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Meninas e meninos querem “Crepúsculo”

28/06/2009

Disgusting!No universo masculino, até bem pouco tempo, a iniciação sexual do jovem brasileiro de classe média se dava com empregadas domésticas. Isso estava longe de ser abuso sexual. A iniciação de reconhecimento do corpo, por sua vez, em geral se dava bem cedo, antes mesmo da idade escolar, era a prática do “troca-troca”, que raramente incluía uma penetração de fato. Essas duas práticas eram perfeitamente normais em nossa cultura, e no âmbito da vida latina elas têm longa história.

O que era considerado pouco normal e, então, muito bem notado por pais, professores e autoridades, dava-se quando as relações da prática do “troca-troca” continuava para além do sete anos, já no ambiente escolar. Nesses casos, a visão popular dessas autoridades era a de que se iniciava aí o homossexualismo. “Troca-troca” na fase escolar indicava crianças que, quando jovens, iriam desenvolver uma atividade homossexual. Dificilmente tal visão errava sua predição. Outra coisa avaliada como bem pouco normal, e também bem notada, era a continuidade da prática de “caça às empregadas domésticas”. Que a iniciação sexual se desse com elas, era visto como normal (inclusive por elas, claro), que se estendesse para a “zona de meretrício”, também era visto como normal, mas se assim continuasse, para além dos dezoito anos, isso era fator de preocupação.

Foi assim durante muito tempo no Brasil. Era assim com nossos colonizadores, portugueses ou imigrantes. Quando adentramos a República, isso não se alterou substancialmente, ao contrário, ganhou feições institucionais. Até bem pouco tempo, em meados dos anos sessenta e setenta ou mais, era assim. Não arrisco dizer se era bom ou mal, se era errado ou certo – longe de mim, como filósofo, lançar um juízo desse tipo, tão taxativo, sobre uma tradição longa, forte e, enfim, responsável pelo amadurecimento de gerações e gerações que construíram o que temos hoje.

Todavia, o olhar do filósofo se aguça agora, quando as coisas estão mudando – ou já mudaram. A classe média se recolheu. Ergueu muros. Deixou as ruas e foi para os “shoppings”. Não importa aqui a razão disso, e sim o mundo gerado para os jovens.

Essa classe média liberou um pouco as meninas, em proporção ao que fazia antes. Todavia, em relação aos meninos, a vigilância cresceu. Há olhares por toda parte, para que não ocorra o “troca-troca”. A própria legislação tentou separar a empregada doméstica dos jovens da casa, deixando a menina menor de dezoito fora do trabalho. As “zonas de meretrício” ou acabaram ou se tornaram inacessíveis aos menores. Mesmo no interior, o brinquedo de rua diminuiu muito, e a convivência entre setores sociais diferentes, ou amizades variadas, também decresceu em número – e as relações mais íntimas que ocorriam devido a esse tipo de socialização, não mais ocorrem. Além disso, a religião evangélica cresceu, e a católica se aproximou da evangélica, contribuindo também para uma visão mais dura quanto às trocas de experiências corporais de todo tipo. Por fim, e não menos importante, a legislação sobre a infância e a juventude adquiriu um caráter bastante diferente O Brasil de hoje, ao menos no universo masculino de classe média, está prestes a gerar mais que uma geração cujas vivências corporais e sexuais é bem mais tardia que as das gerações anteriores.

As meninas de classe média, no entanto, ganharam mais espaço. As que possuem sexualidade baixa, pouco desejo, permanecem virgens até perto dos dezoito anos ou mesmo até mais. As que possuem um desejo considerado normal iniciam suas atividades sexuais aos quinze anos, em média. Em geral, a primeira relação ocorre com namorados um pouco só mais velhos. Na maioria dos casos, essas relações são fortuitas, e marcam muito pouco a menina – se é que marcam. Hoje em dia, chegam a marcar mais o rapaz.

Dado a inexperiência do rapaz de hoje em dia, mesmo quando se trata de rapaz alguns anos mais velho, a tendência das meninas de classe média é escapar dele, e partir para o amor com rapazes mais pobres, cuja experiência é maior, ou então “homens mais velhos”, amigos de seus pais ou amigos da família, ou ainda, para a preocupação geral da família, elas se aventuram em companhias de alguns que estão fora da lei ou quase isso. A tentativa de encontrar um “macho”, para a satisfação sexual, cresceu muito. A moça pode até sonhar com um casamento tradicional, com alguém pouco experiente e de sua idade, como ela imagina que seus pais querem para ela, mas se possui um emprego e ganha alguma liberdade, logo se arrisca por caminhos que seriam desaconselhados por seus pais. Ela coloca a felicidade sexual muito acima do que fazia há quarenta anos.

Tudo isso que digo, eu o faço a partir de dois elementos, a experiência do filósofo que lida com a juventude (durante trinta anos) e que pesquisa o assunto (durante vinte anos), e a leitura assídua das estatísticas. A questão que está na mesa, neste tema, é a respeito das conseqüências dessa mudança. Queremos saber, hoje, o que está ocorrendo e o que ocorrerá quanto ao perfil psicossocial dessa geração.

Só saberemos que Brasil emergirá disso, daqui uns anos. Nosso presidente, Lula, é mais velho que eu. Os homens do Senado, também são. E olha que eu já tenho cinqüenta anos, pertenço à geração que não participou dessas mudanças apontadas. Eles, mais ainda. Assim, faltam algumas décadas para sabermos como serão os novos brasileiros (homens e mulheres), tanto no governo quanto nas instituições de comando e, enfim, na vida social em geral. Não podemos mensurar o futuro. O que dá para saber, no momento, e que pode ser avaliado, são os resultados do que vem ocorrendo, nos próprios jovens. Um dado interessante é a mudança quanto ao tipo de herói que os jovens de classe média, na faixa dos doze aos dezoito anos, têm preferido.  Isso pode ser visto por meio da adoção do livro Crepúsculo, que também é filme.

A história é sobre vampiros. Como toda história de vampiros, há a alusão às transformações e, em especial, às transformações sexuais por quais passamos. Isso não é nem um pouco escamoteado no livro. No caso, diferentemente das histórias de vampiros e dráculas do passado, o herói não nasce vampiro, ele se torna vampiro por meio de uma mordida. Quem o morde? Uma vampira? Uma namorada vampira? Nada disso. Quando menino, quase moço, o herói é mordido por um médico, um “homem mais velho”. E aí ele se torna vampiro. É claro que, depois, ele vai se apaixonar por uma garota. Ela já é experiente sexualmente, mas ele, enfim, não quer nada com ela. Ele nunca queria nada com garotas. Mas, quando se apaixona por ela, que é mais experiente e o seduz, o que os coloca em mundos opostos (para que o drama ocorra) é o fato dele ser um vampiro. Ele é um “vampiro do bem” (sabe-se lá o que é isso!), e, temendo fazer mal à garota, uma vez que, enfim, ele é vampiro, ele se afasta (se quiserem perder tempo, leiam o livro e vejam o filme, para saber o final).

Esse tipo de situação é a vivida atualmente, por vários jovens? Sim e não. O êxito do livro entre os jovens atuais é que ele permite que elementos que estão no seu cotidiano se casem com elementos que eles imaginam que podem acontecer com eles. Ou então, também, com um tipo de situação que, de certa forma, passa pelas suas cabeças que é o que ocorrerá com eles. Que a iniciação sexual do jovem seja com um macho adulto, que vai lhe dar a mordida e a condição de ficar a par do mundo sexo, tornou-se uma realidade para alguns, um sonho para outros, uma dúvida para terceiros – “será que comigo será assim?”, vários se perguntam. No caso da jovem, o mesmo se dá, sonho e realidade se misturam, dúvida e fato se acoplam: não há hoje garota de classe média que não tenha se frustrado com o namorado da mesma idade, o colega de escola. Ele é aquele que nunca teve mulher, e sua iniciação sexual, se houve, foi com a mordida do vampiro.

Não sei se essa geração será melhor que a minha. Muitos dizem: “claro que será, Paulo, afinal, quem não será melhor que Lula e Sarney? Quem não será melhor que Serra e Dilma?” Estes aí, realmente, são de amargar, e ainda são mais velhos do que eu. Sim, por esse ponto de vista, o futuro promete mais. Todavia, há um dado que devemos considerar. Essa geração que lê Crepúsculo e que vai ao cinema assistir o filme correspondente, parece profundamente mais frustrada que a minha geração, se compararmos as coisas no mesmo tempo. Não sei se uma geração frustrada nessa idade pode governar nosso país de um bom modo.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo

Para acompanhar o trabalho do filósofo, entre para a rede social http://ghiraldelli.ning.com

2 Comentários leave one →
  1. matheusb permalink
    29/06/2009 2:18

    Muito legal o blog!!! Parabéns!

    ————–
    Matheus Blach
    ————–
    http://matheusblach.blogspot.com
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