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A partir de Kolakowski

18/07/2009

KolakowskiCansei-me de olhar para os volumes de Main Currents of Marxism de Leszek Kolakowski em minha estante, então, lá por meados dos anos oitenta e início dos anos noventa e os doei a uma biblioteca pública. A linguagem magoada contra o marxismo, com que Kolakowski escreveu aquilo tudo, não me agradava nem um pouco. Não que eu não lhe desse razão. Ele tinha lá sua verdade. Todavia, se há necessidade de falar de modo magoado de líderes que evocaram a tradição de Marx para dar golpes de estado, o melhor seria usar a linguagem magoada de Nabokov, como no belíssimo “A destruição dos tiranos”. A linguagem da mágoa é matreira, só não se volta contra o escritor quando este sabe, antes de tudo, o valor da estética no trabalho de escrever.

Minha ligação com Kolakowski terminou aí, nessa doação. Ao menos quanto ao Kolakowski que, agora, em 18 de julho de 2009, é retratado nos vários necrológios que chegam a imprensa. Todavia, há outro Kolakowski, menos conhecido do público. Com este, nunca deixamos de aprender. Trata-se antes do Kolakowski filósofo do que do historiador ou especialista em marxismo.

Uma boa recordação que tenho de Kolakowski é a de sua participação, em meados dos anos noventa, de um debate com Rorty, Habermas e Gellner na Academia de Ciências da Polônia. O debate girou em torno de Rorty. Este, então, apresentou um texto básico. Curiosamente, o mesmo texto apresentando em 1994 em São Paulo, em um evento realizado por Wally Salomão, patrocinado pelo Banco Nacional. Este texto, “Relativismo – encontrar e fabricar” (1), apresentado no Brasil, teve respostas pífias dos filósofos brasileiros convidados. Bento Prado ensaiou algo, mas não conseguiu pegar o ponto central do texto. Derrapou e bateu no poste, tomando Rorty por uma espécie de neokantiano. Giannotti fez um texto curto, onde confessou estar um pouco por fora. E estava mesmo. Paulo Arantes escreveu bastante, todavia, embora soubesse que o galo havia cantado, não sabia onde. O texto de Luis Eduardo Soares, o único brasileiro convidado que, enfim, conhecia Rorty, puxou o assunto para sua área, a antropologia e a política. Assim, cá entre nós, as coisas foram menos frutíferas do que poderiam ter sido.

A sorte do texto de Rorty veio, então, por causa do evento logo em seguida, em 1995, na Polônia. Habermas e Gellner fizeram interessantíssimas observações sobre o texto de Rorty. Diga-se de passagem, Habermas se deu ao luxo de escrever seu texto, na época, no estilo utilizado por Rorty, mostrando uma versatilidade incomum – e nunca mais repetida. Kolakowski também fez um bom texto, mas, enfim, sua melhor contribuição foi quanto ao pequeno escrito de observação direta à preleção rortiana. Dispensando erudição excessiva ou rodeios, Kolakowski brindou o “Relativism – finding and making”(2) com aguçadas questões, dando oportunidade de Rorty deixar claro, na época, algumas tópicos polêmicos do seu pragmatismo.

Não cabe aqui fazer um histórico do texto de Kolakowski, uma vez que seu escrito está disponível em livro. O que destaco em seu texto é algo que me é particularmente significativo, uma vez que tem a ver com o modo como eu mesmo desenvolvo aspectos da doutrina pragmatista, no meu próprio filosofar. Uma das objeções de Kolakowski aos pragmatistas – e ele, corretamente, assume Rorty como um modelo de pragmatista – é a de que é válido dizer que vários enunciados verdadeiros são alteráveis e realmente se alteram, e isso, por exemplo, tanto no âmbito da física quanto do feminismo, mas que, é difícil de não assumir que “a série de números primos é infinita” tem uma prova, feita por Euclides, eternamente válida. Assim, por essa idéia de Kolakowski, algo que o pragmatista não pode desconsiderar é por que essa prova euclidiana não parece perecível.

Bem, não é necessário dizer o quão velho é este debate na história da filosofia. Ele está lá nos gregos. E, se é para voltar a falar em Marx, este também ficou importunado com questões sobre o relativismo cultural, chegando a perguntar coisas como: se as obras de arte são artefatos datados, como que não paramos de dizer que, algumas delas, são sempre belas? Ora, a questão é ainda pertinente, e Kolakowski não se fez de rogado, ele a colocou, tinha de fazê-lo.

A resposta de Rorty é simples: a diferença entre a prova sobre a infinitude da série de números primos e o debate entre pragmatistas e platonistas é que este último tópico é controverso, ou parece que é, e a da prova euclidiana não se apresenta para nós como controversa. Então, não o mérito de cada uma, mas a diferença entre elas, não é uma questão filosófica, é um fato sociológico – diz Rorty.

Aqui, a tendência dos opositores a Rorty é a de levantar o mesmo que foi levantado contra Dewey: uma resposta assim não seria um escapismo? Todavia, Rorty tem um complemento que deveria ser considerado com cuidado. Ele diz: quanto à prova de Euclides, não aparece ninguém vendo coisa melhor para oferecer, quanto ao debate entre pragmatistas e platonistas, aparecem aqueles que possuem coisa melhor para oferecer dos dois lados do contendores. Rorty traz a questão para o âmbito do que nós, os bípedes-sem-penas, fazemos. Ou seja, somos nós, e mais ninguém, que vamos dar o aval para os enunciados, sejam eles quais forem. Para certas questões, não há o que oferecer, para outras há encontramos muita coisa para oferecer, dando várias opções.

Bem, qual é a lição que se pode tirar da controvérsia entre Kolakowski e Rorty? Para o tipo de filosofia que eu desenvolvo, uma que salta aos olhos é a seguinte: se todos os enunciados que fazemos só podem ser avaliados por nós mesmos, sem que eles tragam, a despeito de nossos propósitos, uma guilhotina que irá cortar nossas cabeças antes de  qualquer início do debate, já dando validade eterna a um em detrimento de outro (por exemplo, a guilhotina dada pela “visão do mundos das Formas” ou a guilhotina da “lógica inerente ao mundo”), então nossa responsabilidade é ampliada ao máximo. Não há nenhum enunciado que possa ser posto de lado, sem que tenhamos de examiná-lo e, depois, reexaminá-lo. Assim, todos os enunciados não controversos são os que nos satisfazem, mas que podem não vir nos satisfazer. Isso não quer dizer que não temos a que nos apegar na ciência e na vida. Ao contrário, nos apegamos, a todo momento, a um número enorme de enunciados, pois estamos satisfeitos com o grau de controvérsia que há sobre eles. Ou o grau de controvérsia que sabemos que há sobre eles, é claro. Em outras palavras: exercemos, sim, nossas responsabilidades para com os enunciados.

Volto agora, então, para o tipo de filosofia que eu mesmo faço. Trata-se da filosofia que se articula com a vida diária, a filosofia do cotidiano.

As pessoas acham que questões de fé são incompatíveis com a atitude filosófica, e imaginam que um filósofo deveria colocar em cheque todo e qualquer enunciado. Todavia, não fazemos isso e não somos menos racionais por não agirmos assim. Pois, é claro, é perfeitamente racional quem acredita por algo que ele “bota fé”, pois isso pode ser o equivalente de dizer: o grau de controvérsia sobre esses enunciados não é o suficiente para que eu possa descartá-los, não até o presente – e isso por várias razões, inclusive por uma que é a coerência deles com o resto de minhas crenças, e outra ainda, a eficácia deles no que preciso para conseguir o que quero.

Dou fé para o enunciado “a imagem da TV é produzida por um canhão de elétrons que bombardeia a tela”. A maioria de nós não pensa sobre isso, uma vez que sabe um pouco de como funciona a TV, mas não se recorda da física necessária para compreender totalmente esse enunciado. Mas, o grau de controvérsia que pode ser instalado sobre esse enunciado não é relevante para o que quero fazer, ou seja, entender o aparelho de TV minimamente, simplesmente para ter uma noção sobre o que é tubo ali colocado, caso ele quebre. Bem, e se quero só assistir a TV, então, nem se coloca a questão do grau de controvérsia a respeito do enunciado em questão. Todavia, ligo a TV e escuto alguém dizer que “o Rio Tietê não pode ser despoluído, está morto”. Ora, entendo de Rio tanto quanto de TV, mas, nesse caso, o grau de controvérsia, como um fato sociológico, eu sei bem, é maior do que o anterior e, inclusive, para mim, mais relevante. Tenho um interesse claro em não vê-lo legitimado.

Não me tornei nem um pouco mais ou menos dogmático, fazendo isso, do que o “filósofo crítico” que, ao menos na sala de aula, diz que não é dogmático. Quando soubermos lidar com isso, teremos dado um passo que, afinal, de certo modo já demos. Então, sobrará mais energia para começarmos a fazer da filosofia menos um debate sobre critérios de verdade do que uma proposta de contar histórias de mundos não existentes, de modo a fazê-los existir. Caso possamos inventar mundos em que seremos versões melhores de nós mesmos, dou fé, viveremos melhor.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo

(1) Este texto foi publicado em português: Salomão e Cícero (curadores). O relativismo enquanto concepção de mundo. Rio de Janeiro: Banco Nacional de Idéias e Editora Francisco Alves, 1994.

(2) O debate na polônia foi publicado em inglês: Niznik and Sanders (Ed.). Debating the state of philosophy. London: Praeger, 1996.

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