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Por que a religião se preocupam tanto com o sexo

12/10/2009

Religião e SexoAs religiões são formas de moral popular. Nietzsche acertou ao nos lembrar disso.  Para além do que podem dizer crentes e anti-crentes, é difícil negar o caráter pragmático-moral das religiões, aquilo que William James chegou a identificar com a verdade do credo religioso. As sociedades modernas, nascidas dos ideários laicos do século XVIII, sabem dessa utilidade das religiões. Assim, a esperança de todo governo político moderno é de que, se há o que não tem uma vida dirigida por uma moral fornecida por um código laico, pode-se apostar que este, ao menos, não escapará de ter um código moral mínimo, dado por sua religião ou pelas difusões desta.

Quando focalizamos este caráter da religião, vemos que todas as práticas religiosas ocidentais comungam uma preocupação básica. Trata-se de algo inicial, original: as religiões, todas elas, começam por distinguir os homens dos deuses. Várias delas, aliás, nada fazem além desta tarefa, a de criar nos homens o sentimento de que eles não são os deuses. Homens são homens, deuses são deuses – eis os dizeres grafados em todos os templos. Homens vivem em bandos, deuses podem viver solitários.

Nietzsche não acertou muito ao dizer que se não fosse o baixo ventre nós nos acharíamos deuses.  Não, caso o baixo ventre resolvesse tudo, não teríamos a religião. Perdemos a condição de deuses uma vez submetidos aos caprichos do baixo ventre? Ora, por quantos minutos? Quanto segundos? Não! O baixo ventre e tudo aquilo que nos coloca de volta à condição de quadrúpedes não é o suficiente para nos convencer de que não somos deuses. Por isso, nós mesmos inventamos um substituto do comando dos genitais sobre nós – a religião. Não à toa as religiões se preocupam tanto com o sexo. Pois é sexo o seu real e único concorrente. A religião vem dizer com palavras e rituais exatamente o que o sexo quer dizer com os impulsos do arrebate. A religião elabora de mil e uma maneiras argumentos, práticas e situações para que possamos nos convencer de seu principal recado – o de que não somos deuses – como se ela soubesse, perfeitamente, que se ouvirmos isso de nós mesmos, através de uma parte de nós, o baixo ventre, não ficaríamos convencidos o suficiente.

Quando queremos ir para um lado e uma parte de nós nos faz retornar para o prazer e ou para o perigo da perdição de nosso ego, ou seja, tudo o que é prometido pelo baixo-ventre, deveríamos entender, exatamente por causa disso, que não somos deuses. Mas não! Isso é pouco. Por incrível que pareça esse pathos não é o suficiente para assegurar nosso ethos – ou o que deva ser nosso ethos, para o bem de nossa sobrevivência. Então, inventamos algo que possa berrar, e não apenas sussurrar. Uma vagina ou um pênis são órgãos de sussurro quando comparados com o produto chamado religião. A voz de religião é a do grito, do estardalhaço, da força do exemplo e do poderio de oráculos, sacerdotes, templos, oferendas e mais centenas de outros detalhes.

Precisamos de uma força maior que o baixo ventre para que possamos nos convencer que não somos deuses. Pois, apesar de nossa fragilidade evidente perante o mundo, nossa disposição de nos enxergarmos como supremos no universo é assustadora. Schopenhauer lembrou que um homem moribundo, se dele lhe é retirada a dor, rapidamente toda a sua capacidade de se acreditar eterno e poderoso reaparece. Podemos ter todo tipo de qualificativo, mas, o que não temos é o da humildade. As paixões a que o baixo ventre nos faz cair não nos dá a humildade que deveríamos ter para sermos humanos. Logo nos recobramos delas. A religião acredita poder desenvolver paixões, com tal propósito, de modo muito mais eficaz. Aliás, nesse afã, certas religiões chegam até a ser cômicas – superando a parte cômica do sexo, o rival. O cristianismo, por exemplo, chega a tal idolatria da humildade que, ao final, a nega. Cada cristão quer ser mais humilde do que o outro e, então, em uma paróquia, há as eleições sucessivas dos mais humildes – chega-se os reis da humildade. De tanto desejo de não ser nenhum deus, o devoto vira santo.

Uma das religiões que ofereceu o lombo para a cavalgada das crenças judaico-cristãs no mundo ocidental moderno foi o paganismo greco-romano.  No seu início, sua preocupação era exatamente esta: a de lembrar os gregos que por mais que pudessem exibir a hubris (ὕϐρις, hýbris: a desmedida, a falta de comedimento, o orgulho), eles teriam de olhar para o que estava escrito no Templo de Apolo para não se perderem. Eles tinham de ler lá o “conhece a ti mesmo”. Nenhuma das religiões ocidentais abandonou esse preceito, ao contrário, todas elas o aceitaram e o desenvolveram. Os cristãos fizeram de tal enunciado o seu mais fervoroso mandamento. Não podia ser escrito pela Igreja, uma vez que era pagão, mas foi ele que, uma vez modificado pelos padres da Igreja, serviu como esteio para o que veio a se tornar uma das mais importantes práticas da religião ocidental: o ritual do confessionário.

No confessionário temos de ampliar o grau de conhecimento sobre nós mesmos e, então, averiguar nossas intenções, desconfiarmos delas e, assim, relatarmos tudo isso ao padre. Ele nos dá a penitência. Mas só vamos nos salvar se pudermos realmente purificar nossa alma, e tal coisa se faz por meio de uma paixão, um afeto – devemos de estar afetados pela culpa e, então, por meio do arrependimento é que nos consideramos livres. Sem isso, nos mantemos soberbos, queremos estar acima de tudo e, enfim, repetimos o sentimento identificado como perigoso para os gregos, a hubris, e não conseguimos abraçar a humildade. Qual é, de fato, o pecado que estamos querendo identificar e apagar? Ora, o de nos imaginarmos deuses –os que não são comedidos.

Ora, mas porque a religião, tomando a dianteira em relação ao baixo ventre, surgiu com essa tarefa de separar quem são os deuses e quem são os homens? Pela razão dita por Nietzsche: a religião é uma moral popular, um cimento moral para o funcionamento social. E uma sociedade só pode ser uma sociedade se for uma morada de humanos, pois os deuses nunca aceitaram viver em sociedade.

Pode existir uma cidade dos deuses, uma região dos deuses, um reino dos deuses, mas nunca haverá uma sociedade de deuses. Os deuses, sejam eles quais forem, nunca gostaram de viver em sociedade. A sociedade sempre traz a idéia da mútua dependência de seus membros e da necessidade do comedimento. Os deuses jamais aceitaram serem regulados pela mútua dependência e pela auto-limitação. A história dos deuses pagãos é uma história de caprichos. A história de Jesus, o mais humilde dos humildes, também é uma história de idiossincrasias. Jesus não obedeceu pai e mãe e seguiu seu caminho a despeito deles. Jesus falava com autoridade e se dava ao luxo de ordenar, jamais pedir. Quando pedia, pedia ao pai que, enfim, era ele mesmo! Talvez sua relação menos autoritária tenha sido com Maria Madalena – mas não com Marta. E até em relação à morte, quando esta abateu Lázaro, ele fez pose, ordenando que o defunto, já não muito fresco, se erguesse. Os deuses se impõem como personalidades. Não raro, como loucos. Eles sabem mais, não são mortais, possuem mais coragem que todos e, enfim, às vezes se dizem criadores do mundo – o que não é pouca coisa! Não precisam de elos sociais.  Um mortal precisa emprestar uma xícara de café de um vizinho. Um deus, nunca!

O homem se acredita um deus, mas tem de viver em sociedade. Poderia ser lembrado todo dia, pela vagina ou pelo pênis, que não é um deus, pois um deus não fica de quatro e muito menos perde seu auto-domínio no amor erótico. Mas a sociedade exigiu mais que aquilo que a vagina e o pênis podem lhe dar de segurança. Eis que inventou a religião. Esta sim prega ao homem todo dia o que é necessário para que a sociedade não pereça: conhece a ti mesmo, revele-se, confesse, veja o quanto não é um deus.

A religião apareceu exatamente no momento em que surgiram os eunucos e as frígidas – aqueles que, imune às ordens do baixo ventre, se sentiram sempre poderosos e, portanto, deuses. Contra estes, ainda há uma arma: a religião. Desse modo, ninguém, na sociedade, pode achar que prescinde da sociedade. A mulher mais frígida e o mais eunuco dos eunucos se reconhecerá, pela religião, como aquilo pelo qual Nietzsche adorava chamar o homem, um “animal de rebanho”. Eis o império do nosso ethos.

Paulo Ghiraldelli Jr.

© São Paulo, 12 de outubro de 2009

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4 Comentários leave one →
  1. 16/10/2009 3:40

    Moral? que moral? Diga!

  2. 16/10/2009 3:41

    Moral sem estar vinculada à religião. Códigos morais laicos, existem e a gente segue. Mas, em várias regras, eles se confundem com nossos códigos morais de origem religiosa, claro. Só isso.

  3. The Ecstacy of Gold permalink
    17/10/2009 21:42

    Caro Filósofo Paulo,
    Com base no fílosofo Sócrates posso dizer que: “todo vício é passível de controle e, no exato momento deste (auto-controle), tornamo-nos deuses. Com isso sois deuses, sois tudo e sois nada”. Contrariando assim a religião e a dicotomia por ela difundida.
    ?

    • 18/10/2009 2:21

      Veja que o meu texto eu considero Sócrates e a filosofia derrotada já de princípio, colocando no seu lugar a religião e o sexo. Mas, para as elites, tudo bem, pode ser a filosofia.

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