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Paulo Freire versus Martin Carnoy

13/08/2009

Paulo FreireOs comunistas odeiam utopias. Não foi à toa que Engels se insurgiu contra elas. As utopias são do campo da esperança e os comunistas gostam do campo do conhecimento. As utopias são feitas por aquilo que os filósofos modernos, desde Hobbes e Descartes, temem: a imaginação. Contra o Renascimento, os modernos abominaram a imaginação e a substituíram pelo entendimento iluminador que, depois, se transformou em iluminista. Antes conhecer do que imaginar. Antes propor o caminho reto do que criar utopias. Os marxistas se fizeram herdeiros aferrados dessa tradição iluminista, praticamente cientificista.

As utopias, como o próprio nome diz, não estão em lugar algum no campo do existente. Não são pensadas para serem realizadas. As melhores utopias são apenas propostas negativas, de denúncia da sociedade existente. Rousseau com o seu Emílio irritou Durkheim exatamente porque, como o sociólogo dizia, e com razão, era algo irrealizável. Diferente de Durkheim, Marx estava preparado para conviver com as utopias, mas os marxistas nunca as engoliram, pois, como frutos de uma árvore demasiadamente enraizada no século XIX, eles cultuaram o cientificismo, herdeiro do iluminismo estreito. Ao contrário da ciência, o cientificismo odeia a imaginação. Assim, uma boa parte do pensamento de esquerda, ainda hoje, apegado ao cientificismo do século XIX, não tolera quando se lida com a imaginação. Nisso, este tipo de esquerda se aproxima do pensamento da direita.

A entrevista de Martin Carnoy na Folha (10/08/09) é exatamente isso: o anti-utopismo. Só se pode pensar o estabelecido, o que já está posto em forma de modelo. É claro que essa postura vem não só dele ser comunista ou ter sido comunista, mas dele agregar ao seu currículo o diploma de economista. O comunista-economista é, na face da Terra, o animal menos capaz de usar da imaginação. Ele é da ordem da fauna autenticamente cientificista. Precisa de um modelo para pensar, pois não consegue criar nada. Ora, o modelo de Carnoy não é mais a URSS ou a Albânia – ele evoluiu! Em pleno século XXI o modelo dele é Cuba. E diz ele que esteve junto ao PSDB de São Paulo para falar ao Paulo Renato, o secretário de Educação de Serra, o que se deveria fazer no Brasil para melhorar nossa educação.

Os diagnósticos de Carnoy são uma lição de péssimo entendimento de dados estatísticos e as soluções por ele propostas são exatamente aquilo que nós, os filósofos de esquerda que amam a liberdade e a democracia, jamais engoliriam.

Carnoy começa e acaba a entrevista elogiando o modelo cubano de ensino. Cita alguns exemplos de outros países, mas não lhes dá o crédito que confere ao ensino em Cuba. Faz isso, aparentemente, não por razões políticas. Quer explicar como que o Chile e o Brasil, mesmo sendo mais ricos do que Cuba, não produzem uma educação eficiente. Mesmo perguntado sobre a falta de liberdade em Cuba, ele não titubeia, continua achando que a educação daquele país é uma boa educação – “ela funciona”, ele diz. No final, ele mostra realmente o que pensa, de uma vez por todas, ao dizer que em uma reforma educacional “tem de haver algum autoritarismo no início”. O pior é que cita, para endosso, o secretário de Educação de Obama, e em uma atitude que não tem a ver com o que Carnoy parece endossar ao elogiar Cuba.

Carnoy não consegue compreender aquilo que Paulo Freire ensinou e que é de bom senso, a saber, que a educação é uma atividade política. Sempre foi. Pedagogia e política estavam unidas na Grécia Antiga e são indissociáveis hoje como sempre. A pedagogia faz na cidade a produção do indivíduo enquanto a política prepara a cidade para acolher o indivíduo que a vai colocar em funcionamento, modificando-a e, também, mantendo-a naquilo que muitos acham que é a sua melhor geografia. Por não entender isso, Carnoy acha que pode falar em educação como quem fala de uma área técnica, e a palavra técnica, neste caso, se faz equivalente da expressão “filosófica e politicamente neutra”.

Em Cuba, o aluno não consegue pensar criticamente exatamente porque a crítica é dirigida, limitada e, então, tudo isso se torna um elemento de castração da imaginação. Pode-se aprender, mas só o que é permitido pelo Estado. Ora, o que é permitido é estreito demais. Os jovens reclamam disso quando entram em contato com o exterior. E a reclamação dos jovens está longe de se mover em função daquilo que padres ocidentais e Fidel Castro condenam: “o consumismo”. Reclamam exatamente da questão central para eles: em Cuba, a liberdade filosófica é impossível. Carnoy admite que é assim em Cuba. Aceita do entrevistador a idéia de que em Cuba o adestramento atropela a educação escolar. No entanto, ele acredita que em matemática, por exemplo, os alunos são bons, e ele pensa que esse tipo de assunto não é possível de cair restrito pelas condições políticas. Ora, é um erro filosófico esse tipo de atitude, pois é como se a matemática estivesse fora do mundo e não fosse conceitual. Quando nossa capacidade de conversar e, portanto, de elaborar conceitos, é restrita em vários setores, é um pouco ingênuo achar que ela vai ter grande fôlego em outros setores e suprir a necessidade que temos de fazer da educação não um treinamento, mas um elemento de produção de “versões melhores de nós mesmos”, como dizia Richard Rorty.

Carnoy evoca estatísticas quantitativas ou, melhor dizendo, quantitativistas, para mostrar que os alunos de Cuba são melhores do que os de outros países, nomeadamente o Brasil. Só não percebe que essas estatísticas avaliam o que a escola fornece, e não o pensamento em geral. Responder ao professor o que ele pede, o que ele quer ouvir, ou passar em um exame padronizado a partir de uma visão padronizada, não é um bom modo de se mostrar alguém capaz de construir um mundo melhor. Tenho grandes dúvidas sobre a utilidade da avaliação de performance que coloca em  destaque os meios, nunca os fins educacionais. Dou exemplos. A escola ensina que extrair uma raiz quadrada se faz por um procedimento, e então, o aluno repete isso e chega a um resultado, e eis que é dito que ele “aprendeu”. Aprendeu mesmo? E aprendeu o que? Aprendeu a repetir procedimentos! A escola diz que o capitalismo é um sistema de exploração e o aluno, no final do exame, repete isso. Aprendeu? Ora, aprendeu a repetir. Dogmas decorados e procedimentos padronizados, em ciências naturais e humanidades, não me parece ser algo que possa ser elogiado. Pois é o que ocorre: o aluno acertou a dar o resultado da raiz quadrada pedida e acertou no procedimento, o aluno acertou ao dizer que o capitalismo é um regime de exploração, mas em ambos os casos, era possível fazer diferente, usar da imaginação, mas não o fez. Evitou errar. Mas nem todo mundo que acerta tudo é inteligente, muito menos pode ser um projeto de “versão melhorada de nós mesmos”.

Uma raiz quadrada pode ser levada extraída por vários procedimentos. Posso afirmar que há alguns que poderiam ser inventados pelos jovens, e se tal atitude fosse incentivada, eles estariam seguindo a imaginação, a faculdade temida. É certo que o capitalismo é um regime de exploração, mas é possível ver que a palavra “exploração”, no caso, pode ser usada com conotação não pejorativa, e a conotação depende do contexto, do teórico que está definindo o capitalismo etc. Caso não exista imaginação para abordar tais nuances, é difícil dizer que o aluno que repete “o capitalismo é um regime de exploração” aprendeu algo capaz de fazê-lo um bom cidadão do mundo.

Carnoy aposta que o ensino pode ser separado de um modo mais ou menos assim: uma parte técnica pode ser ensinada com eficácia, mesmo sob o que ele diz que gosta, que o controle total do aluno e do professor (ele até sugere ao Paulo Renato que filme os professores!). Ele imagina que isso é separar política e educação. Ele não percebe que sua proposta é política: é o endosso da política autoritária em favor de uma pedagogia mascarada.

Meio envergonhado, ele diz que o sistema de bônus pode funcionar no Brasil. Claro, ele quer agradar o PSDB, pois parece afinado com o Paulo Renato. Mas, pelo que fiquei sabendo há poucos dias, o próprio PSDB de Serra já está disposto a abandonar essa posição. Serra parece que tende a uma posição que venho defendendo faz tempo, e que inclusive está em artigo publicado no Estadão e enviado a ele, antes da eleição para governador, na qual ele participou. Neste artigo, recomendo como proposta para o ensino o real incentivo salarial do professorado, mas feito a partir de exames aplicados no professor, independentemente de atuação de escolas e de desempenho de alunos. A proposta do governador Serra para a Assembléia Legislativa, recente, é a de colocar quatro exames na carreira, capazes de jogar o salário de um professor na ativa para algo em torno de 12 mil reais, em não muito tempo de trabalho. Isso faria o professor crescer se mantendo na sala de aula. Isso sim, acredito, resolverá de fato o problema de manter os melhores mestres como professores do Ensino Médio, que é quase tudo que se pode fazer, em realidade, para melhorar o ensino. A fuga do bom professor da sala de aula, indo para a carreira burocrática ou para o ensino superior, é o nosso real problema educacional. Essa proposta enviada por Serra, certamente é uma cunha para solucionar isso (Estadão, 04/08/09).

Mas, Carnoy ainda é do “PSDB do bônus” e do autoritarismo. Ele não vê que Cuba é diminuta e totalitária, e que os resultados dos alunos cubanos os colocam, em termos internacionais, abaixo do que é conseguido pelos alunos de países democráticos. Cuba se sai bem quando ponderamos o seguinte: eis aí um país pobre que, na média, se saiu bem. Mas, não raro, a média é também a mediocridade. Aliás, o intelectual cubano formado por Castro é, não raro, medíocre. Notamos isso no professor universitário formado em Cuba. Ele pensa mal, pensa torto. Quando começa a usar da imaginação, pelo contato com o exterior, ou é banido ou é punido. O ideal de Cuba é o ideal de “um pouco para muitos”. A ração diária oferecida a todos para que ninguém se sobressaia acaba funcionando: ninguém se sobressai. E se sobressai, é convidado a voltar à mediocridade. O que é vigente é a idéia da planificação não só do país, mas das mentes. Desse modo é fácil se sair bem em exames internacionais – na média.

O problema do Brasil é outro, e a solução é bem diferente do que  Cuba pode ensinar. O que queremos é como se sair bem em exames internacionais colocando todos os alunos sabendo o que devem saber e sabendo, também, o que a voz oficial de nosso país acredita que não devem saber. Além disso, temos de manter nossa capacidade de não ficar na média, mas de manter uma parte de nossos alunos na disputa de ponta. Pois, na ponta, não somos tão diferentes dos melhores. Nossa rede de universidades públicas não é ruim. E nossos intelectuais mais destacados não são diferentes dos do exterior. Aliás, recentemente, nossos alunos ganharam a Olimpíada Internacional em Matemática. Assim, nosso fracasso na quantidade não é um fracasso do país. Não temos razão de pensar em Cuba ou na Coréia do Sul como modelos, pois chegar na média ou na mediocridade elogiada não é nosso objetivo. Nosso melhor objetivo é como democratizar o ensino, fazer mais e mais pessoas aprenderem, sem que tenhamos de abrir mão de estamos sempre com uma elite intelectual capaz de se colocar entre os destaques internacionais em várias áreas.

Além disso, nosso desafio não é o de vencer mesmo tendo mentes planificadas, mas o de vencer utilizando mentes as mais divergentes possíveis, dentro de um pluralismo de posições, etnias, gostos e perspectivas cada vez maior.

Posso resumir isso lembrando uma conversa contada várias vezes por Paulo Freire, e que inclusive foi contada para mim, quando fui seu aluno. Freire contava que, em um encontro com Castro, o presidente cubano fez um elogio a ele diretamente, e incrivelmente franco: “Paulo, você faz bem ao criticar o capitalismo e a educação do mundo capitalista, mas quando você envereda por criticar nosso antifeminismo, nossas medidas que você chama de autoritárias, você não ajuda a Revolução”. E Freire, segundo ele mesmo, respondeu algo mais ou menos assim: “Comandante, eu sou fiel à uma educação libertadora”. Não sei se Freire publicou essa conversa, mas ele a contava sempre, para que seus alunos e amigos não tivessem dúvida de que ele não endossava a pedagogia da média, do índice mediano, da mediocridade. Uma pedagogia libertadora não é autêntica se não está voltada para a criação de personalidades cada vez mais ricas por conta de poderem exercer sua imaginação maximamente. Antes o Renascimento do que os tempos modernos é o que está no horizonte de toda pedagogia que evoca a liberdade. Quando olhamos o Renascimento, vemos Rafael, Dante, Erasmo e tantos outros sorrindo. Quando olhamos os modernos vemos tudo culminando em Kant e Comte, substituindo o sorriso pela sisudez da ciência. Por isso, Nietzsche nunca gostou de outra época que não o Renascimento. Foi uma época de liberdade real, individual, de hip hip hurra para a imaginação.

Hoje em dia, Paulo Freire foi esquecido. A revista Veja consegue mercenários para escrever contra ele. E escrevem sem saber o que Freire escreveu. Tive de mostrar isso ao apontar para erros crassos, imbecis, de um Gustavo Ioschpe e outros meninos do mesmo tipo (artigo). O PSDB não quer nem ouvir falar em Paulo Freire e, se não chega a bater nele, não deixa de, por baixo do pano, apoiar a iniciativa da Veja. E o PT, que foi o partido de Freire, o idolatra exatamente para não ter de discutir o que ele dizia – e muito menos seguir. O ministro da Educação atual, do PT, é economista como Carnoy, e quer o pensamento utópico de Freire bem distante do MEC. Ele, como outros tantos educadores no Brasil, não querem nada com a imaginação. Foram educados no marxismo. Aquele marxismo que jamais conseguiu conviver com o pensamento utópico. Para tudo, tinha e tem modelo – modelitos.

Carnoy é o homem do modelito. Não à toa, portanto, chegou e já conseguiu fácil destaque na imprensa paulista, significativamente tão avessa a discutir educação a partir do que é feito entre nós. A imprensa brasileira fica deslumbrada com cada estrangeiro-modelito que se apresenta aqui para dizer que não sabemos fazer educação. O mundo copiou Paulo Freire. Nossa imprensa ainda não percebeu isso. Santo da terra não faz milagre.

12 de agosto de 200, Ibitinga, São Paulo

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.

Portal Brasileiro da Filosofia: http://filosofia.pro.br
Site pessoal http://ghiraldelli.pro.br
Rede social de filosofia: http://ghiraldelli.ning.com
4 Comentários leave one →
  1. wemersonsantos permalink
    15/08/2009 22:23

    Paulo Ghiraldelli, aqui quem vos escrevinha é um amante da filosofia, e um grande admirador de seu trabalho.

    Infelizmente descobri seu blog somente hoje, mas, irei acompanhar sempre novas postagens suas.

    Ah, uma dúvida, porquê você nunca gravou uma video aula sobre Erich From e Marcuse(?)

    Tenho plena certeza que seria um video riquissimo como somente você faz.

    Abraços!

    Contato: wsimprensa@gmail.com

  2. 10/02/2013 22:34

    “Em Cuba falta liberdade”, “em Cuba a crítica é limitada”, e me responda onde que não falta liberdade, onde não há limites à crítica. Em lugar nenhum do mundo capitalista vc vai encontrar isso… É a velha diferença entre o idílico e o real, ou melhor, entre a teoria e a prática.

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  1. O que é “fazer pedagogia”? | ghiraldelli.pro.br

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