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O Pesquisionismo Dominante: o governo o produz, a imprensa o engole e o reproduz

19/06/2009

Haddad em busca de números

O Brasil descobriu a pesquisa. Infelizmente, não é research, mas survey. E o pior, em alguns casos o resultado vem da universidade, sob encomenda do governo, com cara de research, mas é survey. Em outras palavras: não fazemos mais investigação criteriosa, mas enquetes, e as apresentamos como pesquisa. E o pior ainda: os jornais estampam em suas manchetes o “resultado” do trabalho e, assim, eis que a cara do Brasil é desenhada como o que está na manchete. Na verdade, não é cara, é caricatura.

A mais recente pesquisa encomendada pelo MEC a um professor de contabilidade da USP é colocada no Estadão da seguinte forma: “Escola e dominada por preconceitos”. (Aqui). Pronto, surge uma verdade, aparece um rosto para a escola brasileira. A escola agora não é só fraca, é o berço do preconceito. E com isso, com tal dogmatismo e falta completa de reflexão, os números secos, elaborados a partir da pretensa exatidão e objetividade da matemática (uma matemática pobre, na maioria das vezes), a denúncia do preconceito se põe a serviço da produção de mais preconceito. Agora, os que se acham sem preconceitos, vão se afastar da escola: “nossa, lá é lugar do preconceito!” – assim reagirá uma parte da elite. Outra parte da população, ela própria na escola, irá dizer: “nossa, eu nem percebia que estava vivendo num lugar tão horrível”. E uma terceira dirá: “ah, eu bem que sabia, lá na minha sala de aula, fora eu, todo mundo é preconceituoso”.

O terrível nisso é a interpretação do pesquisador, o professor-contador José Afonso Mazzon: “A pesquisa mostra que o preconceito não é isolado. A sociedade é preconceituosa, logo a escola também será. Esses preconceitos são tão amplos e profundos que quase caracterizam a nossa cultura”. (Aqui). Ele foi pago (estou pasmo!) para fazer um serviço e concluiu isso aí! Ora, para dizer algo assim, alguém deveria ser pago?

Assim, as enquetes pagas a preço de ouro pelo MEC ou dizem banalidades, no melhor do casos, ou então geram a meia verdade, quase a mentira, e tem como fruto, na população e a partir da imprensa, a própria mentira.

Anísio Teixeira construiu o INEP para que este órgão pudesse, entre outras coisas, fazer pesquisa educacional em termos quantitativos. Era pesquisa mesmo, não mera enquete. Mas, em geral, o que se faz agora é a enquete, a quantificação de dados a partir de perguntas que induzem aquele que responde a responder o que o pesquisador quer ouvir. O governo está ansioso por ouvir que suas ações para salvar “pobres, negros, índios, pardos, deficientes e homossexuais” precisam de investimento – e eis que a pesquisa revela exatamente o que o governo quer escutar: que a escola é o lugar do preconceito contra tais grupos. Não é fantástico?

Há dois problemas com a pesquisa de tipo survey. Primeiro: ela é feita a partir de perguntas que, não raro, induzem um tipo de resposta. Quem já foi entrevistado por tais “pesquisadores” desses organismos governamentais, ou por grupos vindos da universidade para tal serviço, sabe bem do que estou falando, e não vai me desmentir. Portanto, uma enquete não pode abrir mão da monografia histórica a respeito do local onde se colhem os dados da entrevista. O bom historiador e o bom filósofo sabem que o contador ou o economista raramente conseguem imaginar que uma monografia sócio-histórica do local às vezes desmente de modo completo uma enquete, e quase sempre a corrigem. Mas a coisa feita na base da survey, como os governos fazem ou encomendam, nunca usa tal metodologia integrada. Uma vez sugeri isso ao ministro Fernando Haddad, para o PDE, e nem resposta obtive. Ele preferiu colher dados, preencher um formulário e, então, achou que tinha “a realidade na frente dos olhos”. Era mais fácil e mais rápido, pensou ele, além disso, o que ele precisava era da autoridade dos números, não da realidade.

O segundo problema da enquete ou survey é que, mesmo quando ela é rigorosa, mesmo quando todos os cuidados são tomados para que ela seja menos tendenciosa em suas perguntas, ainda assim ela não revela nenhuma verdade interpretativa, compreensiva da realidade. A enquete sempre dará números, e tais números, em formas de gráficos, não apontam nada a respeito de comportamentos reais. Por mais que você olhe uma pesquisa, e ela diga que há preconceito em um grupo X contra um grupo Y, isso não dá nenhuma chance de você concluir, do modo absoluto que aparece na imprensa, que haverá ações concretas do grupo X no sentido de dificultar a vida de pessoas do grupo Y. Também é difícil de aferir se está havendo problemas desse tipo gerados a partir de um grupo contra outro.  A monografia histórica, observacional, com visão filosófica crítica, que cabe mais à pesquisa research e não à pesquisa survey, pode trazer luz a um assunto. Por isso os americanos se viram maravilhados quando, ao lerem Max Weber, puderam perceber que aquilo que eles faziam, ainda que estivesse próximo do que Durkheim fazia, era deficiente. Os americanos evoluíram muito a partir daí, e hoje até mesmo as agências de propaganda americanas não confiam mais somente na survey. Essas agências, mesmo quando só querem apenas captar “tendências do mercado”, optaram por terem filósofos e historiadores entre elas, para corrigirem as distorções e mentiras survey, ou então para atuarem como consciência crítica da equipe de pesquisadores.

Depois da derrota de FHC diante de Jânio Quadros, nas eleições para a prefeitura de São Paulo em 1985, o sociólogo deveria ter aprendido sobre o perigo da survey. Mas, se aprendeu, não contou ao Paulo Renato. Pois foi na gestão do Paulo Renato, no MEC, que o pensamento do grupo do PTE (Pensamento Tecnocrático em Educação (confira: Filosofia e história da educação brasileira. São Paulo: Manole, 2009)) adotou a survey como sendo a pesquisa par excellence. Um jornalista da Veja, ligado a tal grupo, chegou a dizer que tal tipo de pesquisa era a realização do ideal platônico de saída da Caverna: sem números, estaríamos na ilusão, com números de enquetes, chegaríamos à verdade, ao real. Nunca vi tamanha tolice. E o MEC do PT comprou essa idéia do MEC de FHC. Qualquer número, sendo número, é um bom número. Afinal, se veio da FEA e foi feito por alguém com o título de contador, como que não haveria aí uma “conta” correta? Pensando assim, os funcionários do MEC não conseguem perceber que estão contabilizando sentimentos, não estão contabilizando cenouras. Todavia, sentimento, não se contabiliza, se descreve historicamente.

Assim, a cada dia, os jornais fazem mais uma quase mentira aparecer como a verdade sobre o Brasil, principalmente sobre a escola brasileira, induzidos pelo nosso governo. O MEC do PT aprendeu rápido com o MEC do PSDB a confiar no que não é confiável, contanto que diga as coisas em termos de números. Paulo Renato, economista, ensinou Haddad, advogado, a seguir a metodologia dos moços da Veja, que se baseia em dois erros: primeiro, números dizem a verdade sobre intenções e sentimentos; segundo, números devem ser lidos e interpretados, mas a interpretação final dos números já é mostrada pelo próprio elaborador da pesquisa. Não é possível que hoje em dia ainda se  cometa tais erros, mas eles cometem.

Não adianta quererem falar em “pesquisa qualitativa”, para colocar objeção no que digo. Não foi feita pesquisa nenhuma, nos casos que o MEC apresenta como pesquisa (neste que cito e em outros que não cito), o que foi feito foi enquete. Isso também é pesquisa, em certo sentido, mas é algo que é colhido por mão de obra barata a partir de um questionário – altamente questionável – que é fornecido ao entrevistado de um modo breve, “na correria”, e sem que o entrevistado possa refletir sobre o que lhe é perguntado.

Você pode saber quantos televisores existem em uma casa a partir da pesquisa de tipo survey, mas não conseguirá, salvo raros casos, apreender os sentimentos de alguém sobre temas polêmicos, sem uma pesquisa histórica. Quem leu Dilthey e Weber, e não só Durkhiem, sabe disso. Quem assistiu o filme Crash pode começar a perceber isso (o filme ganhou o Oscar há dois anos, e era preferido de Richard Rorty). A escola preconceituosa apontada pela pesquisa MEC-USP, caso os números nos falassem algo de verdadeiro, não sobreviveria. O índice de preconceito apontado é mais alto do que o indicado nos anos setenta, entre a população de regiões altamente racistas nos Estados Unidos – e o bairro negro, naquela época, ardia em chamas. O MEC pisou na bola, alguns grandes jornais o acompanharam.

Não estou aqui advogando o fim da survey. Não estou aqui advogando que não consultemos mais às estatísticas. O que denuncio é que o “pesquisionismo” da gestão de Paulo Renato contaminou a de Fernando Haddad, e isso não é nada senão ideologia – e do tipo daquela que já caiu em desuso nos lugares em que nasceu e fez sucesso. Os Estados Unidos, berço desse tipo de ação, tem optado claramente, em todo tipo de perscrutação para entender a realidade, por pesquisas de caráter teórico, com fundo histórico. Monografias histórico-filosóficas sobre escolas nos dão o que está ocorrendo lá, números de enquete, desse modo aí, não dão.

Durkheim não está errado, mas está empobrecido no governo do PT. Além disso, um pouco de Weber, um pouco de historicismo e metodologia compreensiva, iria bem. Do modo como o governo do PT faz, qualquer garota que vende produtos Avon, ao querer ficar sabendo “qual a tendência do gosto das clientes”, os supera.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.

http://ghiraldelli.ning.com

http://ghiraldelli.org

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