Skip to content

A nudez revolucionária de Lídia Guevara

20/06/2009

foto_1

Os seios e o bumbum de Lidia Guevara não são de jogar fora. Nada que um photoshop não deixe no prumo. De roupas militares e com a clássica boina do avô, ela vai mostrar essas partes a partir de outubro, alinhavadas por um cinturão de balas de metralhadora. As balas são cenouras, mas não se trata de nenhum comercial de restaurante ou de maionese. Também não é uma nova forma de homenagear a Páscoa, uma vez que nessa data aparecem coelhos por todo lado. As poses da Guevara de 24 anos vão para uma causa social – o vegetarianismo militante.

A entidade PETA, que faz o movimento dos “direitos dos animais”, é que está na organização da campanha. Assim, a figura Guevara poderá deixar de ser apenas uma fonte de cores para camisetas, biquínis e coisas do gênero e retornará aos quadros das causas sociais. Sim, eu sei! Não se trata do próprio Ernesto. Mas, enfim, é um Guevara.

Todos nós sabemos que seu avô, o médico argentino Ernesto, não possui foto 2nenhuma foto desabonadora. Ele sabia posar e sabia tirar fotos, de qualquer lado da câmera. Tinha um profundo senso de marketing. Não fazia suas fotos de modo aleatório. Ele realmente as criou imaginando que precisava de um símbolo para a guerrilha – e que símbolo melhor senão ele mesmo? Quando apareceu morto, todo perfurado, ainda assim manteve o marketing. Pode-se ver isso hoje, em uma viagem à Bolívia. Ali encontramos pessoas que tratam Ernesto como santo, e que chegam a erguer pequenos altares para ele. De fato, seu corpo judiado ficou similar à imagem popular de Jesus e outros martirizados. Ernesto foi péssimo ministro de Fidel, tirou zero em ética ao ordenar as execuções pós-revolucionárias e, enfim, errou feio na sua crença de que poderia derrotar a CIA duas vezes. Mas, numa coisa ele acertou: na sua imagem.

netaA verdade da imagem de Ernesto “Chê” Guevara é superior às centenas de mentiras que cabeças de bagre tentaram produzir. A última bobagem que vi, e que tornou o periódico que a inventou motivo de chacota nacional, foi a da revista Veja. Em um rompante de reacionarismo, a Veja se esqueceu de que ela é a base do PSDB (ué, esse partido não é social-democrata?), e deu uma de Mussolini. Publicou uma reportagem dizendo que Chê havia se acovardado na hora da prisão e da morte. A mentira já estava desmentida antes, pelos próprios relatórios da CIA. Chê era tão carismático pessoalmente, e não só em foto, que os soldados bolivianos que atiraram nele, já amarrado, demoraram para se aproximar do corpo. Antes mesmo das balas o atingirem, o mito já dominava o ambiente.

Agora, a partir de outubro, vamos ver mais um Guevara em pelo. Não estará perfurado por nada, a não ser por flashs da mídia, e terá no peito (será?) aquele monte de cenouras avisando a todos: “comam isto, pois a cenoura não sente dor”. Daqui uns anos, quando ampliarmos nossas relações com a natureza, Lídia Guevara estará na berlinda como o seu avô esteve (e está). Diremos: “ah, ela errou, as cenouras sentiam dor sim”. Estaremos, então, nos alimentando somente de produtos sintéticos, em favor da natureza “como um todo”. Mas, nessa época, a natureza já não mais existirá.

O que liga Lídia ao seu avô não é o “fervor revolucionário”, como aparece na foto 3imprensa de língua espanhola. E seu sucesso não dependerá de Benício Del Toro ter se convertido a um tipo esquisito de “guevarismo”. O que coloca Lídia como uma Guevara, e o que pode lhe dar êxito, é o fato de que sua mensagem pelos “direitos dos animais” é uma mensagem contra a dor. Não há razão para continuarmos a fazer qualquer coisa que sinta dor permanecer sentido dor. Achamos que isso é irracional – e pela filosofia, de fato é irracional. Não somos civilizados enquanto não eliminarmos a dor. Devemos construir o paraíso na Terra, ou seja, um mundo sem dor. Essa é e sempre foi a missão dos construtores de paraísos. E a filosofia, não raro, para o bem e para o mal, botou os pés deles nesse barco.

O fato é que o avô de Lídia desejou isso, o “paraíso na Terra”. Como de outras vezes, passadas e futuras, os meios para se realizar o tal paraíso, a eliminação da dor, provocou ainda mais dor – de todos os lados. Lídia parece ter uma vantagem sobre seu avô: sua mensagem é por um mundo sem dor, e os meios para tal, também são sem dor, ao menos enquanto acreditarmos que cenouras, que são raízes, ao serem arrancadas e escalpeladas, nada sentem.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.

http://ghiraldelli.ning.com

http://ghiraldelli.org

Veja o vídeo do PETA aqui!

No comments yet

Deixe uma resposta

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: