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O que é política, afinal?

16/09/2009

Obama no bump!– “Oz zome lá de Brasília é tudo cambada”.

– “Nossa, êssis pulítico, tudo ladrão”.

–  “Vixi, temo até um anarfabeto comu presidente!”

– Ah, não quero saber de política não, é algo chato, triste.

– “Voto por obrigação, acho até que o voto não deveria ser obrigatório.”

As frases acima podem ser encontradas na boca dos brasileiros. Colhi algumas, que escuto sempre.  Não raro, entre alguns aposentados, jogando damas em banco de jardim, escutamos também isso:

– “Tá um roubo só, us políticu num tem jeito, deveria fechar esse congressu aí”

Esse tipo de frase não é algo alvissareiro. Mas não revela, felizmente, um sentimento atual generalizado. Não estamos em 1964. Uma boa parte da população prefere mudar as coisas pelo voto e, quiçá, pela participação nas discussões da vida pública. Mesmo que não tenha informações sobre o que foi regime militar (1964-1985), a maioria concorda que não deve ter sido algo bom.

Mas, afinal, temos mesmo de conviver com a política? Isto é, o jogo político democrático é nossa única saída?

A política moderna, como nós a praticamos hoje, iniciou-se a partir do Renascimento e, no século XVI, deixou a marca que é ainda a que caracteriza o pensamento político e a ação política de hoje. Administramos a Cidade (1) a partir de duas noções do século XV: utopia e realismo. Em nomes, eis os heróis: Thomas More (1478 – 1535) e Maquiavel (1469-1527)

Em seu livro Utopia, More descreveu uma comunidade ideal sob um estado ideal. As regras que colocou para tal comunidade eram uma mistura de comunismo e liberalismo. Dispensou a propriedade privada e manteve firme e de modo meticuloso a idéia de planejamento urbano e de uso comum de uma série de aparatos necessários para a vida civilizada. Ao mesmo tempo, em sua ilha, tornou vigente toda a liberdade de idéias e de religião. O nome do seu livro foi uma escolha feliz: “utopia” que dizer “não-lugar”, ou seja, o lugar nenhum ou o lugar que não existe.

O excesso de regras do lugar ideal e a proliferação de detalhes minuciosamente postos para compor a cidade indicavam, inclusive, outro traço desse tipo de escrito, e de outras “utopias”: não só lugar que não existe, mas que não existirá. Foi assim que outros escritos parecidos foram então tomados, ao menos até o século XIX. No século XIX, principalmente a partir do marxismo, é que cidades imaginárias com vida feliz se casaram com o pensamento histórico, com a idéia de que haveria como seguir procedimentos para “endireitar” ou “entortar” a história, ou simplesmente fazê-la acontecer, uma vez que seu destino já seria, mesmo, a tal situação paradisíaca. As reformas e as revoluções começaram a ser pensadas, então, como processos tão planejados, para efetivamente acontecerem, como as próprias sociedades planejadas que iriam instaurar.

Maquiavel, por sua vez, fez o contraponto de época com o tipo de filosofia política das utopias. Sua obra mais conhecida, O príncipe, não tinha nada de ideal e, sim, do que veio a ser considerado mais tarde como o “realismo político”. O estado precisa ser construído e, depois disso, preservado. Para preservá-lo, o governo – o príncipe – precisa atuar segundo regras que não são as da moralidade comum, cristã, que se faz vigente entre os cidadãos do próprio estado. Eis aí o impasse.

Esse impasse pode ser resolvido, segundo Maquiavel, por meio de uma saída que, em parte, depois dele, no século XIX, alimentou a idéia de ligação entre utopia e história. Maquiavel trabalha com duas noções para explicar o que pode vir a ser o advento da política do bom governo: a fortuna e a virtù. A fortuna corresponde ao que nós podemos entender como a sorte, o que ocorre no tempo e que pode ser aproveitado. A virtù corresponde à qualidade de alguns homens de perceberem que o momento é propício para a criação do estado e conseqüente manutenção deste, com apoio da população, é claro.

Maquiavel leu os gregos e romanos e os admirava. Mas ele não pensava o tempo como os clássicos a pensaram, ou seja, a partir de um destino que deveria de se cumprir. Ele via a história a partir da metáfora do círculo, a história como um conjunto de repetições. Então, o homem de virtù, o estadista, seria aquele capaz de pegar exemplos de êxito de outros estadistas para aplicá-los à realidade.  Não à toa, um homem assim teria carisma e, enfim, apoio popular. Ele é aquele que se aproveita da fortuna e age no que seria o chamado “momento certo”, se antecipando um pouco aos fatos e, enfim, colocando a roda da história em função de objetivos que são seus, do estadista, mas, também, da própria história. É claro que a fortuna pode lhe abandonar e ele perder tudo após ter conseguido tudo. Uma boa parte da história dos heróis fundadores de estados é assim. Mas, uma vez passado o tempo, reconhece-se que, em determinado momento, eles “fizeram o que tinha de ser feito.”

Assim tomado, Maquiavel é o oposto de More. Todavia, em certo sentido, ambos compartilham de uma fé profunda na humanidade. Ambos comungam do espírito do humanismo da época. Assim, para More, se o lugar é bem organizado, não há razão para os homens não viverem em paz. Maquiavel, por sua vez, entende que os homens, o povo, sempre fará menos erros que o príncipe. Mesmo quando erra, o povo erra de modo menos problemático que o erro do príncipe. Ainda que os heróis construtores do estado sejam homens de virtù e, então, carismáticos, é o povo e a liberdade deste que sustenta o que é a melhor vida para a cidade.

A política utópica e a política realista, nesse sentido, possuem um denominador comum: partem da crença de que é possível, de alguma forma, elaborar uma regra feita por nós mesmos para se efetivar sobre nós mesmos em função do “viver bem” – o bom governo é possível. Interessante que Immanuel Kant (1724-1804), depois, no século XVIII, tenha colocado o problema da filosofia política do seguinte modo: o problema todo da filosofia política é este, o de encontrar uma carta constitucional para uma “raça de demônios”. Ao chamar a humanidade de “raça de demônios” e, ao mesmo tempo, achar que o pensamento político pode dar uma regra política para tais seres, Kant já não compartilhava, nem um pouco, do que havia ficado explícito em More e Maquiavel, que sempre imaginaram a raça dos homens como formada, enfim, por homens.

Quando hoje, nos deparamos com as frases contra a política ou com a decepção em relação não só aos governantes, mas à política em geral, não devemos de esquecer que ainda não inventamos outro modo de agir para o funcionamento da vida coletiva senão o chamado modo político. Ou seja, atuamos segundo as verdades que emergem não por uma terceira posição, vinda de fora do mundo, para regrar nossa vida, mas sempre a partir das posições imersas nos conflitos – exatamente os conflitos que Maquiavel não negou, ao contrário, reconheceu todos como sendo necessários.

Um exemplo torna claro o que é a condição da política e, enfim, da liberdade que deve reinar em uma sociedade que faz política. O caso da disputa, detonada há poucas semanas, entre a Rede Globo e a Rede Record. Há um erro de avaliação quando se reduz tal confronto a uma mera disputa de vilões. Muita gente que se diz crítica faz a pergunta: ora, quem vai ficar do lado da ideológica Rede Globo contra o falsário Bispo Macedo e vice-versa?  Mas essa pergunta não é boa, não é a pergunta de quem entende o que é a política. Quem entende o que é a política faz outra pergunta: o que se extrai de verdade dos podres que emergem de um lado e de outro, para que se possa colocar a sociedade em um patamar melhor que este? Ou seja, não há um juiz externo à política que possa dar a verdade, a política é feita pelo embate entre opositores, e o que é o correto emerge nas contingências, na apreciação que se pode dar considerando os conflitos. Sem os conflitos, não ficaríamos sabendo dos podres de um lado e de outro no grau que ficamos e, portanto, não poderíamos nem agir segundo o realismo político e nem pensar em projetar utopias necessárias. Em outras palavras, ficaríamos sem ciência e sem esperança.

Vivemos da ciência e da esperança. Vivemos de Maquiavel e de More. Pois vivemos da política e na política. Dizem que, quando formos anjos, e não tivermos mais corpos, não precisaremos mais da política. Mas, até lá, a condição nossa é esta.

© Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo

São Paulo, 16 de setembro de 2009

Blog: http://ghiraldelli.pro.br

Rede: http://ghiraldelli.ning.com

Portal: http://filosofia.pro.br


(1) Usa-se o termo “cidade”, aqui, como o significado “estado”. Mantém o nome cidade para preservar a idéia de que se está no âmbito da filosofia, querendo falar da política de um modo geral, a partir da idéia da “administração da polis”, a cidade-estado grega, ou das cidades-autônomas do Renascimento, como Veneza, por exemplo. A palavra “estado” é mais utilizada quando se trata de “estado moderno”, ou seja, algo menos geral, específico de nosso tempo.

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