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Da greve da USP ao gasto de tempo com “bronca na sala de aula”

17/06/2009

Selma Garrido Pimenta, fora de lugar na USPEscutei uma voz conservadora dizendo que a notícia de que o Brasil é o país que gasta mais tempo com “bronca em sala de aula” (JC Online) explica a greve na USP. A idéia é simples: nossos alunos são indisciplinados, os professores não conseguem corrigi-los, uma vez que são mal pagos e mal preparados, e então, chegando à Universidade, esses alunos gastam mais tempo participando de greves e manifestações – fazendo “arruaças” contra a polícia – do que com o estudo sério.

Alguns podem achar essa formulação tola. Todavia, é persuasiva em relação a muitas pessoas. Primeiro, porque diz duas verdades. Segundo, porque uma das verdades aparece de uma maneira crítica, uma vez que mostra o que a notícia do jornal não enfatizou.

De fato, o jornal que publicou a pesquisa da OCDE, dizendo que os professores brasileiros gastam muito tempo “dando bronca” (se comparados com outros países no trabalho de disciplinar a classe para, então começar a ensinar) não dá a devida importância para outro dado da pesquisa. O professor brasileiro é, entre todos os países pesquisados, ricos e pobres, o que apresenta maior índice de insatisfação no emprego. As condições são ruins, o salário é péssimo, a possibilidade de argumentar com as autoridades é quase zero e, enfim, a carreira do magistério não premia ninguém pela vida intelectual. Isso tudo, que aparece na pesquisa, não é enfatizado na notícia jornalística. Então, quando a opinião conservadora acima faz ressaltar tais elementos, ela ocupa o lugar da verdade progressista, se qualifica como uma posição crítica. Em seguida, emite uma opinião menos válida, mas ainda assim, não de toda inverídica, sobre os alunos uspianos. Após essa manobra, se sente autorizada em cometer um erro de lógica: liga a indisciplina do aluno pré-universitário com a “algazarra uspiana” que se repete a cada ano.

O erro conservador é um erro lógico. Uma verdade ligada a outra (quase) verdade, do modo como são ligadas acima, por uma implicação lógica, não se sustenta. Pode até ter um pouco a ver uma coisa com outra, mas a segunda idéia não é a conseqüência da primeira, do modo como aparece na boca do conservador.

Independentemente do aluno uspiano, que se imagina de esquerda e que vai babando assistir a professora Marilena Chauí dizer que eles estão lá para “defender a democracia”, o que há de concreto na greve uspiana deve ser tratado separadamente do que há de concreto no “tempo gasto com bronca” no ensino médio.

O caso da USP tem alguns elementos chaves, que não podem ser jogados no lixo se quisermos entender o que se passa ali.

Vejamos o caso de perto. A reitora Suely e sua escudeira, pró-reitora, Selma Garrido, nunca poderiam ter feito o que fizeram. Quiseram democratizar a USP por meio do autoritarismo. E isso não funciona. A democracia atrai a democracia, quando bem praticada. O autoritarismo apenas atrai mais autoritarismo. É o que ocorreu. O projeto de democratização do acesso à USP, levado adiante por Garrido, e que inclui cotas para estudantes das escolas públicas e criação do ensino a distância, tem um fundo de aparente boa intenção, mas ele é um projeto movido pelo ressentimento, não por uma motivação positiva. Ele soa como uma forma de ganhar a reação de não uspianos, que não passaram no vestibular da USP, para a causa da democratização. E como projeto de ressentimento ou de conquista da parcela ressentida da população, ele é um projeto fadado ao desfecho amargo que está tendo. Amargura trouxe amargura.

A democratização da USP não deve ser feita por projetos intramuros da USP. Deve ser feita por um projeto da sociedade como um todo, em comum acordo com vários setores sociais, articulado com a modificação da escola pública básica. A idéia de que medidas internas, de uma reitoria de uma universidade (ainda que seja a USP), podem democratizar o ensino, é completamente descabelada. É necessário nunca ter lido nada de educação, de modo competente, para se ter uma idéia como essa. Cota para aluno que freqüenta a escola pública, do modo como esta escola está hoje, não tem qualquer sentido como medida de democratização do acesso à USP, muito menos como medida de melhoria da USP ou mesmo de melhoria da própria escola pública. Trata-se de uma medida que lembra o ressentimento fomentado pelos discursos do Maluf e outros, no passado, quando contavam o número de carros dentro do pátio da USP para, então, afirmar que ali “só há ricos”. Garrido e Suely agiram assim, nos moldes do pensamento do Maluf.

Os estudantes em greve, por sua vez, desconfiam que o mesmo sentimento que criou as cotas, também está na base da criação do ensino a distância da USP. Na USP falta tudo, e antes disso ser resolvido minimamente, a reitoria inventa de ampliar os serviços para fora dos muros, com o ensino a distância. Qualquer tonto que possa somar dois mais dois já sabe que, se falta dinheiro para realizar o que já se faz corriqueiramente, então a proposta de ampliar serviços irá produzir serviços oferecidos sucateados. E isso, no caso do ensino a distância, é um perigo. Imagine o diploma da USP sendo entregue por um serviço a distância sem qualificação? Um dos poucos diplomas ainda confiáveis que temos, iria por água abaixo rapidamente. Além disso, qual o sentido de oferecer um serviço ruim para a população? Isso é pior que populismo, é maldade.

Ensino a distância é algo mutável demais. A tecnologia muda muito, a USP muda pouco, são duas realidades não casáveis – ao menos no momento. Ensino a distância serve para treinamento, não para educação e vivência universitária. O ensino a distância é ótimo, sou um praticante dele, mas jamais aconselharia aos meus filhos trocarem a possibilidade de fazer a universidade, tendo vida universitária, pelo ensino a distância. E o que não recomendamos aos nossos filhos, não deveríamos recomendar aos filhos dos outros. Ver o ensino a distância uspiano como uma ajuda aos pobres, é um erro crasso. Uma boa ajuda aos pobres seria ter uma política de valorização da escola pública de ensino básico. Caso seja este o objetivo de Garrido e Suely, então elas estão no lugar errado. Elas deveriam trabalhar na secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Aliás, no caso de Garrido, ela foi convidada para tal, pois Guiomar Namo de Melo a queria como secretária particular. Ora, ele deveria ter aceitado o cargo. Ali sim, ela poderia tentar fazer pequenos projetos de melhoria da escola básica estadual. Mas ela pegou um caminho errado. Uma vez que fez o caminho de batalha política para chegar à pró-reitoria da USP, ele precisaria perceber que, ali na USP, o serviço dela é outro. Ela ainda age como quem não saiu da PUC, onde foi aluna e professora. Na PUC sim, cabia a existência de projetos assistencialistas. Afinal, a PUC é uma instituição da Igreja. Seu papel assistencialista é legítimo. A USP não. A USP é pública, como universidade. Seu papel é o de oferecer o melhor serviço público de educação.

Talvez a crítica da professora Marilena Chauí (JC Online) contra o projeto de ensino a distância de Suely-Garrido seja movido pelo reacionarismo diante da tecnologia. Afinal, sabemos quanto alguns professores velhos, no Brasil, especialmente quando são professores de filosofia, não conseguem acompanhar seus pares do exterior no trato com a tecnologia. Um professor de filosofia de 90 anos, nos Estados Unidos, lida bem com seu computador. Um professor de 45 anos ou até menos, no Brasil, na área da filosofia, não raro tem uma dificuldade imensa em responder um e-mail. Sua desculpa é que a tecnologia é perversa (eles lêem a Escola de Frankfurt e só pegam nela o que é reacionário!). Talvez Chauí fale sem conhecimento de causa, contra o ensino a distância. Tudo bem! Todavia, no caso aqui, ela atira no que vê e acerta no que não vê. Pois, no caso da USP, a montagem de um aparato para ensino a distância seria uma loucura: tudo ficaria obsoleto em poucos meses. Uma universidade como a USP não tem condições de ser tão dinâmica diante da exigência da mutabilidade dos meios do ensino a distância hoje em dia. Só quem não conhece a USP e quem não conhece ensino a distância pensaria o contrário.

Bem, dito isso, vamos agora voltar ao assunto correlacionado aqui pelo conservador, o da indisciplina.

A falta de disciplina do aluno do ensino médio não é um problema. Talvez, no caso, seja uma solução. Se ele não se concentra, é porque está insatisfeito e não é passivo. O triste seria vê-lo insatisfeito e calado, morto. Bom, se ele tem energia, não seria interessante tentar ganhá-lo para uma atividade que envolvesse a melhoria do ensino público? Ora, no ensino médio ele não possui liberdade para a ação do aluno universitário. Então, seu protesto é mais facilmente visto como “baderna” individual – e de fato, não raro, é mesmo. Todavia, se pudermos convencer alguns professores e alguns alunos que essa energia pode ser construtiva, de modo a querer transformar a escola pública média, de uma maneira quase semelhante ao que os estudantes universitários querem fazer ao pressionarem a reitoria da Suely e da Selma Garrido, então pode-se pensar em bons frutos no futuro.

Será que não está na hora de começarmos a montar projetos de atuação dos alunos do ensino médio, para que eles canalizem suas energias não de uma maneira a ganhar “broncas”, mas a ganhar cidadania? Afinal, quem tem tanta energia em sala de aula, não pode ter essa energia solicitada para um projeto revolucionário, capaz de fazer a própria escola média ser um local capaz de dar aos professores um bom salário e a eles, alunos, um bom ensino?

Vejam: mesmo com argumentos nem sempre corretos, a professora Marilena Chauí pode conseguir ser ouvida pelos alunos grevistas. Não poderiam alguns bons professores do ensino médio fazer um trabalho desse tipo, até melhor, mais sincero (isto é, com argumentos corretos), em relação aos alunos do ensino médio? Não há chance da escola pública, de nível médio, contar com a energia de seus alunos, para sua própria reformulação? Esse tema é que deveria ser desenvolvido pela pedagogia: o de como trazer a energia do aluno que “ganha bronca” para um campo em que ele pudesse fazer aquilo que Suely-Garrido querem fazer, que é a melhoria da escola pública de nível médio. Elas estão no lugar errado. Mas os alunos da escola média, tendo esse objetivo, estariam no lugar certo. Além disso, eles poderiam levar adiante isso sem o sentimento de ressentimento – e isso faz diferença.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.

http://ghiraldelli.ning.com

http://ghiraldelli.org

3 Comentários leave one →
  1. 18/06/2009 8:28

    Prof. Ghiraldelli, seu texto como sempre está ótimo. Quando você fala que os professores são mal pagos, preferia que aprofundasse a questão. Sabemos a realidade não é tão simples como repetir o senso coumum. Sabemos que existe uma faixa de professores de ensino fundamental e médio que ganham acima do mercado e do funcionalismo público, se comparados pelo nível de formação (ver, por exemplo, os trabalhos de Nelson Marconi). Se isto é problemático, mais ainda o é saber que a outra faixa de professores, estes bem qualificados, comparativamente ganha muito abaixo do mercado. Aliás, esta é uma característica que pode ser generalizada para todo o funcionalismo público. Pagamos bem os mal preparados. E pagamos muito mal os bem qualificados.

  2. gizelidacruz permalink
    26/06/2009 11:03

    Oi Prof.Paulo, faz tempo, né. Pois é estava lendo o texto acima sobre a greve na USP. Curioso foi que aqui no Rio de Janeiro os motivos da greve não foram bem explicados pelos meios de comunicação e a questão dos “alunos arruaceiros que não querem nada” foi amplamente divulgada tanto na mídia impressa como televisionada. A USP, pelo que me lembro de algumas experiências, sempre foi marcada por ser uma universidade conservadora e reacionária ao extremo. Me lembro de longas discussões que tinha com colegas de lá sobre questões sociais. As cotas não são um tema só da USP, aqui no Rio, aos trancos e barrancos avançamos muito no tema, iniciamos um trabalho de Educação a Distância via o consórcio CEDERJ, mas acima de tudo, as universiddes daqui começaram um processo de interiorização ampliando seus campus de pensando formas de acesso ao conhecimento mesmo antes do estudante sair do ensino básico. A UFRJ, por exemplo, apesar de ser uma instituição tradicional adotou algumas iniciativas iniciadas por outras instituições como a UNIRIO que há muito já adotava o ENEM como parte de seu processo seletivo, criou através da Extensão atividades de inserção da Universidade nos temas da Sociedade como habitação, segurança e acesso a exemplo da UFF, da UERJ e da PUC-RJ. Penso que as universidades de São Paulo também deveriam se integrar, trocar experiências e extrapolar seus muros indo à Sociedade muito antes dos alunos optarem por participar de suas escolas. Ainda há pontos obscuros sobre o que tem provocado as recentes mobilizações na USP. E antes de mais nada, a classe docente não é tratada de modo homogêneo, as políticas não são universais, bem como os diretos e, para além da velha história há um abismo colossal entre o ensino básico e o ensino superior que já fora apontado no passado, mas ainda insistimos em não colocar o dedo na ferida. Isto já dá um análise contextualizada bem interessante, não acha?

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