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Campanha antipedofilia é biombo para a barbárie

04/09/2009

paula e paulo - beijo, 1985Depois de 1964, quando uma pessoa de mau caráter queria eliminar um concorrente em qualquer lugar de nossa sociedade, já não tinha a seu favor somente os instrumentos baixos de costume. Ganhou outro, decisivo: a delação. Bastava falar: “comunista” ou, logo depois, “terrorista”. Pronto, o teto do acusado desabava e a vaga ficava com o delator. Muita gente subiu na vida desse modo após 64. Alguns estão aí até hoje, usufruindo do bom e do melhor por conta da maldade que cometeram naquela época.

O Estado de Direito precisa pegar os criminosos, claro, mas justamente por ser um Estado de Direito e não uma ditadura, tudo deve ser feito pela eficácia, não pela propaganda, não pela campanha. Não se caça criminosos com campanha. A campanha afugenta o verdadeiro criminoso e deixa indefeso o inocente. Em um prazo rápido, toda a sociedade é vítima de delações maldosas, como as que vivemos no período ditatorial, ou delações criadas a partir dos fantasmas fomentados pela campanha.

Quando se iniciou o “caça as bruxas” em relação à pedofilia no Brasil, escrevi dizendo que iríamos logo caminhar para o que estamos vivendo: os criminosos não estão presos e, no lugar deles, uma série de pessoas doentes são escorraçadas. Agora, as coisas pioraram. Nem mais se trata de doentes, e sim de pessoas sadias, completamente corretas em seus procedimentos, que começam a ir para a cadeia. E o que é mais terrível, chocante: não só adultos, mas as próprias crianças estão sendo submetidas a tratamentos traumáticos. Em nome do amor, faz-se o ódio, em nome da proteção das crianças, cria-se a tortura infantil.

O caso do italiano preso por beijar a filha de oito anos, no Estado do Ceará, (artigo) mostra que estamos dando passos fortes em direção à era do ódio no Brasil. A mãe, brasileira, explicou o caso. Mas a polícia, guiada por uma lei errada, e vizinhos dirigidos por uma campanha alucinada contra a pedofilia, colocaram o homem na cadeia. Se não bastasse isso, também levaram a criança de oito anos que, agora, está respondendo interrogatório para dizer … ora, para dize o que? O que vão perguntar para essa criança? Vão perguntar para ela se o pai a beijou na boca? Vão perguntar para ela se o pai “fez amor” com ela? Que isso? Quem vai fazer essas perguntas? Funcionários públicos com diplomas de psicólogos formados por essas bugigangas atuais chamadas faculdades? Você, leitor, sabe bem o que é isso? Você, leitor, entende o terror que isso representa para a criança, para o pai e, daqui a pouco, para todos nós?

Não pense você que estamos fora da mira da lei e das vozes da delação. Quando se institui o terror, todos nós somos vítimas. Pois, ao contrário do que disse a maioria dos jornais televisivos, o costume de beijar na boca os filhos pequenos não é um costume só italiano. O que a imprensa medrosa omitiu é que no Brasil nós fazemos isso. Além do mais, somos netos de quem, em boa parte dos Estados, senão de italianos?

Daqui a pouco, as coisas não vão mais ficar só na questão do beijo. Logo as fotos que pais tiram de filhos começarão a servir de material de suspeita e delação. Aguardem: o terror está dando apenas seus primeiros passos.

Sei que os conservadores, os mal-amados, os que possuem ódio do próprio corpo, os que não conseguem entender o que são relações de afeto corporal vão reagir contra este meu texto. Alguns, inclusive, vão me acusar de querer proteger pedófilos. Também fui acusado de proteger comunistas no passado. Em alguns casos, até de ser comunista ou terrorista. Conheço bem essa gente que adora a delação. Mas, do mesmo modo que, no passado, não fiquei do lado do “caça às bruxas”, também aqui reajo. Pois não podemos deixar nossas crianças e seus pais à mercê da loucura de pessoas desequilibradas, que continuam incentivando as campanhas contra a pedofilia como se, gritando a quatro cantos “pedófilo” “pedófilo”, fossem proteger alguém.

Se você sai gritando “pedófilo” na rua, acredite, as redes de pedofilia e de prostituição infantil vão se esconder. A única coisa que você vai conseguir, fazendo isso, é colocar logo um parente seu, completamente inocente, na cadeia. Porque as pessoas inocentes irão continuar com seus hábitos normais. E dentro de nossos hábitos, a carícia em nossas crianças é regra, não é exceção.

Por que há pessoas fazendo tanto barulho em relação à pedofilia? Teriam sido elas vítimas? Ou elas são pessoas sem causa e, enfim, por considerarem o sexo algo sujo, imaginam que todo mundo que se aproxima de uma criança – inclusive um pai – é um maníaco sexual? Por que estamos dando tanta voz para essa gente que não consegue ter orgasmo, que é visivelmente mal amada? Por que essa gente desequilibrada emocionalmente pode ficar no controle de mecanismos que despertam o “caça às bruxas”? O que está ocorrendo com a nossa sociedade? Esquecemos rapidamente nosso passado, quando a o clima “vale delatar todo terrorista” terminou por colocar inocentes sob o regime da barbárie.

Estamos acuados porque ninguém tem coragem de se colocar contra essas campanhas, pois há o medo de ser acusado de querer proteger a pedofilia. Ora, eu não tenho medo. Sei perfeitamente que a pedofilia é uma doença, e sei perfeitamente que os obcecados contra a pedofilia são tão ou mais doentes que os pedófilos. Aliás, não tenho mais filhos pequenos, e evito contato com crianças. Já quando era professor, tentava passar o mais longe possível de alunas. Pois a maldade estava à solta. Agora, então, nem me fale.

O que foi solto na nossa sociedade, mesmo, é o demônio. Foi esse demônio que colocou o italiano na cadeia, pois ele estava bem encarnado nos que o delataram. Agora, tudo isso só vai servir para traumatizar para sempre a filha do italiano, que está lá, na delegacia, com oito aninhos, tentando salvar o pai. Terá ela clareza da maldade que é o Brasil? Será que ela conseguirá ser sabida? Ou as perguntas irão confundi-la e ela acabará por condenar seu pai? Como irá proceder? Será que ela não vai gerar o mesmo estrago criado tantas outras vezes, onde vidas foram destruídas pela maldade da denúncia? Esquecemos assim, tão fácil, a célebre loucura feita contra os proprietários daquela escola paulista – lembram?

Sei bem que filosoficamente é Rousseau o responsável por tudo isso. Foi ele quem destituiu o poder de Descartes e Locke de dizer algo sobre a infância e a pedagogia. Tornou-se o “dono da infância”. Seu conceito de infância se tornou o conceito de infância par excelence. Com ele, as crianças viraram anjos indefesos, que precisavam continuar em estado de natureza, puras, protegidas por redomas de vidro. Quando Freud tentou falar em sexualidade infantil, isso ganhou apenas os muito escolarizados. No senso comum, a idéia é que o filho do outro é sempre adulto, e o nosso filho sempre criança. Então, não vai ser difícil ver alguns dos delatores tratando marmanjos de vinte e cinco anos como bebês, em casa, enquanto vão acusar o italiano e a criança de oito anos de estarem “em ato de pecado” – sim, só falta isso. Mas isso não vai tardar. Pois conheço bem a mentalidade reacionária de quem está sustentando essas campanhas contra a pedofilia. De ineficazes, essas campanhas estão se tornando altamente nocivas.

Embora eu saiba a origem filosófica do problema, só com filosofia eu não posso ajudar a solucionar o caso. Preciso falar claro, avisar todos claramente do que está ocorrendo. Pois não quero ver pais amorosos sendo punidos, em meu país, por amarem seus filhos. Quem iria imaginar que, um dia, no Brasil, iríamos para a cadeia por beijar filhos? Nenhum de nós pode agüentar isso. Não podemos deixar o Brasil do ódio vencer o Brasil do amor.

São Paulo, 4 de setembro de 2009

© Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo

Blog: http://ghiraldelli.pro.br

Portal: http://filosofia.pro.br

Rede Social: http://ghiraldelli.ning.com

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