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O coelho filósofo

13/07/2009

Lá pelos anos sessenta, havia uma horta no quintal de casa. Bem, para nós todos de casa era uma horta. Mas, na verdade, descobri logo que era lugar de reunião e bate papo. Toda tarde, por volta das quatro horas, minha avó mexia num portão lá e logo o lugar estava povoado. Quatro coelhos grandes se acomodavam por ali. Eram dois casais. Entre uma cenoura e outra, rolava um papo.

É claro que eu jamais perdia um papo entre eles. Todavia, eu tinha alguma educação – não interferia. Eu disse “alguma”. Não disse toda a educação. Pois, eu não interferia, mas eu escutava, e sem pedir permissão. Pouco antes de minha avó mexer no portão, eu já estava ali no pé de goiabeira, acomodado no meu galho favorito, bem acima da horta. O lugar era estratégico. Via tudo, escutava tudo, mas não podia ser visto. Aliás, quanto a isso, eu sempre estive tranqüilo, coelhos jamais olham para o alto.

Os papos eram interessantes. Ficava-se sabendo muito da vida dos coelhos e, principalmente, algo fantástico, que aguçava minha curiosidade, que era conhecer um pouco de como era a toca deles, lá embaixo da terra. Eu fazia alguma idéia, pois assistia os desenhos do Pernalonga na recém chegada TV. Depois, na banca de jornais e revistas, começou a aparecer o coelho por lá. Mas eu sempre achei que aquilo tudo na TV ou nas revistas era muita fantasia, que a toca dos coelhos da minha avó deveria ser mais rústica. Com aquela conversa toda dos coelhos, eu aprendia muito.

A rotina da conversação da “cenoura das quatro” ficou mais interessante com a introdução de um novo convidado. Bem, não sei se era um convidado, exatamente. Sei que surgiu lá na horta. Vinha do vizinho, creio eu. Chegava sempre depois dos coelhos e, para causar inveja a todos, vinha pelo ar, voando. Era um pato magro, que voava mal. Mas, como ele mesmo dizia, perto dos coelhos, que não voavam nada, ele podia se exibir.

Eu tinha lá minha dívida para com o pato. Ele me via, mas não contava nada. Então, o papo saía, e era espontâneo. Nem bem sei se ele se lembrava, na hora da conversa, da minha presença. Parece que não. Isso foi até certo dia, e depois do que ocorreu naquele dia, o pato não voltou mais. É que, neste dia fatídico, surgiu por lá um gato preto. Um gato preto muito grande – quase uma onça!

O gato veio sorrateiro, rastejando. E num pulo só agarrou o pato. Apertou o pescoço dele e ia morder a jugular do coitado, que já nem podia grasnar. Eu ia intervir naquela situação, claro! Mas, para meu espanto, não precisei. O coelho mais velho ali, que até tinha lá certa dificuldade de andar e mordia a cenoura com lentidão, cutucou o gato no ombro, e foi soltando o verbo.

– Que isso, meu caro, no nosso encontro da “cenoura das quatro”, você aqui, apertando o pescoço de nosso amigo?

E o gato, espantando, respondeu:

– Você não tem espelho é?

– Espelho, para quê?

– Ora, para perceber que tem orelhas grandes, é muito peludo, tem rabo de pom-pom e, enfim, está com uma cenoura na boca. Resumindo: você devia saber que é UM COELHO!

– Ah, sim, sou um coelho. Faz tempo isso, que sou um coelho. E faz tempo, também, que sei que sou um coelho! Qual a novidade?

– Simples, meu caro coelho. Não creio que vai me importunar por eu apertar o pescoço desse seu amigo penoso aqui, pois ele será minha janta. Sendo você um coelho, com carne tenra de coelho, deveria saber logo que, jantando esse pato eu estarei livrando a sua barra. Pois se não fosse o pato … SERIA VOCÊ, IMBECIL.

O coelho olhou para os lados, como que desentendido, e disse:

– Eu? Eu mesmo?

– Sim, sim, sim – você. Vo-cê!

– Não, não acredito que você faria isso, aliás, também não acredito que irá jantar o pato. Jamais alguém, ostentando o título de animal caçador, esperto, grande, amedrontador e carnívoro iria comer algo que, no fundo no fundo, nada é senão um saco de milho. O pato acabou de tomar seu lanche, e quando um pato termina o seu lanche, ele nada é senão um saco de milho. E depois que ele faz a digestão, ele nada é senão um monte de milho moído. Nunca imaginei um felino garboso, caçador, grande e com pelo brilhante aí, nessa situação de mero comedor de milho!

– Bem, então pior para você! Posso trocar, posso jantar coelho. Co-e-lho!

– Ora, mas nós estamos terminando a “cenoura das quatro”. Estamos empanturrados. Você, um animal caçador, esperto, CARNÍVORO, iria encher a barriga de algo completamente sem gosto, como a cenoura? Sim, pois do mesmo modo que o pato é um saco de milho, nós somos o resto da horta! Depois da digestão, então, nem se fale, estaremos praticamente como uma massa disforme toda recheada com cenoura. Ahhrrrg!

O gato soltou o pato vagarosamente. Olhou o coelho, fitou-o da ponta das orelhas até a primeira unha do primeiro dedo que dava para ver entre os pelos da pata. Coçou a cabeça. Mostrou-se contrariadíssimo. Baixou os bigodes.

– Coelho, coelho … Você tem lá sua razão. Quer dizer que isso não é boa comida? Nem você nem esse pato são uma verdadeira comida?

– Não para você, nobre felino. É necessário não ficar na primeira impressão, no que vemos “por fora”, é necessário sair do escuro – sair da caverna. Nossos olhos do rosto mostram uma coisa, mas precisamos aprender a olhar por meio do intelecto, do pensamento. Pense: o que há na minha frente é um monte de cenouras e um saco de milho!

Foi com essa idéia, chamada de “teoria da visão profunda”, que o encontro “cenoura das quatro” foi salvo. Todavia, salvação para uns, infelicidade para outros. O gato durou muito pouco. Dali para diante ele sempre procurou olhar “com o pensamento” para todas as suas potenciais presas e, com isso, perdeu todas. Ele pensava, queria ver “o interior delas”, e isso era o tempo suficiente para fugirem. Vários dias sem comer, sempre analisando tudo, sempre olhando a realidade por detrás das aparências, ele logo definhou e morreu. Morreu de filosofia.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo

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4 Comentários leave one →
  1. neophytu permalink
    14/07/2009 17:14

    Olá Paulo, recebi a mensagem através dos voadores. Gostei muito do conto. Uma boa lição. A cada qual o seu fardo, o caminho é definido pela forma como se deverá carregar o seu próprio peso.

    O pobre do gato não tinha forças para carregar o que lhe foi entregue. Mas ele pereceu em busca de algo grande.

    Não é fácil encontrar boas mensagens nos tempos atuais. Que sendo simples dizem-nos muita coisa, sem que os autores recorram ao clichê e ao que já está batido. Isso é mais difícil ainda quando falamos de verdades (não falo de conceitos egoístas, de um ser, sociedade ou nação), face à idade imensamente avançada delas.

    Confesso que li seu texto com preconceito, no pensamente: mais um comum. Eis que o texto me surpreendeu. Simples e rico, como um bom humilde.

    Está de parabéns.
    😉

  2. r0650n permalink
    14/07/2009 18:11

    Cara, e como há gatos pretos por aí! Eles estão em todos os lugares, por todos os lados, querendo comer somente o supra-sumo de todas as comidas, a comida por exelência, uma comida superior… e não sacam que estão definhando! Olha, o Paulo colocou mais personagens na estória. Vou até ler novamente, porque os coelhos estão ali e eu quero decifrá-los. Mas o gato preto salta aos olhos. Que sujeito deslumbrado! Mas o negócio é que ele não é um deslumbrado qualquer. Ele é um tipo de deslumbrado que está numa posição, assim, “intermediária”, entre o grosso dos gatos – gatos do populacho, que comem no chão, nos becos e nas esquinas – e gatos menos encontradiços, que falam de iguarias do intelecto. E o nosso gato preto da estória é como que um gato que come nos becos, mas que quer loucamente ser visto como o gato “intelectual”. É esse o desejo mais caro dele: “eu sou um gato intelectual!”. Acontece que para ele ser chamado de intelectual ele precisa de fato alimentar o intelecto. Mas como? “Se fosse só estudar métodos e modos, e ficar nisso, mas não! Tenho ainda que criar coisas com isso. Blergh!”. Então o que fazer? Esses gatos tem sempre a mesma idéia: se ser intelectual dá trabalho, basta não ser visto comendo com os gatos populares, pelos becos e esquinas, e pronto – passo por um gato “refinado”! Na verdade, para dar mais consistência à mentira, esses gatos deslumbrados não só passam a não comer mais pelas esquinas e becos, como passam a falar mal disso: “comer por aí, igual a todo mundo, é coisa de gato sem inteligência; bom mesmo é ser refinado, comendo uma comida mais mais… intelectual”. Eles agem assim. Por mimetismo. Isso leva a uma anorexia mental braba!

    Vou ler de novo. Acho que tem caroço no angu dos coelhos.

  3. gizelidacruz permalink
    16/07/2009 23:56

    Oi Paulo. O Monteiro Lobato ia gostar, o que dizer então do Andersen ou do Machado. Acho que isso é puxão-de-orelha, certo? Talvez uma aguilhada nos neo-platônicos ou nos neo-peripatéticos? Acho que depois do Matrix o pessoal “realmente” deve ter ficado impressionado com este nosso “mundo de aparências” digital. Mas este era um gatinho leviano, heim. Conheci uma raposa num conto russo que era bem mais astuta. Ah, e o velho coelho, nem Pernalonga haveria se saído melhor. A propósito, conhece os contos russos? Se vc deixar posto um bem interessante compilado pelo Aleksandr Afanas’ev (não é sacanagem, não, o nome dele é assim mesmo) no ning.

    Um grande abraço!

    • 17/07/2009 2:55

      Obrigado por comentar Gi.
      Fui leitor assíduo de escritores russos! Agora, sobre o gato, ora, ele não era leviano. Ele simplesmente acreditou na filosofia. Quem não acredita? Não está todo mundo procurando o que está “por detrás”, o que é “ideológico”?
      Olha, mas e sua participação lá no NING?
      Paulo

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