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O país em que o passarinho comeu os homens

28/09/2009

Bird Luciano Huck chegou a mais de um milhão de seguidores no twitter. É o primeiro brasileiro a alcançar essa marca. Não é o microfone da Rede Globo que ele tem agora. É algo até maior que isso. Ele tem um milhão de pessoas que escutam o que ele tem a dizer, livremente. Mas ele não tem absolutamente nada a dizer. A fama, o empurrão da Globo, a riqueza e, enfim, o twitter lhe dão a oportunidade de dizer algo que será realmente ouvido pela juventude, mas ele não diz nada. É um dos casos mais fantásticos de inutilidade na conquista da liberdade.

Daqui uns meses, talvez semanas, isso nada significará. Talvez até o próprio twitter, na forma como está se apresentando, não tenha mais nenhum significado. O que importa, pelo momento, é o triunvirato instaurado: seguidores-twitter-Huck. Apesar do triunvirato ser um “fenômeno da mídia”, nenhuma comunicação se estabelece ali. Cria-se uma ligação, é claro e evidente, mas é algo que até parece místico, uma vez que as duas partes humanas do triunvirato se deixam subsumir pela parte não viva, a Internet, ou seja, o mecanismo do twitter. O twitter, que é o morto, acaba por ser o único vivo da história. Você abre aquilo e vê os escritos chegarem ali, uns vão dos fãs para o Luciano, outros do Luciano para os fãs, mas como os tweets são vazios de conteúdos relevantes para qualquer um dos lados, não é possível dizer que há algo vivo ali a não ser o próprio twitter. O conceito de vida que ali emerge volta a ser aquele mais simplório: o vivo é o que se movimenta. Como o campo de vida é o virtual e o que se movimenta ali são só as grunhidos que surgem no pequeno espaço de 240 caracteres, a vida é dada, então, pelo processo maquinal.

Alguns podem ficar tentados a dizer que isso nada significa e que as coisas são dessa maneira somente entre Luciano e seus fãs somente. Imagina-se que se houvesse alguém que tivesse o que dizer, de um lado, e outros com vontade de aprender e trocar, de outro, tudo seria diferente. Mas, não é bem assim. O modelo seguidores-twitter-Huck não fez sucesso à toa. Ele é um modelo poderoso. Tanto é que ele é repetido, caso se tire da jogada uma das peças mortas, o Luciano, por exemplo. Aliás, é exatamente isso que vem ocorrendo. Os jovens já nem se importam mais se é o Luciano ou o Rafinha ou o Jô Soares que estão ocupando uma das pernas do triunvirato. A idéia de que o vivo é a máquina – e e não as outras duas partes que, antes, pareciam ser o que era vivo –  fez tudo mais fácil para que se possa aposentar uma das partes. Afinal, o que é morto pode ser trocado. Deve ser trocado.

Destrói-se o triunvirato e a relação passa a ser dual. O twitter é o vivo, os seguidores, que então seguem uns aos outros sem mais a mediação das celebridades, aumentam rapidamente o seu número por si mesmos – e isso em progressão geométrica, talvez exponencial. O conteúdo do twitter, então, é completamente esvaziado. Da frase sem importância das celebridades passa-se ao grunhido do tipo “eu indico @bigbunda @batatabode @pattyvagabrega @xanditravessa @marombola @cabeluda@ @picadevinil @xxdemais e por aí vai. Junto das indicações, nenhuma frase, nem mesmo um dito popular copiado. Nada.

As estratégias para aumentar o número de seguidores, sejam eles quais forem, são variadas. O número e a quantidade matam de vez o vivo e a qualidade. Quem mandou Huck não dizer nada e Jô Soares repetir o que vem dizendo há anos e Rafinha ser um chato? Uma vez que ninguém tem mais nada a dizer mesmo, uma vez que a liberdade daqueles que tiveram toda a liberdade não se mostra útil, os twitteiros se viram diante de uma única via, a saber, a de agarrar ao que restou de vivo, ou que se parece com o que eles entendem que é vivo. Esse algo vivo é o painel de 240 caracteres. “Está vivo – ele se mexe”.

Como primitivos diante de um animal quieto, que repentinamente se move, os twitteiros gritam “está vivo”. Pronunciam isso, em um grito engolido, que nem mesmo vai para a tela. Mas, pelo fato de ainda conseguirem ter essa reação, imaginam que ainda estão vivos também.  Nessa hora, dá-se a vitória fantástica da máquina sobre o homem, ou do mecanismo que o homem criou sobre ele mesmo. Pois é o mecanismo morto que ensina o que é o vivo, repondo uma noção que faz o homem voltar à condição mais primitiva que já experimentou.

Justamente no momento que o blog se torna democrático, podendo ser utilizado por toda a juventude e, enfim, na hora que os sites de hospedagem de blogs começam a derrubar o Orkut – que só serve para a inclusão digital brasileira –, a maquina reage. Ela não pode deixar que a inteligência reapareça, pois isso a colocaria, novamente, em posição secundária. O mecanismo parece perceber que o homem quer recuperar seus modos de comunicação e inteligência, e então dá novo ataque, a criação do twitter.

Programado para ser um fantástico e rápido meio de comunicação, algo que poderia potencializar os blogs e, então, virar uma correia de transmissão extra-poder, o twitter é primeiro monopolizado pelas celebridades que, egoisticamente, são seguidas e não seguem ninguém. Depois,  em uma vingança contra este egoísmo, a máquina aposenta até mesmo as celebridades. Daqui há alguns dias, algum garoto completamente desconhecido terá mais de um milhão de seguidores. Provavelmente terá tanto a dizer quanto Luciano Huck, que nada tem a dizer. Mas já não importará mais nada. O twitter já terá desaparecido diante de uma nova maneira de pseudocomunicação, uma nova etapa da reificação de nós mesmos e da fetichização de nossas criações.

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo

(1) Espero que algum leitor ainda se lembre que o título faz alusão à célebre passagem nos clássicos da economia, sobre “o país em que as ovelhas devoraram os homens”. O retrato da Inglaterra em que, por conta da indústria têxtil, se mudou completamente a organização do campo, fazendo a criação de ovelha expulsar o agricultor.

Rede: http://ghiraldelli.ning.com
Portal: http://filosofia.pro.br
Blog: http://ghiraldelli.pro.br

Twitter: http://www.twitter.com/ghiraldelli

5 Comentários leave one →
  1. tributoxtempo permalink
    28/09/2009 22:48

    Data venia, o título deste artigo melhor seria: Presto atenção ao que “eles” me dizem, mas “?” não me dizem nada.

    • 29/09/2009 2:21

      O texto não é sobre não dizerem nada, o texto é sobre a reificação e o fetichismo, conceitos de Marx, ou seja, a inversão em que o morto assume o lugar do vivo. Lembrou?

  2. 29/09/2009 16:24

    Oi Paulo

    Gostei muito do texto e da relação que fizestes com as categorias de reificação e fetichismo. Aliás, por conta do fetichismo o twitter media uma conversa sem diálogo. (um colega meu chama de ejaculação precoce)

    Compartilhei o textono GReader e vim aqui reclamar do teu feed que está tipo twitter – só com 140 caracteres… Contradição, neh🙂

    bjs

    Suzana

  3. 03/10/2009 2:40

    Reencontro?

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