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O destino de Maísa

31/05/2009

Nem todos que usam expressões do tipo “vivemos em um terrível mundo globalizado” e “somos vítimas do neoliberalismo” são burros. Mas eu não conheci até agora nenhuma pessoa com idéias interessantes e que, ao mesmo tempo, utiliza desses jargões. Por isso mesmo, sobre o assunto “Maísa, infância e filosofia”, eu prefiro não comentar o que dizem aqueles que olham para a TV e imaginam que há lá os que “estão manipulando Maísa” e, com isso, “passando ideologias (capitalistas (!)) para a população”. Creio que os meninos do Ensino Médio que, hoje, possuem Sociologia no currículo, agüentam escutar algo assim de algum professor – sei que há professores que ainda falam assim! Esse tipo de conversa, nem mesmo entre os anos 80 e 90, dava para suportar. Agora, então, que “globalização” e “neoliberalismo” são palavras que, quando usadas, já podemos sair de perto porque o resto do discurso não será aproveitável, menos ainda temos o que fazer com aqueles que fazem com do “caso Maísa” a oportunidade para uso da sociologia ruim.

Para estes, a melhor resposta é a que Tony Ramos deu aos que cobraram das novelas “mais realidade”, ou seja, aqueles tolos que disseram a ele que “a Globo não apresenta a verdadeira Índia”. Para estes, Tony Ramos respondeu mais ou menos assim: “vou contar um alto segredo da Globo e de todas as TVs para vocês, um segredo que eu não podia contar: olha, o que a gente faz na TV, é de mentirinha, a gente está representando, ta?!”  Eu traduzo Tony Ramos para os que não conhecem a língua dele: não cobrem “realidade” da TV, entendam que se ela quiser fazer a ficção virar realidade, ela não irá atrair ninguém. Há ficção e ficção, umas ruins e outras boas. Mas, na TV, em tudo, e não só nas novelas, o que há são papéis. Mesmo no telejornal, há papéis. A TV é toda ela um teatro. Quem entra para trabalhar ali, criança ou não, sabe disso. Ou fica sabendo logo, no segundo ou terceiro dia.

Dito isso, e assim afastando do texto os de cabeça de bagre, vamos ao que interessa.

Da ótica da filosofia, o caso Maísa pode bem ser lido a partir do que falei no texto “Os fundamentos da filosofia da educação de Gepeto” (Rorty & Ghiraldelli. Ensaios Pragmatistas. Rio de Janeiro: DPA, 2007). Há duas concepções de infância engravidando nossa cultura moderna, aquela que nos faz ver as crianças por meio de óculos românticos, os óculos de Jean-Jacques Rousseau, e aquela que nos faz ver as crianças por meio de óculos iluministas, aqueles dados por John Locke ou René Descartes. Colocando isso de uma maneira popular, trata-se do seguinte: olhamos para as crianças e não as vemos, pois as enxergamos por meio de conceitos já postos acriticamente em nossa mentalidade. Vemos ou um “anjinho puro”, que precisa ser preservado da “sociedade maligna”, de uma maneira romântica (na esteira de Rousseau), ou um diabinho, que precisa “criar juízo” e ser “disciplinado”, caso contrário irá destruir a nós e, depois, toda a sociedade (na esteira do iluminismo de Locke, e também de Descartes).

Pois bem, a juíza que proibiu a Maísa de se apresentar na TV quer retirar a Maísa não do programa do Sílvio Santos, mas da sociedade. Ela quer esperar a sociedade melhorar e, então, devolvê-la um dia para tal,  e então, sem traumas, a garota poderá recomeçar. Infelizmente, a juíza não foi avisada que o relógio não pára. Bom, depois de uns dias foram avisar a juíza que há o relógio, o tempo etc. Então, a juíza disse: “toda criança deve ter um anjo da guarda”. E ela quer um anjo da guarda com diploma de psicólogo, para salvar a garota do endiabrado Sílvio Santos e de todo o terrível “sistema” (“sistema capitalista” ou Sistema Brasileiro de TV, que para a cabecinha desse tipo de gente é a mesma coisa). A juíza não sabe que os psicólogos não são anjos da guarda e, talvez, nem mesmo os melhores profissionais para atuar no caso. Aliás, um bom psicólogo iria confessar isso, que Maísa não precisa de psicólogo. Só um psicólogo procurando emprego ou muito corporativista iria falar que ela tem de ter psicólogo.  Um bom psicólogo iria dizer que Maísa precisa é ser é instruída, educada etc.

Por outro lado, há os que simplesmente acham que Maísa, como qualquer outra criança, deve “se enquadrar” no serviço. Há um bocado de crianças pobres no trabalho. E o pior, há um bocado de crianças pobres que, por causa da lei que as proíbe trabalhar, acabam “trabalhando” no tráfico e coisas do gênero. Então, se a “realidade” é esta, Maísa que se adapte ao ser serviço, já que é um bom serviço – quem não quer “aparecer na TV”? Assim pensam os que, transformando em coisa tacanha o que seria um iluminismo já maltrapilho, adotam uma postura conservadora para avaliar o caso.

Ora, não temos que engolir os restos de Rousseau ou de Locke (Descartes). Podemos muito bem agir pragmaticamente. Podemos escapar do iluminismo e do romantismo que, no caso, já não atuam mais como filosofias, e sim como ideologias.

Podemos ir até Maísa e ver que ela quer estar na TV. Quer ser atriz ou coisa parecida. Isso não é legítimo? Você vai até uma criança e pergunta o que ela quer fazer, o que quer fazer naquele momento, para o futuro, e ela diz: quero ser jogador de futebol. O pai então coloca o garoto num clube, na escolinha de um clube. Isso não é legítimo? Ou o garoto pobre, que não tem esse pai, vai para a rua e tenta imitar os craques. Isso não é legítimo? Essas crianças não sabem o que querem? Ora, elas sabem sim. Pode ser que essa vontade passe, que elas mudem de desejo e de projeto. Pode ser que elas não consigam ser o que querem ser, mesmo a vontade não passando e tendo se dedicado ao projeto escolhido. Mas não podemos dizer para as crianças que elas são crianças e, enfim, ao desejarem ser algo no futuro, o que disseram “não vale”, que elas “não sabem o que querem”. O melhor que podemos fazer é instruí-las para poderem ser o que querem ser de uma maneira ótima, e também devemos prepará-las para serem mais coisas, para diminuir a frustração caso não consigam seguir o que querem seguir, ou então para poderem fazer bem outras coisas, caso mudem de opinião. Então, no caso que estamos discutindo, para um pragmatista que usa da filosofia a partir dos problemas e não dos conceitos a questão toda é a da preparação da Maísa para ser … gente!

Isso envolve não só o SBT, mas também o SBT. Agora, é claro, envolve os pais e a escola. E a escola, aliás, está envolvida não só pela Maísa. A escola tem de mostrar caminhos para todas as outras crianças que não estão tendo o trabalho da Maísa. Podem, inclusive, usar da Maísa para discutir a questão: qual a vocação de cada um na sala da Maísa e como que a escola pode ajudá-los a realizar suas vocações. Isso sim ajudaria bem a Maísa e todas as outras crianças.

Não vejo a juíza do caso e os psicólogos gritões envolvidos nisso realmente, com seriedade. Eu os vejo apenas como gritões – fazem pantomima e criam caso. E isso não ajuda em nada a Maísa, não melhora a condição da criança brasileira em geral. Não orienta a sociedade para formar melhor nossos jovens.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.

http://ghiraldelli.ning.com

http://ghiraldelli.org

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