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Por onde anda Mr. Spock?

18/09/2009

“…Of my friend, I can only say this… of all the souls I have encountered in my travels, his was the most… Human.”

James T. Kirk (Star Trek II: The Wrath of Khan)

Musas - As Três Graças - RafaelVocê imagina que Mr. Spock deixou a USS Interprise e, com a aposentadoria de Vulcano e mais alguma ajuda do serviço de previdência privada americana, se diverte em Las Vegas não com jogos, mas com tiradas de pretensão satíricas, pseudo-nietzchianas, jogadas contra os humanos que ali se acotovelam em cassinos e shows. Você imagina também, creio eu, que Spock não faz muito sucesso com essa sua performance. Afinal de contas, esse tipo de postura já não é nenhuma novidade e, agora, com o Dr. House na TV, vai ser difícil alguém reinaugurá-la durante um bom tempo. Além do mais, sua única verdadeira “vítima”, o Dr. Leonard “Bones” McCoy, faleceu em 1999. E quanto ao Capitão Kirk … bom, vamos esquecer, virou um tio atarracado, que adora desempenhar papéis com traços afeminados. Encontrei-o apresentado Sandra Bullock em desfiles de misses, onde a moça era uma agente da CIA etc etc.

Mas, enfim, onde está o velho capitão metade humano e metade vulcano? Perambula solitário, sem seus companheiros?

Nasci em São Paulo, não em Vulcano. Nunca foi lá muito fã das orelhas Nimoy, Três Graçaspontudas do capitão. Mas, acho que chegamos a um ponto comum. Entre o meu filosofar, uma das minhas atividades singra pelos oceanos da investigação sobre o corpo. Escrevi dois livros sobre o assunto (O corpo de Ulisses, Escuta, 1995 e O corpo, Ática, 2007) e tirei um pós-doc na Uerj com o tema. Continuo me dedicando a isso, em suas várias facetas. Curiosamente, ao menos para mim, Mr. Spock faz parte das pessoas interessadas em uma dessas facetas.

Talvez por causa daquela sua aparência, Mr. Spock tenha ficado um tanto que preocupado com os aspectos do corpo enquanto silhueta, enquanto presença que não só ocupa espaço e impõe e recebe significações em geral, mas com uma determinada significação: a do volume. O corpo feminino enquanto o corpo que ocupa lugar não de uma maneira simples, corriqueira, mas especial, como volume – eis aí uma preocupação nada ligada a Vulcano, eu acho, mas bem americana. O trabalho de Spock ou, melhor dizendo, Leonard Nimoy, agora que ele já chega perto dos 80 anos, é o de fotógrafo. Seu objeto especial: o corpo, especificamente, o corpo feminino. Um de seus melhores álbuns é o Full Body Project .

Full Body Project corresponde a um conjunto bem delimitado de fotos de “fat women”. Não são quaisquer mulheres. É bem nítido que Nimoy escolheu as mulheres com olho de lince, ou melhor, de vulcano. Pois elas são mulheres que engordaram muito, mas não falaríamos que estão deformadas. Nimoy teoriza pouco sobre seu projeto. Ele faz parte da geração autêntica de artistas que usa aquilo que o filósofo Arthur Danto qualificou como o resultado do “fim da história arte”.

Clássica de Lucien-FreudEste fim da arte e fim da história da arte, para Danto, se dá a partir de trabalhos que dispensam o filósofo que disserta sobre a estética e sobre teoria da arte, pois os próprios trabalhos – as “Art Work” – são reflexivos, eles próprios pensam a arte e, enfim, são criadores de filosofia por si mesmos. The “Fountain” de Duchamp seria um marco do fim da arte. Depois veio Warhol e toda a parafernália que fez os filósofos baterem em retirada, deixando Adorno sozinho, chupando o dedo. Enxergo Nimoy dessa maneira: seu trabalho, por si só, filosofa. No caso, entre outras coisas, filosofa elegendo a mulher como elemento para tal.

Por mais que falemos em feminismo e ascensão da mulher na sociedade pós II Guerra Mundial, não é possível deixar de notar que há algo de simbolicamente significativo na presença feminina, em todo e qualquer cenário, que parece não mudar. Trata-se da delimitação do espaço, da ocupação do espaço pelo corpo feminino. Os cenários todos da vida, físicos ou simbólicos, reais ou imaginários, são construídos levando em conta que a mulher ocupa menos espaço que o homem. Quando sozinha em uma propaganda (um outdoor, por exemplo), a mulher pode ocupá-lo toda, mas basta que a presença masculina se insinue no horizonte e todo o espaço é remodelado de modo que o corpo feminino, ainda que continue geograficamente grande, perca substância, divida centralidade ou, até mesmo, retorne ao lugar pequeno. É como se em qualquer lugar sempre se reproduza a divisão instaurada pelo lar moderno, aquele realmente construído no século XX em nome da libertação feminina: a cozinha vai se tornando menor e, se os criados vão desaparecendo, a cozinha se torna minúscula, mas, no entanto, ela ainda é o lugar próprio da mulher. Nimoy traz mulheres grandes, pesadas, robustas, belas e espalhafatosas para a cena. Definitivamente: elas não cabem na cozinha moderna. E a cozinha antiga, já desapareceu. Para roubar espaço delas é preciso muito. Ou seja, tudo que se possa colocar a mais, na cena de uma foto de Nimoy, nesta coleção, parece que ficará secundário, diferente do que pode ocorrer com qualquer outro tipo de foto artística.

O mais interessante dessa ocupação de território testemunhada pela câmera de Nimoy é que os cenários são adrede preparados – especiais para o seu trabalho filosófico de redescrição (Rorty). Na verdade, os cenários não são tão preparados pelo próprio Nimoy, mas pela arte mesma, pelo modo como ela tradicionalmente se comportou. Até então, mesmo quando teve a mulher no centro, ou mesmo quando a pintou gorda, as artes visuais não a trataram como o que pode se derramar sobre o planeta. Ou seja, pela carência é que a arte deixou um lugar para Nimoy dizer: “ah, falta algo aqui, faltam quadros em que a mulher ocupe a cena definitivamente, e mesmo que se invente de colocar ao lado dela qualquer outra coisa, esse novo objeto não passará de qualquer outra coisa”. “Falta os corpos das mulheres aqui, sem que se tenha de exigir deles dieta ou qualquer coisa que nunca se exigiu do homem”.

Pode-se dizer: ora, qual a novidade de mulheres gordas? Muita. Toda novidade que merece ser nova. As mulheres mais gordinhas do Renascimento nunca tiveram peso! Eram até mais leves que algum magro Jesus da pintura medieval. A mulher gorda de gente como Lucien Freud é disforme, ganha o quadro pela bizarrice. As de Nimoy entram em toda essa arte da pintura, agora em forma de foto, para refazer cenas. Não raro, ele utiliza exatamente de cenas clássicas da arte, e até mesmo da arte pop – como o cinema –, para servir de moldura ou sketch para um novo quadro seu que, então, ocupa um lugar na coleção. Quadros clássicos são refeitos por suas modelos gordas, de modo a criar uma espécie de quase paráfrase, uma redescrição mesmo, e então a foto é obtida a partir dessa disposição, o que repõe o corpo como centro da arte, e não como coadjuvante de jogo de luz e sombra e cores. Repondo o corpo, com aquele volume, no centro da obra de arte, o choque no imaginário social é imediato. Não há como não pensar: mulheres não cabem em qualquer lugar.

Mulheres não cabem em qualquer lugar é uma frase revolucionária. Comece a pronunciá-la e verá o poder dessa metáfora. Só então verá o papel de intervenção filosófica da redescrição executada por Nimoy, suas modelos e sua câmera.

Tudo corre como se Nimoy estivesse dizendo: agora sim, há algo de feminino no mundo da dominação masculina que perdura. Só agora faz sentido para mim a frase do Capitão Kirk, que usei de epígrafe. Nimoy trouxe para a fotografia o que há de corpóreo em seres que nada são senão corpos – nós, os humanos.

Paulo Ghiraldelli Jr.

Rede: http://ghiraldelli.ning.com

Blog: http://ghiraldelli.pro.br

Portal: http://filosofia.pro.br

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