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Hobsbawn tropeçou em Nietzsche (*)

31/07/2009

Hobsbawm, Nietzsche e Darwin, por PGJr.

Vontade de potência é um conceito nietzschiano. Darwinismo social é uma noção sociológica. O casamento das duas é possível, mas necessariamente o filho gerado é um híbrido, um tipo de mentalidade popular, aliás, pouco versada em Nietzsche ou Darwin. Isso ocorreu?

Pode-se dizer que, na esteira da transição do século XIX para o XX, a idéia de grupos e pessoas competindo segundo o lema “que vença o mais forte” ou “o mais adaptado” entrou nas cabeças de vários socialistas que, diferente de Marx, nunca leram direito Darwin e, então, chamaram isso de “darwinismo social”, contra o qual tinham de lutar. Era mais ou menos como hoje, quando uma esquerda pouco letrada acusa tudo que não é a sua própria doutrina de “globalização” e “neoliberalismo”. Muitas vezes, parte dessa esquerda não sabe bem o que está falando ao pronunciar esses termos, mas, enfim, acredita que aquilo que não é “socialismo” é alguma coisa tão ruim quanto o que se chamava de “imperialismo”, num passado não muito distante. Esse tipo de amálgama de idéias, não raro, move grandes grupos e partidos. Até aí, nada com o que se possa espantar.

O problema desses amálgamas populares é quando eles caem nas mãos dos historiadores ou, mais exatamente, quando ludibriam esses profissionais. Principalmente aqueles historiadores que, uma vez engajados demais em doutrinas, acabam por aceitar acriticamente o que é contado pelos seus objetos de estudo. Tenho a impressão que a ansiedade de Hobsbawn em produzir uma história engajada, o trai em vários de seus livros e artigos. Em relação à sua leitura de Nietzsche e Darwin, penso que ele sofreu tomou um trança-pés de sua própria doutrina.

Na página 351 de A era dos impérios, ele diz que Nietzsche, apesar de ser cético em relação à ciência,

“seus próprios escritos, e notadamente seu trabalho mais importante, A vontade de poder, podem ser lidos como uma variante do darwinismo social, um discurso desenvolvido com a linguagem da ‘seleção natural’, neste caso uma seleção destinada a produzir nova raça dos ‘super homens’, que iria dominar os humanos inferiores como o homem, na natureza, domina e explora a criação bruta”. (1)

O parágrafo de Hobsbawm, citado acima, contém tantos erros quanto o número de afirmações. Primeiro: Vontade de poder seria o livro mais importante de Nietzsche? Justamente o livro manipulado pela irmã de Nietzsche! Segundo: os escritos de Nietzsche possuem uma doutrina da vinda dos super-homens como dominadores e exploradores do homem, como o homem faz com o animal? Terceiro: Nietzsche usa da linguagem do “darwinismo social” e da “seleção natural”?

As três perguntas podem ser respondidas, por qualquer estudante de filosofia de graduação, com sonoros nãos.  As primeiras duas questões já foram exaustivamente corrigidas por vários scholars, em diversas oportunidades. É estranho que Hobsbawm tenha se mantido surdo que já se fez nesta área. Aliás, é difícil encontrar alguém que leu Nietzsche com cuidado ainda usar de “super-homem” para Übermench. A opção por “além do homem” é a melhor fórmula. E menos ainda há quem fale em “raça de super homens”. Nietzsche nunca imaginou o Übermench como uma situação sociológica e muito menos o descreveu como uma utopia ou como algum projeto em relação ao qual ele teria algo positivo para dizer. Aliás, parece que Hobsbawm confunde um dos tipos de Nietzsche, o tipo “forte” ou “saudável” com o Übermench. Então, sobrou a questão de Nietzsche e sua relação com o darwinismo social. Este é o ponto a que me dedico abaixo.

Se Hobsbawn está dizendo que leitores de Nietzsche o entenderam de maneira tosca e o assimilaram ao discurso do darwinismo social, pode-se perdoar o historiador inglês. Todavia, quando lemos mais de uma vez o trecho que citei, vemos que ele não está falando isso. Ele compromete o próprio Nietzsche com o vocabulário da teoria da seleção dos mais fortes.

Há em Nietzsche algo próximo de Darwin, isso é correto. Darwin e Nietzsche usam o conceito de luta. Todavia, no darwinismo a luta pela vida se faz em função da conservação da espécie. Nietzsche traz a luta para o interior do organismo individual, considerando todo o corpo como um conjunto de quase seres vivos. Além disso, não é a conservação da espécie ou do indivíduo que se põe como motor da luta, em geral enfatizada em uma situação de carência. Em busca da construção da noção de vontade de potência, ele se põe contra a idéia de vida enquanto aquilo que seria conduzido em função da preservação. Para Nietzsche, a vida é exuberância e, portanto, a luta se faz sem qualquer perspectiva de autoconservação. O que parece mais forte pode, exatamente por isso, não se preservar e, sim, sucumbir. Uma célula que tem mais chances que outras de abraçar uma gota de água pode conseguir o alimento em excesso e, então, vir a explodir .

Assim, se por um dia fosse verdade – o que de fato não é – que Nietzsche pudesse ter dito que haveria uma nova raça, mais forte, dominando a mais fraca, por conta de algo como a “seleção natural” do darwinismo social, isso já estaria solapado pelas suas próprias noções de vontade de potência e de vida. O darwinismo social está associado a um melhoramento da espécie por conta de que a luta termina por gerar o que seriam aqueles que, principalmente em situação de desconforto, se saíram melhor em função de fazer a espécie não sucumbir. A vontade de potência e a vida, às vezes tomadas por Nietzsche como sinônimas, vão na direção oposta disso: são bem menos teleológicas que o fio condutor da preservação da espécie, da idéia de melhoria da espécie medida em função da capacidade de sobrevivência.

Aliás, é preciso notar, também, que Darwin e o darwinismo social não possuem tantas coisas em comum quanto à primeira vista pode parecer. Darwin fez uma bela teoria, mas o darwinismo social nunca deixou de ser apenas ideologia. Nietzsche não quis fazer teoria ou ideologia. Ele estava preocupado em fazer filosofia. Mas, seu objetivo nunca deixou de ser peculiar, especial, no sentido de não repetir o modo tradicional de ser filosofar, o modo que ele identificou como sendo o do platonismo. Nietzsche não queria repetir a metafísica, e sim romper com ela. Há scholars, com os quais eu tendo a concordar (2), que dizem que o que ele queria fazer, mesmo, era uma cosmologogia. Para inovar, Nietzsche teria imaginado voltar para antes de Sócrates e, então, recriar de um modo novo o que havia sido posto de lado pelo socratismo.

Pode-se dar um chute nessa cosmologia de Nietzsche. Pode-se dizer que ela, tanto quanto o darwinismo social, nunca deixaram de ser devaneios típicos do final do século XIX. Mas, o que não de pode fazer de modo algum, é dizer que Nietzsche, já maduro, escreveu coisas na linha do darwinismo social. Hobsbawn escutou demais os socialistas do século XIX e, em vez de contar a história deles, contou a história que eles lhe contaram. Tropeçou não como filósofo, que nunca foi. Tropeçou feio, mesmo, como historiador.

(1) Hobsbawm, E. A era dos impérios. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.

(2) Sugestão de leitura: Marton, S. Nietzsche – das forças cósmicas aos valores humanos. São Paulo: Brasiliense, 1990.

(*) Agradeço os leitores de meus livros e os que acompanham meu trabalho, que apontaram o Hobsbawm e sua visão de Nietzsche como merecendo um reparo.

© 2009 Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo

7 Comentários leave one →
  1. 01/08/2009 12:51

    Boa, muito boa a observação. Hobsbawn, em seu comentário, praticamente resume o que Arno J. Mayer escreve em seu “A força da Tradição”: Nietzsche seria nada mais, nada menos, que o principal nome do social-darwinismo; a sua apropriação pelos nazistas, no ponto de vista de Mayer, seria uma conseqüência lógica do que Nietzsche escreveu.

    Agora, é redutor demais, na medida em que o próprio Nietzsche, no Zaratustra, ironiza sem perdão o próprio modo de ser da nobreza européia do século XIX; Nietzsche constrói a sua própria idéia de Nobreza não como uma “raça” biologicamente superior, mas como uma espécie de “grupo” que conseguiu atingir a transvaloração de todos os valores. Mas não há, até onde eu pude perceber, nenhuma descrição nas obras do filósofo sobre o que seria o Übermensch – quanto mais de suas características orgânicas! Guardadas as devidas proporções, procurar em Nietzsche um rosto para o “super-homem” seria mais ou menos como procurar imagens ideais do da sociedade comunista em Marx.

    Bem, creio que é isso… Abraços!

    Renato A. de Oliveira Gimenes
    http://ofimdahistoria.freehostia.com

  2. vldantas permalink
    02/08/2009 15:38

    Caro Paulo, recebí um e-mail com seu texto “Hobsbawn tropeçou em Nietzsche”. Minha interpretação é divergente da sua (apesar de ainda não ter lido o texto de Hobsbawn). Não sou filósofo, mas após ter vários de meus amigos elogiando Nietzsche, resolví ler um livro do filósofo, e minha decepção foi grande. Gostaria que vc me dissesse se o seguinte trecho de “O Anticristo” (capítulo LVII) não representa uma concepção sociológica selecionista de Nietzsche (fonte: http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/anticristo.html):

    “[…]A ordem das castas, a lei suma e dominante, é meramente uma ratificação de uma ordem natural, de uma lei natural de primeira ordem, sobre a qual nenhum arbítrio, nenhuma “idéia moderna” exerce qualquer influência. Em toda sociedade saudável há três tipos fisiológicos que gravitam à diferenciação, mas que se condicionam mutuamente; cada qual tem sua própria higiene, sua própria esfera de trabalho, seu próprio sentimento de perfeição e maestria. Não é manu, mas a natureza que separa em uma classe aqueles que preponderam intelectualmente, em outra aqueles que são notáveis pela força muscular e temperamento, e numa terceira aqueles que não se distinguem, que somente demonstram mediocridade — esta última representa a grande maioria, as duas primeiras são a elite. A casta superior — que denomino a dos pouquíssimos — tem, sendo a mais perfeita, privilégios correspondentes: representa a felicidade, a beleza e tudo de bom sobre a Terra. Apenas os homens mais intelectuais têm direito à beleza, ao belo; apenas entre eles a bondade não significa fraqueza. Pulchrum est paucorum hominum(1): ser bom é privilégio. Nada lhes é mais impróprio que a rudeza, o olhar pessimista, os olhos afinados com a fealdade — ou a indignação por causa do aspecto geral das coisas. A indignação é um privilégio dos chandala; assim como o pessimismo. “O mundo é perfeito” — assim fala o instinto dos mais intelectuais, o instinto do homem que diz sim à vida. “A imperfeição, tudo que é inferior a nós, a distância, o pathos da distância, os próprios chandala, são parte dessa perfeição”. Os homens mais inteligentes, sendo os mais fortes, encontram sua felicidade onde outros encontrariam apenas desastre: no labirinto, na dureza para consigo e para com os outros, no esforço; seu prazer está na auto-superação; neles o ascetismo torna-se uma segunda natureza, uma necessidade, um instinto. Consideram tarefas difíceis como um privilégio; para eles é um entretenimento lidar com fardos que esmagariam todos os outros… Conhecimento — uma forma de ascetismo. — Representam o tipo mais honroso de homens: mas isso não impede que também sejam os mais amáveis e mais alegres. Dominam não porque querem, mas porque são; não possuem a liberdade de ser os segundos. — A segunda casta: a esta pertencem os guardiões da lei, os mantenedores da ordem e da segurança, os guerreiros mais nobres e, acima de tudo, o rei, como a mais elevada forma de guerreiro, juiz e defensor da lei. Os segundos constituem o elemento executivo dos intelectuais; são aqueles que lhes estão mais próximos, os aliviando de tudo que há de grosseiro no trabalho de liderar — são seu séqüito, sua mão direita, os seus melhores discípulos. Nisso tudo, repito, nada é arbitrário, nada é “artificial”; apenas o contrário é artificial — ele destrói a natureza… A ordem das castas, a hierarquia simplesmente formula a lei suprema própria vida; a separação dos três tipos é necessária para conservar a sociedade, para possibilitar o surgimento dos tipos mais elevados, mais sublimes — a desigualdade de direitos é condição primordial para a existência de quaisquer direitos. — Um direito é um privilégio. Cada qual tem seus privilégios de acordo com seu modo de ser. Não subestimemos os privilégios dos medíocres. Quanto mais elevada, mais dura torna-se a vida — o frio aumenta, a responsabilidade aumenta. Uma civilização elevada é uma pirâmide: somente subsiste com uma base larga; seu pré-requisito é uma mediocridade sã e fortemente consolidada. O ofício, o comércio, a agricultura, a ciência, grande parte da arte, em suma, toda a gama de atividades ocupacionais, são apenas compatíveis com a mediocridade no poder e no querer; tais coisas estariam fora de seu lugar entre homens excepcionais; o instinto necessário encontrar-se-ia em contradição tanto com a aristocracia como com o anarquismo. O fato de o homem ser publicamente útil, uma engrenagem, uma função, é evidência de uma predisposição natural; não é a sociedade, mas o único tipo de felicidade de que são capazes, que faz deles máquinas inteligentes. Para os medíocres a felicidade é a mediocridade; possuem um instinto natural para dominar apenas uma coisa, para a especialização. Seria profundamente indigno da parte de um intelecto profundo ver algo de condenável na mediocridade em si. Ela é, de fato, o primeiro pré-requisito ao surgimento das exceções: é uma condição necessária a toda civilização elevada. Quando o homem excepcional trata o homem medíocre com mais delicadeza que si próprio ou seus iguais, isso não se trata de uma gentileza — é simplesmente seu dever… A quem odeio mais entre a ralé de hoje? A escumalha socialista, aos apóstolos de chandala que minam o instinto do trabalhador, seu prazer, seu sentimento de contentamento com uma existência pequena — que o tornam invejoso, que lhe ensinam a vingança… A injustiça nunca está desigualdade de direitos, mas na exigência de direitos “iguais”… O que é mau? Mas essa questão foi respondida: tudo que se origina da fraqueza, da inveja, da vingança. — O anarquista e o cristão têm a mesma origem…”

    Vinícius Dantas

  3. vldantas permalink
    02/08/2009 15:55

    Complementando com meu ponto de vista:
    Ainda que eu possa estar enganado, e podemos discutir isso, acho que isso é uma visão de sociedade. Bastante darwinista social. Nietzsche está totalmente de acordo com o espirito de nossa época, com o ideal burguês de nossa sociedade. O problema para ele não é social, não é nascer no berço da miséria que faz das pessoas ignorantes, é uma “pré-disposição à mediocridade”. O autor ainda tem a cara de pau de falar que são os socialistas que convencem a casta mais baixa de que eles tem problemas, e não suas próprias condições de vida? Quer dizer, o socialismo não tem uma base material, para ele trata-se apenas de oportunismo.

    Vinícius Dantas

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