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Além do Iluminismo (ou fotografia e filosofia)

13/09/2009

Câmera escuraO século XVIII é conhecido como o “século da razão” ou “o século do Iluminismo” ou “o século da filosofia”. As três expressões se fundem nos textos dos intelectuais da época e, depois, nos dos historiadores. A filosofia deve se utilizar da razão, e esta, por sua vez, deve jogar luzes sobre tudo que pode não estar sendo tomado corretamente, por estar sob alguma penumbra. A atividade da razão, no século XVIII, já não corresponde somente à atividade da razão pura, e sim ao trabalho de articulação da razão com a investigação de elementos empíricos para, enfim, por na mesa o conhecimento. Mas, de qualquer modo, a metáfora utilizada é que faz desta atividade uma tarefa única, a de jogar luzes sobre o que abraça. A razão clareia e clarifica. Uma vez tendo ela esparramado seus arautos, tudo fica claro, tudo fica iluminado e, assim, pode ser entendido e compreendido.

Quem está no escuro? O que está no escuro? A tradição e a história querem legitimar instituições, regras, leis, pessoas e comportamentos. Por não cederem à capacidade da razão de analisar tudo, de jogar luzes, são os elementos que favorecem a escuridão. O Iluminismo é isso: cada pessoa, dona de uma razão – que é a razão finita –, deve usar sua mente, sua alma, para investigar tudo e ver se o estabelecido ou que vai se estabelecer merece crédito.  Quem fala e não fornece razões, não cedeu às luzes, não deve ser ouvido.

Assim, a metáfora das luzes e, desse modo, da visão, impera na filosofia do século XVIII. Já vinha despontando antes. Mas, a partir daí, nunca mais deixou a filosofia. Um filósofo que ousa dizer que não é um iluminista ou que não tem certo apreço, por pequeno que seja, ao Iluminismo, é rapidamente olhado por seus pares com desaprovação.

Hegel diria que, não à toa, no século XVIII surgiu uma figura como Giovanni Antonio Canaletto – um homem que captou o espírito da época. Ele foi o homem que produziu as chamadas vedutas. Através da câmera escura – conhecida e compreendida por Aristóteles e mesmo antes dele –, Canaletto e outros jogaram nas telas uma projeção das paisagens e, a partir daí, o trabalho que tinham era o de manejar as tintas. Por meio dessa projeção, toda e qualquer minúcia podia ser apreendida e pintada. As vedutas são exatamente isso, paisagens urbanas, ou mesmo rurais, em que a profusão de detalhes é o destaque da obra. Cem anos antes da fotografia, os pintores deixaram a imaginação de lado para, no espírito de jogar luzes para captar o que os filósofos vieram a chamar de “a realidade como ela é”, pudessem dar retratos que deixavam os europeus boquiabertos.

Quando a fotografia em papel nasceu, utilizando o mesmo tipo de câmera Torino, Veduta Del Palazzo Reale Da Fuori Le Muraescura que as de Canaletto, o realismo detalhista já estava prestes para bater em retirada, tornando-se pintura popular apenas. Quando os pintores resolveram não mais olhar com os olhos e, sim, com a imaginação, no movimento prestes a desembocar na profusão da arte moderna, a câmera escura ficou solitária, e acreditou que seria aposentada ou, então, que se tornaria peça de pintores menores. Foi quando ela recuperou sua utilidade, acoplando-se a outros detalhes que, enfim, trouxeram para a transição do século XIX para o XX a fotografia.

Era como se o espírito do Iluminismo dissesse a todos os artistas: “Não querem mais a realidade como ela é, ousam dizer que a realidade como ela é não é a realidade? Pois, então, vou mostrar a vocês que eu não estava brincando quando trouxe comigo não só a filosofia, mas a ciência”. E eis que a ciência favoreceu a tecnologia, e a câmera escura virou a máquina fotográfica. Da máquina fotográfica ao cinema os passos foram rápidos. É como se o Iluminismo quisesse sobreviver a todo custo, tentando atropelar o Romantismo Tardio e quebrando a arte de vanguarda ao meio. A arte de vanguarda que ficasse com os artistas, o povo, por sua vez, deveria voltar ao realismo, à arte que fotografa o mundo. Fotografa, mas não mais pelos quadros, mas pela própria fotografia. A fotografia, nesta época, parecia que jamais seria, um dia, ela própria, arte.

Mas não tardou para que os próprios fotógrafos traíssem o Iluminismo. Aos poucos, eles mesmos criaram lentes não-realistas. Fabricaram todo tipo de distorção e celebraram a imaginação quando a Internet e o photoshop se casaram. Nada no mundo deve ser visto sob luzes que clarificam. Em parte, essa traição dos fotógrafos nada foi senão a realização de uma ordem de Nietzsche, obedecida tardiamente.

Nietzsche disse, no final do século XIX, que a linguagem e o pensamento não espelhavam a realidade. Muitos comentaram que essa era uma tese contraditória, uma auto-refutação. E era! Mas havia um modo de entender Nietzsche sem tal tropeço. Bastava trazê-lo para o campo do pragmatismo. Não se deveria pensar a linguagem ou o pensamento como portadores da verdade – a verdade como representação, como correspondência –, e sim como instrumentos que os humanos possuem para lidar com o mundo, no sentido da previsão e do controle.

Quem entendeu isso, também viu com bons olhos o fato dos fotógrafos terem se tornados artistas, e os diretores de cinema terem se tornado tão importantes ou mais até que os atores. Fazer valer a imaginação, e não a tal de “realidade como ela é”, se tornou de novo o que havia para ser feito. A Escola de Frankfurt, que pensou que a fotografia e o cinema iriam se transformar em mera “indústria cultural” nunca imaginou que essa indústria iria dar frutos tão artísticos quanto a vida artesanal que, talvez, Adorno tenha idolatrado.

E a filosofia, como ficou nisso tudo? Para alguns, ela é ainda Iluminismo. Para outros, como para os pragmatistas rortianos, o projeto de emancipação liberal e reformista que surgiu junto com o Iluminismo não precisa da metáfora das luzes. Não há utilidade para esse projeto reformista na concepção filosófica que idolatra a fotografia em seu sentido tradicional. Filósofos assim, entre os quais eu me incluo, a filosofia só tem alguma chance daqui em diante se ela der um passo como o que ocorreu com a fotografia e o cinema. Deve-se escapar do dilema entre “a realidade como ela é” a e ilusão. A filosofia deve se colocar como elemento de constante redescrição, capaz de poder dar a cada um que a utiliza a capacidade de intervir no mundo, conseguir melhores previsões, ter mais possibilidades de exercer algum controle sobre o meio ambiente. Quem disse que isso não tem um lado estético? Claro que tem. Grandes façanhas de controle para que possamos ser, no futuro, “versões melhores de nós mesmos” (Rorty), não raro são grandes espetáculos estéticos.

©Paulo Ghiraldelli Jr.

São Paulo, 13 de setembro de 2009

Blog: http://ghiraldelli.pro.br

Portal: http://filosofia.pro.br

Rede: http://ghiraldelli.ning.com

One Comment leave one →
  1. 15/09/2009 15:44

    Muito bom Paulo.
    Sou amante das artes e da filosofia. Quero um dia trabalhar, como diria Nietzsche, com a “filosofia como pano de fundo das artes” (o Livro do Filósofo). Este texto me deu o ponto de ligação que buscava entre a estética da arte e da filosofia, em busca do Além-do-homem, ou, a busca de “versões melhores de nós mesmos”.
    Abraço!

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