo. Deveríamos ter pensado nele quando a parte menos pobre de nossa classe média ainda estava na escola pública. Isso iria incentivá-la a ficar e, então, tal postura poderia manter nossas elites governantes – que possuem vários elementos vindos da classe média – com os olhos abertos para o ensino estatal. Mas, agora é tarde. Ao menos para esse tipo de ação isolada, é tarde.

As estatísticas iniciais, feitas por grupos privados, começam a chegar às nossas mãos. De fato, por conta do vestibular da FUVEST aproveitar três pontos da prova do ENEM, já estávamos constatando uma sensível aparente migração de alunos de melhor renda para a escola pública. E isso agora tende a aumentar decisivamente: todos vão procurar se beneficiar das cotas. E qual é a estratégia dos ricos? Voltar para a escola pública em termos de ocupar uma posição na sala, passar ali com facilidade, dado que a escola pública não oferece qualquer resistência, e continuar a estudar nos cursinhos pré-vestibulares particulares. Os cursinhos já perceberam isso claramente, e estão começando a se preparar para receber mais alunos nas salas avulsas, aquelas que não são salas de colégio. Assim, voltamos ao processo de seleção de sempre: os mais ricos, os que puderem pagar o cursinho, vão disputar todas as vagas.

Ou seja, em termos de política educacional, essa volta da classe média menos pobre para a escola pública não necessariamente significará, no curto prazo ou mesmo em uma situação de médio prazo, o despertar de uma atenção das elites governantes para a escola pública. Talvez a medida contida no projeto do senador Cristóvam Buarque, ao menos como idéia, seja bem melhor: que todo político seja obrigado a ter seu filho na escola pública. É uma idéia que nunca vingará no Congresso Nacional, mas, como idéia, ao menos tem o mérito de mostrar onde está o problema de fato. A medida da USP não mostra o problema, o escamoteia. Resolver? Jamais!

A política de cotas para minorias não é uma ação de política educacional. É uma ação para quebrar o preconceito; trata-se de uma ação social para diminuir o pouco convívio, em determinados lugares, de grupos sociais diferentes. É necessário, sim, que em um país como o nosso o filho do branco e o filho de negro convivam nos mesmos locais. Nisso, ela está correta. Agora, a política de cotas da USP, no caso, é sim uma forma de política educacional. Seu objetivo é mexer com a USP por dentro e fazer a USP, de fora, possa mexer com a escola pública. Nos dois sentidos, a ação será nefasta. A USP vai ter de abaixar seu nível de ensino que, aliás, já tem capengado por conta de greves e por conta de concursos pouco sérios. E quanto à ação da USP sobre a escola pública básica, ela será anulada facilmente pela capacidade de mobilidade dos ricos.

O resultado final será este: a USP ficará uma porcaria, e então as elites, que quiserem estudar, irão todas de uma vez para o Mackenzie e PUC (no caso de São Paulo), e logo estarão indo para outras faculdades e universidades privadas e, uma vez lá, obrigarão tais escolas a se tornarem melhores. A escola pública de ensino básico passará por um momento em que acolherá uma parcela de alunos menos pobres, mas esses alunos não causarão o movimento desejado, que seria o de fazer seus pais, com capacidade de reivindicação, gritar em favor da escola pública. Pois, afinal, o prazo que devem ficar ali, para se garantirem no vestibular com a cota, é muito pouco (basta freqüentar o ensino médio). Não é o suficiente para que seus pais venham a se preocupar com a escola do filho. Não haverá o movimento de atenção social dos mais ricos para com a escola pública, como se poderia esperar.

É triste dizer, mas tenho de dizer: as pessoas que inventam medidas de política educacional na pró-reitoria da USP não entendem de educação. É incrível que elas não tenham conseguido perceber isso. De fato, a ciência da educação, no Brasil, precisa de melhores olhos. Precisam de olhos de bom senso.

Uma medida como esta, da USP, jamais poderia ser uma medida isolada. Para ter alguma eficácia, ela teria de vir por meio de uma ação articulada da Universidade com a secretaria de Educação do Estado de São Paulo. A USP teria de condicionar o seu vestibular a uma ação prática do governo de São Paulo de melhoria real dos salários dos professores da escola pública básica, e não esta política de bônus e mérito que, na verdade, não é o mérito para o melhor professor. Além disso, tal medida da USP deveria estar agendada com uma postura do governo estadual no sentido de garantir a fixação de cada professor na escola básica em que leciona. E mais, o governo estadual deveria garantir a ampliação do direito de crítica dos professores às suas autoridades. E por fim: uma política clara no sentido de criar condições para que o professor tenha regimes sabáticos, para que ele volte a estudar. Neste último caso, a USP deveria ter cursos de mestrado específicos, para acolher tal professor em suas sabáticas, no assunto em que ele gostaria de se aperfeiçoar. Uma vez com o título de mestre nas mãos, esse professor deveria ter incentivos financeiros claros e decisivos no sentido de fazê-lo não sair da escola básica que leciona.

Essas são umas poucas medidas – mas necessárias – que poderiam ser assumidas por conta de um plano articulado entre o governo do Estado e a USP. Aí sim, a conversa seria séria. Mas, infelizmente, cada um desses setores olha para o próprio umbigo, não para as necessidades reais de nossa educação. A pró-reitoria da USP faz política, não política educacional, e a secretaria de Estado do Governo de São Paulo, é claro, vai no mesmo rumo, e no caso, nem quer saber do que ocorre com a USP.

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo

http://ghiraldelli.ning.com e http://ghiraldelli.org

http://mogulus.com/filosofia e https://ghiraldelli.wordpress.com

http://ghiraldelli.blogspot.com

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