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O sensual e o lúdico

31/08/2009

Bonecas com curvas avantajadas, criadas nos Estados Unidos

Há dois tipos de brasileiros. Há um que, quando sai de casa, leva a bunda junto com ele. Há outro que sai e acredita que conseguiu deixar a bunda em casa. Os primeiros usam a bunda para sentar, para fechar a porta do carro e para rebolar. Os segundos sentam com as costas, tentam fechar a porta do carro com a mão mil vezes sem conseguir e, enfim, possuem um medo danado de rebolar.  Os primeiros são da espécie amante de Michael Jackson e Shakira, herdeira dos amantes de Elvis. Os segundos são da espécie amante de Bin Laden. Os primeiros são da linha do barbeiro, os segundos, da linha do líder, como Chaplin os imortalizou em O grande ditador. Os primeiros são os que entenderam e amaram o meu artigo sobre a professora baiana, dançarina não oficial (até agora) do ritmo “Todo Enfiado”. Os segundos são os que eu já sabia que não iriam gostar mesmo, pois não gostam de nada – nem mesmo deles próprios, pois se conseguem imaginar que podem deixar parte do corpo em casa, no fundo, querem ser mutilados. Na verdade, já são mutilados. Não lhes falta bunda, apenas parte do cérebro.

O que se vai ler abaixo deve servir de operação cirúrgica de reconstituição do cérebro. Os que não gostaram do meu texto anterior, sobre a professora que dançou o “Todo Enfiado”, vão poder mudar de opinião e, então, seus neurônios perdidos irão ser, quase que milagrosamente, restaurados – as sinapses voltarão a ocorrer. Vamos lá!

A sorte nossa contra as pessoas que querem que todos abandonem seus corpos ou, então, os use somente em paradas militares e na guerra, é que, mesmo elas fazendo tudo contra nosso ethos de povo dançante, nossas crianças, enquanto crianças, não as obedecerão. O negro não obedeceu ao branco quando este, na Bahia, proibiu a capoeira. As crianças brancas e negras não obedeceram ao adulto carola e raivoso quanto este quis impedi-la, lá no passado, de dançar o “Tcham”, de Carla Peres. As crianças de todas as escolas vão puxar a calça do colega, para ele dançar legal o    “Todo Enfiado”. Pois a dança é mesmo uma caricatura, e as crianças entendem isso.

As crianças têm uma facilidade incrível de perceber graça naquilo que nós, adultos, vemos sensualidade. Nós estamos certos, e elas também. Para nós, o sensual é gostoso de ver.  Para elas, o que parece para nós como sensual, é gostoso de imitar. Puxar a calça de alguém ou a calcinha ou a cueca é uma brincadeira. Em alguns lugares isso se chama “bunda le-le”. E já tivemos esse ritmo, não faz muito tempo, conquistando todos aqui no Brasil. Agora, o “bunda le-le” se metamorfoseoBoneca de Spencer Davis, Bacharel em Belas Artes e Desenho Industrial na universidade de Washington, trabalhou na indústria de brinquedos em 1996.u em “Todo enfiado”.  Tudo funciona como nos desenhos animados, quando um personagem puxa a roupa de outro como se fosse elástico, e depois solta, mandando o parceiro para o espaço com a “estilingada”. O “Todo enfiado” é bem menos bruto que isso. O momento crucial do ritmo é deixar as nádegas à mostra, principalmente as suas partes laterais, não mais à mostra do que aquilo que ocorre em desfiles de mulheres na TV ou na praia. Puxa-se a pessoa pela parte central da calça, calcinha ou cueca. As crianças adoram isso, se divertem para valer, é a chamada “puxada pelo rego”. Os mais antigos diziam: “pegou pelo cu das calças”.

Mexer os quadris em gestos sensuais em uma dança de nosso ritmo afro-brasileiro é diferente de mexer as pernas e o rosto em uma dança também sensual como o tango. Ambos são sensuais. Mas, o que a nossa tem que o tango não tem, é que a nossa é feita para um adulto que, nesta hora, se confunde com a criança. Não à toa. Pois, afinal, o jogo erótico é uma evolução do jogo de lutas que nós, mamíferos, fazemos quando na infância. Por isso, danças como “Todo enfiado”, “Na boquinha da garrafa”, “Tcham”, “Dança da bundinha” etc. sempre lançaram seus protagonistas não somente para o mundo adulto, mas muito mais para o mundo infantil. Não à toa Carla Peres virou boneca. Alguns pais proibiram as crianças de brincar com bonecas da Carla Peres ou da Xuxa na escola? Elas, que personificaram, para os pais, um claro comportamento sensual público, não foram proibidas de dar a regra comportamental, por meio de seus gestos associados às bonecas, às crianças. E isso dentro da escola. Não fiquei sabendo de algum colégio que proibiu crianças de brincarem de bonecas, seja da Carla ou da Xuxa.

Quanto mais uma prática é vista como sensual pelos adultos, não raro mais ela é adorada como caricatura e modelo lúdico para as crianças. A razão é simples: a prática sensual exige movimentos não costumeiros, quebra o padrão, funciona como algo engraçado e divertido para a criança. É como a queda paBoneca de Spencer Davis, Bacharel em Belas Artes e Desenho Industrial na universidade de Washington, trabalhou na indústria de brinquedos em 1996.ra o adulto. Caímos na rua e outros, ao nosso redor, não seguram o riso. O gesto sem padrão causa o riso. É o que ocorre com o gesto sensual diante da criança. A criança percebe que aquilo é lúdico e passa a brincar com aquilo. Todos os personagens da TV com gestos capazes de serem tomados como sensuais, logo se transformaram em atração das crianças. É até engraçado ver a reação dessas pessoas: “ah, que estranho, eu não sabia que iria ter um público infantil”. O programa “Pânico na TV” notou bem isso com a personagem “Boing Boing”. As moças que assim se destacam, podem ganhar um lugar de apresentadora de programa infantil (as loiras). O que, para nós, é o gesto que aponta para o sexo, para as crianças é exatamente o gesto que aponta para o lúdico. Por isso, a última coisa que uma pessoa pode conseguir, ao dançar como a professora dançou, é “influenciar mal uma criança”, caso se imagine que representações de esporádicas de despudor faça algum mal para a criança.

Quem viu o vídeo da professora, na NET, sob essa perspectiva inteligente que estou apontando, irá perceber que nada ocorreu de tão estranho. Caso possa desarmar o espírito e usar da razão de uma maneira filosófica, vai sentir isso. Caso não perceba isso assistindo o vídeo, após ler este meu texto, vai ter outra chance, logo, quando perceber as crianças todas dançando o “Todo Enfiado” na escola, como o que ocorreu com o “Tcham” e similares. Se, assim mesmo, ainda não puderem perceber que o vídeo da professora e a dança são inofensivos, então, essa pessoa precisa procurar um apoio psicológico, em um caso menos grave, um namorado ou namorada.

Mamíferos que não percebem o elo entre o jogo de gestos do adulto no sexo e o jogo de lutas e gestos do mundo infantil, não são mamíferos. Pessoas que não compreendem que a criança tem o mundo dela muito mais protegido do que imaginam e que não entendem que a criança faz naturalmente essa distinção, não poderiam ser pais ou mães ou educadores.

São Paulo, 30 de agosto de 2009

© Paulo Ghiraldelli Jr. , filósofo

Blog: http://ghiraldelli.pro.br
Rede: http://ghiraldelli.ning.com
Portal: http://filosofia.pro.br
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