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O que é solidão?

08/07/2009

O filósofo Michel de Montaigne nunca foi um homem solitário. Gostava de caçar com os amigos, foi prefeito por duas vezes e, enfim, tinha hábitos comuns de vida social. Todavia, quando perdeu seu amigo La Boetie, encerrou sua vida pública. Retirou-se para seu castelo, não só para escrever, mas para o isolamento.

É claro que alguns podem dizer que não foi a morte de La Boetie, exclusivamente, o que levou Montaigne a tal atitude, a de reclusão e, enfim, solidão. A filosofia de Montaigne, uma espécie de ceticismo, o foi empurrando da epoché – a suspensão dos juízos – para a ataraxia – a suspensão da ação. Creio que tanto a morte do amigo quanto a filosofia se casaram, para que Montaigne adotasse a “solidão voluntária”.

A solidão foi boa para ele? A solidão é algo bom?

Há um ditado popular que aposta na solidão: “antes só do que mal acompanhado”. Podemos embarcar nisso? Apesar da idéia da solidão estar muito presente na vida de religiosos, na tradição das religiões cristãs, Jesus não era um solitário. Aliás, só ficou sozinho mesmo uma única vez, aquela do retiro para o deserto. Ora, o resultado foi péssimo, pois foi a única vez que ele foi tentado pelo Diabo, em pessoa!

Os terapeutas não aconselham a solidão. São mais suscetíveis à Bíblia do que a Montaigne. É como se houvesse uma regra: quem fica sozinho não corre apenas o risco de ser infeliz, mas, pior talvez – segundo o que eles acreditam –, aproxima-se rapidamente da perda de juízo. Os vizinhos são da mesma idéia dos terapeutas, mas por outros motivos. Quem mora sozinho provoca os vizinhos, e logo eles se perguntam: “ué, ele mora sozinho? Xii, por que?”

Montaigne não tem vez, então? A sociedade moderna é construída em cima do liberalismo, uma doutrina que incentiva a individualidade, a liberdade, a privacidade. O liberalismo está longe de incentivar a solidão, mas tem, sim, um componente que, dependendo do lugar, favorece a vida solitária. Então, contra tudo o que se diz que se quer, o fato é que a vida moderna, liberal, tem muitos elementos para gerar enormes contingentes de solitários. As grandes famílias desaparecem, os amigos são apenas colegas de trabalho, os namoros viraram encontros casuais e “ficadas”. Há a multidão, nas grandes cidades, mas, na multidão, não se está ainda mais solitário? No interior, nas pequenas cidades, há a solidão como punição e, não raro, para mais gente do que se imagina.

Eis que na sociedade moderna, então, o medo de envelhecer sozinho quase que desapareceu, uma vez que a solidão surge bem antes da velhice. Bem, isso até chegarmos com a novidade de Bill Gates nas mãos, a Internet. Eis então que, por milagre, surge o fim da solidão. Assim pensamos.

A sociedade moderna, liberal, que fez nascer a solidão, encontrou rapidamente um antídoto para ela: os sites de relacionamento e todo tipo de bisbilhotagem que se pode fazer na aparente segurança do lar. Ninguém mais está só. A solidão desaparece e, no seu lugar, surge a regra da socialização do “big brother”. Todos fiscalizam todos. Do medo da solidão entra-se para uma completa falta de noção do quanto é ou não vantajoso se expor.

Assim, eis o fenômeno do momento: a solidão cresce e, na contrapartida, é claro, todos desejam sair dela se tornando pequenos astros de seus círculos de amizades virtuais. Há o mar e a praia aqui: pode-se colocar uma foto extravagante em uma comunidade do tipo Facebook ou Orkut, todavia, pode-se ir além e, então, deixar “vazar” na Internet até mesmo um filme de sexo a três, feito com outros dois parceiros, e sabe-se lá o nome que teriam. As duas coisas já não são novidade, e “muita gente boa” já ultrapassou o limite de ter feito somente a primeira.

Há quem se espante com isso e faça julgamento antes moralista do que moral. Mas não devia fazer. O melhor, na atual situação, é entender o quanto a solidão tem levado as pessoas a quererem brilhar, seja lá como. Nunca houve na juventude tamanha procura pela profissão nas áreas de comunicação. É como se cada jovem dissesse para si mesmo: vou ficar sozinho, então, a melhor solução para amenizar o problema é ter uma profissão que me mantenha “em conexão”.

As garotas querem ser modelos. E, enfim, todo mundo que “aparecer”. Não é a velha idéia liberal de “quero um lugar ao sol”. É a idéia quase pós-liberal que tem como lema: “quero um lugar sob os refletores, caso não exista refletores, eu os crio”.

Assim, quanto mais se está sozinho, e realmente, na sociedade atual, a solidão aparece como velho monstro embaixo da cama, maio é o desejo de encontrar um lugar onde não se é apenas amigo do rei, mas o próprio rei. Os reinados na NET são instaurados por cada um. Pode-se abrir, hoje, qualquer provedor de vídeos, qualquer lista de troca de fotos, qualquer comunidade de relacionamento: ninguém se poupa. Uma moça que quer namorar coloca uma foto, logo depois, vê que a amiga colocou uma foto mais ousada. Então, quando se dá conta, ela já colocou a foto dela completamente nua. Até fazendo sexo! Qual a razão de não fazer isso? Afinal, qual o problema de aparecer nu se há a proteção da tela do computador que, enfim, separa o mundo do resto. Pode parecer esquisito isso, para alguns, mas a verdade é que a NET cria a sensação de que é possível se mostrar sem ser realmente visto.

Por isso mesmo, não raro, aparecem casos estúpidos, como os dos policiais que fizeram mulheres nuas posarem com suas armas, tiraram fotos e colocaram na NET. Pode-se perguntar: como que eles foram tão imbecis? A questão não é mais “como eles fizeram tal coisa, homens da lei fazendo coisas fora da lei”. Essa questão não importa, ao menos não aqui, neste texto. A questão é “como que eles não sabiam que, uma vez vistos, seriam punidos?” Todavia, a idéia era essa mesma, maluca: somos vistos e, no entanto, não somos vistos, pois “do lado de lá da tela” há um monte de bonecos, não há de fato as relações sociais reais. O mundo virtual é o real, mas ele nos surge como sonho. Alguns sonham com cuidado, outros se perdem nos sonhos. Em todos esses sonhos, há o perigo dele virar pesadelo. Quantas pessoas não recebem fotos pornográficas e, então, são acordados no meio da noite com a polícia as acusando de pedofilia? Sim! Pois não há tanta margem de acerto quanto de imagina nas investigações: nem sempre se pega o criminoso nisso. Em boa parte dos casos, se pega o inocente.

A fuga da solidão, assim, termina na situação trágica, pior do que a solidão. Talvez fosse interessante imaginar a seguinte coisa: se Jesus estivesse hoje aqui, ele iria para o deserto ou iria para a Internet, para ser tentado? Ou então, pode-se pergunta, a respeito de Montaigne: será que ele não colocaria uma Internet no seu castelo e, então, ficaria mandando fotos para todo mundo, dele junto com La Boetie? Duvido que não!

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo

http://ghiraldelli.ning.com – rede social do filósofo da cidade de São Paulo (ah, viram, eu também tenho meu canto de aparente não solidão)

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4 Comentários leave one →
  1. gizelidacruz permalink
    10/07/2009 23:56

    Ó eu aqui otra veiz! Paulo, achei curioso você escrever sobre a solidão. Bem gostaria de antes de mais nada fazer uma observação: Jesus não ficou solitário uma única vez. Ele ficou três vezes: uma no deserto antes do Batismo, outra no Jardim da Oliveiras onde profere a famosa frase que serviu de letra de música para o Milton Nascimento “ó Pai, afasta de mim esse cálice” e na terceira vez foi na cruz quando gritou – “Pai, por que me abandonaste!?”

    Aproveito então estas três cenas para comentar três situações de solidão, e creia, quem fala é uma solitária clássica.

    1. Uma coisa é o retiro: cara me diz quem nunca deu uma louca do tipo – vou sumir neste mundão de Deus! (é força de expressão, calma…). Bem tem gente que vira mochileiro e sai por aí “sem lenço nem documento”, tem gente que vira biólogo ou geólogo (esses caras vão para os lugares mais bisonhos, longe da presença humana – note bem isso – e acham o máximo), tem gente que vira clérigo interno ou como chamávamos no tempo em que eu queria ser freira (depois eu explico isso) enclausurados ou conventuais. Tem gente que simplesmente entra dentro de casa e dá um “time” em algum lugar longe da civilização. Neste primeiro caso, só queremos um pouco de distância do elemento humano, que em minha análise pessoal, nos enerva ou desvirtua nossos pensamentos ou momentos de reflexão. Depois deste tempo de claustro podemos optar por voltar ao convívio com o outro ou optar pelo convívio com outras coisas ou seres – como é o caso dos geólogos, dos biólogos, clérigos católicos mais radicais e filósofos.

    2. O segundo caso é a primeira fase da solidão – não interessa que o exército tá do lado de fora querendo sua cabeça ou vc está na festa mais badalada da cidade, nada faz sentido. Você se sente só, como um peixe fora d’água. Você fica observando tudo passar sem conseguir intervir, tem medo, mantém uma distância “segura” ou simplesmente se mantém distante. Os outros falam e vc não ouve, eles te tocam e vc não sente, cria-se em torno de vc uma bolha virtual que nem mesmo uma multidão pode te tirar deste estado de transe. Neste momento, você cria seu próprio mundo (daí o espaço dos Orkuts, Facebook, MSNs, etcs da NET ou cria um THE SIM ou vai jogar RPG virtual). Neste mundo você é Deus e servo. Mas tudo muito (pseudamente) controlado. Em caso de emergência vc pode deletar seu perfil, processar a empresa ou virar notícia na tv. Depois vc cria outro e começa tudo de novo. Neste caso, você não precisa sair da “civilização” o distanciamento é mediado, mas vc está inserido.

    3. A fase mais difícil e perigosa – a radicalização da solidão: você se isolou da civilização, depois você criou mecanismos capazes de criar um mundo ao qual você tem quase certeza (idealista) de que pode controlar todos os eventos. Agora você aprisinou sua alma, seu espírito ou sei lá o quê… numa “roda viva” (olha eu parafraseando a nossa MPB de novo) na qual olha para tudo a sua volta e sentencia – “Fui abandonado”. Sim, antes você abandonava, ia e vinha, agora, você se sente abandonado. Se antes você era tocado e não sentia o toque, agora percebe que não há quem o toque, você afastou todos. Esta é uma fase perigosa, geralmente, é nesta fase que a indústria farmacêutica e a Psiquiatria Moderna entram com força total. Você agora é um boneco. Vazio. Sem vida. Num estado mental vegetativo. Surgem então as chamadas “sociopatias”, as neuroses, os anti-depressivos, os analistas caros, os pastores histéricos, as viagens descritas em folhas e mais folhas de papel ou em algumas paredes do quarto, e por aí vai.

    A “janela” agora é uma das portas para o mundo. Um mundo o qual você deixou de pertencer no momento em que quis se tornar Deus absoluto, Senhor de seu destino, brilhando mais do que os olhos podem suportar. Brilhando mais do que se você mesmo poderia suportar.

    Já sofri e ainda sofro dos males deste último tipo de solidão. Ao contrário de meus pares não sei “brilhar” em mundos como o Orkut e congêneres. Sinceramente, tem dias que eu desligo o computador e pronto. Mas, por exemplo, não consigo manter um relacionamento a dois por muito tempo. Só Deus sabe como meu atual namorado me suporta. E meus amigos e familiares então, nem se fala.

    Enfim, há facetas da solidão que são necessária à nossa vida mental, que nos ajudam a nos relacionar com o outro e com o mundo, mas suas outras facetas são mais cruéis e imoralmente bem aproveitadas pelo capitalismo contemporâneo. Talvez hajam formas de isolamento que possam se contrapor à idéia nociva de solidão.

  2. gizelidacruz permalink
    11/07/2009 18:42

    Obrigada, mas vc gostou mesmo? Sei lá, respondi com este texto meio institivamente. Se quiser já posto este.

    Beijos!

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