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Anjos na escola pública brasileira

04/06/2009

Os anjos não têm corpos. Eles são como espectros. Mostram-se por imagens, mas não possuem corpos reais, sensíveis e sentimentais. No entanto, eles possuem algo de espiritual e, enfim, de intelectual – pois entendem bem os recados dos Céus e os transmitem aos homens. Os anjos, assim descritos, são os melhores exemplos daquilo que os ministros da Educação – inclusive o atual, Fernando Haddad – e, não raro, a maioria dos teóricos da educação de nossa sociedade consideram como sendo o aluno de nossas escolas.

Autoridades educacionais e pedagogos que escrevem sobre didática – os piagetianos e vigobrazil children 4tskinianos de plantão – estão todos convencidos que tudo que temos na escola são esses anjos aí. Não sei como, mas eles todos conseguiram despir as nossas crianças dos seus corpos. Creio que por conta do passado religioso de nossa educação, certo ascetismo tornou-se a base da mentalidade desses pedagogos que escrevem sobre didática (e até mesmo sobre outros assuntos pedagógicos). O corpo nunca é admitido em nenhum de seus discursos. No máximo, o corpo aparece como imagem, igual a dos anjos, e então é rapidamente transformado em algo que, enfim, pode se apresentar na aula de educação física – é o lugar em que ele é trocado pela performance, e então, o corpo real logo desaparece.

Nossos secretários de educação, pedagogos e ministros tem um pavor intenso e imenso do corpo. Eles desconhecem ou, talvez, queiram desconhecer, que cada professora, por menos de 800 reais (em alguns lugares, menos de 500 reais), não lida com uma caixinha com um cérebro dentro. O que a professora faz é diferente. Eis o que ela faz: ela limpa o traseiro de seus alunos (às vezes, mais de 50 em uma sala), assua o nariz deles, enxuga o suor deles, cuida de machucados e quebraduras nem sempre feitos na escola, toma a temperatura deles para ver febre, escuta pulmões, tira piolhos, escova dentes da criançada. Em alguns lugares, examina partes sexuais por conta de abusos e outras coisas do tipo ou, mesmo, por conta de coceiras e até DSTs avançadas. Isso é o que o educador faz. Ele ou ela não tem em sala de aula nenhum daqueles anjos sem corpos que gente do tipo do pessoal que escreve sobre educação imagina estar na escola.

Ora, enquanto nossas autoridades não admitirem, no âmbito da discussão pedagógica, que o que se paga para o professor para que ele lide com corpos, e não com anjos – até porque anjos não vão para a escola (que eu saiba) –, é realmente uma miséria, não há o que conversar. Não há o que falar sobre educação.

O que estou dizendo é que não vamos resolver os problemas das mazelas educacionais brasileiras – e elas não são poucas – através de exigências de brinquedotecas em cursos de pedagogia, como quer o Lula agora. Esse novo “pacote da educação”, assinado pelo Lula neste início de junho, por conta de mais invenções de Fernando Haddad e sua equipe (ele tem equipe?), pouco ajuda a formação do professor no Brasil. Talvez apenas encareça a mensalidade dos cursos de pedagogia, pois as novas exigências em cima dos cursos de pedagogia estão antes dirigidas para o aparelhamento material e burocrático do que para medidas para transformá-los em cursos mais formativos.

A verdadeira discussão que é necessária, é que a que comece mostrando que a atividade pedagógica do professor não é uma atividade que lide com a “psiquê” do aluno ou com o seu “intelecto”. Os alunos estão inteiros, eles aparecem para as professoras do ensino fundamental completos. É uma loucura acreditar que o corpo é contemplado uma vez que há a aula de educação física. O corpo de que eu falo não é comparável a uma vestimenta para o esporte. Não, o corpo com tudo isso que disse acima, é o próprio aluno. E o que se paga para as professoras lidarem com essas crianças inteiras – sendo não só professoras, mas mães, enfermeiras, pajens, irmãs, coleguinhas e amigas – é muito pouco. Valorizar o magistério não é algo que se possa fazer a partir da idéia de que professor é formado bem quando entendeu Piaget ou leu algo de Marx ou sabe o que é aquela palavra que o Fernando Haddad gosta tanto, “letramento”. Não! Professor é formado para fazer uma coisa, e faz bem outra, e não pode não fazer essa outra, pois, como já disse, a criança vem inteira para a sala de aula. Ainda mais agora, com nove anos de ensino obrigatório, a professora é efetivamente alguém que lida com corpos, com crianças pequenas que, mais ainda que outras trazem seus corpos para a escola como prioridade.

Eu gostaria de ver um desses autores de livros de didática, que escrevem a partir de escrivaninhas universitárias, ou então o Fernando Haddad ou o Paulo Renato, limpando uma criança no banheiro da escola. Será que se eles fossem convocados para fazer isso durante três dias seguidos, uma vez ao ano, eles não mudariam de opinião sobre o que é “resolver problemas educacionais”? Penso que podíamos fazer o mesmo com os autores universitários da área de educação, principalmente os doutores da didática. Talvez eles mudassem um pouco. Será que não deixariam de lado essa didática de padre, que eles insistem em oferecer para o Brasil, que antes se atém em doutrinas, técnicas e aparelhos, e nunca olha para a criança real e para o salário real do professor?

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.

ocorpo

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One Comment leave one →
  1. 05/06/2009 13:03

    Está na hora deles perceberem que para lidar com a criança inteira, é necessário pagar o professor bem. É isso!
    Paulo

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