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Woodstock – além do passarinho

16/08/2009

WoodstockWoodstock hoje nada é senão um passarinho, para alguns, ou uma dupla amiga da Rebordosa, para outros. Woodstock não era muita coisa quando dos primeiros anúncios do evento. Mas, quando começou, tudo aconteceu.  Uma música desacreditada foi o grande sucesso. Um evento marcadamente apolítico se transformou em um ícone da política. Um festival de gente que não queria fazer outra coisa senão curtir a vida gerou uma nova forma de vida. O que já ouvi de mais errado sobre o último quarto do século XX foi que os anos 60 não mudaram nada. Woodstock mudou tudo. Ou melhor: foi o pico de uma mudança que já estava para se consolidar.

Duas pessoas morreram em Woodstock, uma por atropelamento e outra por overdose. Dois casais choraram esses filhos que não ficaram para a história senão como números. Algo igual às das placas que outros jovens carregavam, na mesma época, no Vietnã, também a única coisa que lhes restou para, vivos ou mortos, se transformarem no que já eram mesmo – números.

Essa idéia de que todos eram números e viraram outros números é o que sustentou toda a cobertura da imprensa brasileira sobre o evento, que hoje, 15 de agosto de 2009, faz quarenta anos. Rápidos “flashes” e algumas tomadas sem muito sentido foi o que a TV apresentou. Aliás, desde o início deste ano, a grande imprensa escrita também já vinha mostrando que não iria fazer outra coisa senão dizer “a geração que quis mudar o mundo foi mudada pelo mundo”. Todavia, há pouca verdade nisso quando olhamos as coisas com o olho da filosofia.

A juventude americana que foi para Woodstock já vivia o final dos anos 60, e não era coincidente com a juventude que, um ano antes ou mesmo naquele ano de 1969 havia protestado no mundo todo, confluindo reivindicações nacionais e internacionais – tanto no Ocidente quanto nos satélites da URSS e também no Terceiro Mundo – na busca do que, em síntese, poderíamos chamar de liberdade.

O que igualava “os de 1968” com os “os de 1969” era a busca por liberdade. O que os diferenciava era o que eles diziam que era a liberdade.  “Os de 68” eram os dos protestos estudantis e “os de 69” eram os dos festivais de tipo Woodstock. Isso valeu para a América do mesmo modo que valeu para o mundo, ainda que, de certo modo, Paris tenha ficado com o cacife de ter protagonizado o que ocorreu em 68 e a América o que ocorreu em 1969. Poder-se-ia, é claro, explicar isso por elementos sociológicos. Mas seria inútil. A verdade é que, no decorrer dos anos posteriores, esses dois anos foram empurrando aqui e ali novas e novas reivindicações de liberdade, de todo tipo, e foi isso que fez o mundo do final do século  XX ser outro tipo de mundo.

Para os da rebeldia estudantil de 1968 a liberdade era algo complexo, falado em palanques e, enfim, algo sobre o qual não era possível se chegar a um consenso. O filósofo frankfurtiano Marcuse, então professor americano, foi o ícone filosófico dos anos 60 exatamente à medida que conseguiu dizer para o mundo que o capitalismo e o socialismo haviam se igualado, que ambos estavam oprimindo o nosso planeta. Mas, fora disso, na prática cotidiana, os que gostavam de um regime e ou de outro, continuaram a reverberar dogmas. Não demorou muito para todos os grupos internos ao campo política de 68 perceberem que os conservadores iriam bem se aproveitar disso. Mas, foi tarde para reagir.

Para os da rebeldia músico-social de 1969 a liberdade era algo simples: paz, amor e rock. Vários incluíam um elemento a mais: a droga. A discussão ideológica era diminuta. O envolvimento político era pequeno. Tudo se resumia na idéia de que o mundo poderia ser mudado se cada um, de um momento para outro, dissesse para si mesmo: não vou mais participar “do sistema”.  Era um pensamento tão político quanto o daqueles que, um ano antes, haviam dito, com outro significado, “o sistema precisa ruir”. É claro que, devemos lembrar, anos depois, quem continuou a usar a palavra “sistema”, nesse sentido, já não tinha boa escolarização, pois o termo se tornou apenas uma forma de não dizer nada.

Ambos os grupos, tanto o “estudantil” (o de 68) quanto o “hippie” (o de 69) estava de acordo com o lema que se reproduziu pelos muros do mundo, o “é proibido proibir”. Mas, infelizmente, só o grupo hippie levou a sério tal lema. Os outros já estavam na política, e tão logo se colocaram em partidos ou grupos para-militares, trataram logo de exercer a proibição sobre tudo aquilo que diziam que não poderia ser proibido.

Entre os dois grupos, é claro que o de 1969 estava derrotado e se entendia assim. Sabiam que aquilo não era o início de uma era, embora fosse, de fato, uma revolução – que iria atravessar o tempo não na venda ao atacado, mas a do comércio do varejo.  Era o fim de uma era – ninguém duvidava disso. Os anos 60 estavam terminando, não só cronologicamente. Para o grupo de 1968, o ano de 1969 não teria precisado de Woodstock, e sim de um engajamento na revanche contra as derrotas sofridas em 1968. Foi por aí que vários se tornaram membros de partidos paramilitares, no Ocidente. No “lado de lá da Cortina de Ferro”, no entanto, não havia chance para a guerrilha. Os jovens atearam fogo ao corpo por conta do domínio soviético em seus países – ficaram como números na história. Números iguais aos das “baixas” dos jovens americanos no Vietnã ou números como os dos que, em outros Woodstocks da vida, foram atropelados ou mortos por overdose. Mas, é sempre necessário lembrar: ainda eram números. Os mortos de origem asiática, tanto do Vietnã do Sul quanto do Norte, na guerra que se estendeu até 1975, nem números se tornaram. Nunca devemos duvidar de que faz tempo que só o Ocidente tem o direito de colocar seus mortos em números, homenageados pela estatística. Os outros são “os outros”, não são números individuais, são números contados só quando passamos de milhares.

A maioria das pessoas que hoje, na classe média ocidental, usufrui de liberdade individual, esquece-se que essa liberdade jamais veio com a Revolução Francesa. Veio, sim, muito mais tarde, com o que se criou de balbúrdia nos anos 60 – e não necessariamente na França, e sim na América. Não foi uma mudança da noite para o dia. Mas, quando vieram os anos 70 e 80, uma série de proibições que eram indiscutíveis na vida do pós-Segunda Guerra Mundial, se tornaram relíquias de um passado pouco comemorado.

Não é verdade que os pobres do mundo todo ganharam liberdade. Ao contrário do que Marx dizia, o proletariado de cada país se diferenciou assustadoramente. No entanto, a classe média do mundo todo se tornou bem parecida e deu passos largos no sentido de poder escolher destinos individuais que, trinta anos antes, pareciam uma utopia distante. A escolha livre do casamento, o direito ao divórcio, a ampliação do direito ao aborto, a idéia da democracia como o melhor regime exatamente na medida em que poderia ser melhorado, a liberdade de imprensa como direito inalienável, a tese de que uma democracia não sobrevive apenas com a decisão da maioria se não se respeita os direitos das minorias, o multiculturalismo, a luta pelos direitos humanos e a extensão do fim da crueldade aos animais – tudo isso caiu nas mãos da Internet no anos noventa. Não teria caído se não fosse o eco dos rebuliços dos anos 60.

Aliás, não haveria ninguém usando isso na Internet caso Bill Gates tivesse inventado o que inventou para um grupo de homens e mulheres sem a herança dos anos 60, tanto aquela herança “dos de 1968” quanto a “dos de 1969”.

Com a Internet, o eco dos anos 60 disse aos filósofos da Escola de Frankfurt que, talvez, eles não estivessem corretos quando imaginaram, junto com o arquiinimigo Heidegger, que atacar a tecnologia e mesmo a “indústria cultural” era alguma coisa útil.  Deveríamos hoje, a cada e-mail que passamos e a cada blog em que colocamos uma idéia libertária, lembrar que não temos somente de agradecer aos átomos do mundo que, por sorte, se uniram em determinado momento e formaram, sabe-se lá como, o cérebro de Bill Gates. Devemos sempre lembrar que o mundo mudou por conta de tudo aquilo que culminou e parece que terminou em Woodstock. Deveríamos sim, agradecer, também aos números em que se transformaram os vivos e os mortos de Woodstock.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo., http://ghiraldelli.pro.br

One Comment leave one →
  1. gletson permalink
    16/08/2009 21:33

    É,caro Paulo, o ambiente virtual da internet reflete um conjunto de “liberdades” que são frutos de uma genealogia que o homem conquistou palmo a palmo e, certamente, foge às convenções, aos preconceitos, ao controle das ideologias,enfim, o mundo virtual está livre para voar sem fronteiras…quem se habilita mantê-lo sob ditadura?

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