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E não é que os deuses antigos eram brasileiros!

03/10/2009

OLIMPÍADA/ELEIÇÃO/RIO 2016Os gregos antigos viviam em cidades-estados independentes. O que fazia alguém que morasse em Atenas ser tão grego quanto alguém que morasse em Esparta ou Tebas não era a política, mas a religião e a língua. Estes eram os dois elementos culturais que faziam o tebano se achar tão grego quanto o ateniense e o espartano. A Grécia não era um estado, um país, mas era uma nação. Inclusive, essas cidades-estados guerreavam entre si – para valer. Mas havia uma época em que entravam em paz. Era a época dos Jogos Olímpicos.

Os jogos eram a época de paz e o que dava a unidade para a nação grega. Pois a Olimpíada era uma festa religiosa. Ir aos jogos e ver os vitoriosos era presenciar a manifestação da vontade dos deuses. Os vitoriosos estavam ali pelos deuses, e os que vencessem mostravam que haviam sido os escolhidos por eles, inclusive por conta das habilidades que apresentassem, segundo a habilidade característica de cada entidade divina.

Só os homens podiam ir para o Estádio. E iam nus. Todos – atletas e público. As mulheres jamais iam. Mas elas sabiam, perfeitamente, que as deusas iam, pois nem todo vitorioso era escolhido por deuses homens, haviam aqueles escolhidos por deusas. Então, elas faziam todo um esforço conjunto, tanto quanto o dos homens, para que os Jogos Olímpicos acontecessem.

Os Jogos marcavam o calendário grego e eram o momento – único – de paz inquebrantável. Qualquer tratado de paz poderia, enfim, encontrar alguém desobediente e, assim, fracassar. Mas na época dos Jogos, não era necessário nenhum tratado. A paz vinha como uma regra inabalável, sem que fosse necessário qualquer aviso seja lá de quem fosse.

Passado muitos e muitos anos, um fato interessante foi notado em vários episódios de conflitos entre árabes e israelenses, no Oriente Médio moderno. Havia um momento diário de paz, inquebrantável. Não era necessária qualquer negociação para tal. Batia a hora e a paz se dava. Qual hora? Em dois momentos: na hora da novela (brasileira), passada em canais árabes e israelenses, e na hora em que a TV iria apresentar futebol internacional em nível de Copa ou Olimpíada. Ainda hoje é assim, quando há algum conflito naquela região. Os deuses gregos até estão ali por perto, mas não mais são evocados. No entanto, vale o mesmo comportamento do grego antigo, ou quase o mesmo, quando o esporte (e o teatro) se interpõe. Os deuses gregos não são chamados, mas não deixaram de atuar.

Essa idéia de que o esporte (e o teatro – tão próximo do esporte e, em determinadas circunstâncias, quase a mesma coisa) é um elemento capaz de se tornar uma linguagem universal de promoção da boa convivência entre pessoas muito diferentes, é uma verdade. A idéia de que o esporte arranca as pessoas de uma vida do erro para uma vida melhor, é uma verdade que toda vez que é contestada por algum fato empírico, logo depois é retomada por vários outros fatos, também empíricos. Por isso, no momento em que o Rio foi declarado vencedor na disputa por ser sede de uma Olimpíada, na sexta feira dia 2 de outubro de 2009, houve uma explosão de choro e riso entre muita gente, principalmente entre os atletas olímpicos que estavam na praia de Copacabana, esperando o resultado. Cada um ali sabia muito bem o que o esporte havia feito por ele e o que poderia fazer, uma vez incentivado, pelas crianças pobres do Rio de Janeiro.

A história de um campeão olímpico nem sempre é a história de um menino pobre que saiu das drogas e do roubo, e de um destino trágico, por conta do esporte. O inverso é mais verdadeiro. Todavia, a questão que se põe não é a da história de cada atleta olímpico, mas o quanto cada atleta, cada equipe, cada competição faz com que tudo seja mobilizado para que outros queiram entrar na escola do esporte. A escola da paz, da disciplina, do querer bem, da valorização do esforço e da habilidade do outro – essa escola do esporte só se amplia quando há uma Copa ou uma Olimpíada.

Uma Olimpíada gera construção, hotéis, turismo, planejamento de centenas de companhias de todo tipo, estatais e privadas. Até se chegar a 2016, o Brasil terá feito um enorme esforço para receber a festa desportiva. Terá gerado empregos e empreendimentos que, de outra forma, não existiriam. Isso, junto com a sorte do Pré-Sal, pode fazer o Brasil realmente cumprir o seu destino de “país do futuro”. Mas o benefício é também outro. Para se chegar até uma Olimpíada, de modo natural, a comunidade esportiva começa a se mover. Há a motivação dos atletas da casa e, conseqüentemente, a multiplicação dos espelhos.  Cada atleta é um espelho para uma criança e jovem. Assim, o efeito de multiplicação de se seguir o caminho do bem, é ampliado em progressão geométrica. Com todos os holofotes sobre isso, de 2009 até 2016, pequenos espelhos se tornaram enormes painéis. Tudo de bom que muitos países conquistaram por conta de “esforço de guerra”, vai surgir no Brasil, nesse tempo, por conta do “esforço de paz”. As cidades que foram sede de Jogos Olímpicos sabem disso.

É exatamente isso que faz com que muitos de nós, que podemos até achar que Lula não sabia bem a razão de ter chorado como chorou na hora da escolha do Rio, saiba bem que valeu a pena chorar naquela hora. Foi uma imensa vitória da Cidade Maravilhosa. Uma sorte incrível do Brasil. Vamos ter de saber aproveitar esse presente dos deuses gregos, estes também, agora, brasileiros.

©Paulo Ghiraldelli Jr. Filósofo, autor de O corpo – filosofia e educação, pela Ática.

São Paulo, 03 de outubro de2009

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2 Comentários leave one →
  1. tributoxtempo permalink
    03/10/2009 18:58

    Parabéns filósofo e professor (que muito me educa mediante seus escritos e vídeos) por este artigo elogístico à cultura pelo, para e com o esporte uma vez que, também, compartilho da ideia de que este (o esporte) modela o caráter humano.

  2. 12/10/2009 9:18

    Não entendi nada do que escreveu, mas tudo bem, já que discordou!

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