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Filosofia da bunda, poesia dos seios

17/10/2009

FrenteCarlos Drummond de Andrade foi mineiro recatado, funcionário público e poeta. Diferente de Fernando Pessoa, que teve mais de oitenta pseudônimos e, talvez, tantas personalidades quanto este número (mostrando que ele não era pessoa, e sim pessoas), Drummond teve vida mais fácil, pois se viu na condição de conviver apenas com três pessoas diferentes em si mesmo.

O Drummond poeta escreveu poesias eróticas, picantes mesmo. O Drummond funcionário resolveu não as publicar. O Drummond mineiro as deixou em lugar fácil de serem achadas, para que alguém as publicasse como póstumas.

Drummond escreveu Farewell. O nome do livro realmente é verdadeiro: as poesias ali contidas são de despedida. Coisa de poeta, e até de funcionário público. Mas, não coisa de mineiro. Pois como mineiro, Drummond só fingiu que estava se despedindo ali. Havia na gaveta as tais poesias eróticas esperando o seu momento.

Em nenhuma das poesias eróticas Drummond decai enquanto Drummond. E em uma delas o poeta abandona o funcionário público e o mineiro recatado para alçar vôo na condição de quase libertino – mais para Bocage do que para Sade, sem dúvida. Ou talvez, eu diria, trata-se de um geógrafo do relevo da mulher. O poema em questão se chama “A bunda que engraçada”.

Drummond começa pela bunda e termina pela bunda. Mapeia a bunda. Num determinado momento, cansa da geografia e então lança mão da história e até da psicologia. Conta a respeito do egocentrismo da bunda. Enquanto todo o resto da anatomia da mulher precisa de complementos para a diversão, a bunda se diverte sozinha e basta a si mesma. Mas que não se pense que ela, por esta pretensa auto-suficiência, é vítima do rebote psicológico da euforia passageira. Não! A bunda não sofre do mal moderno, da solidão. Eis a razão, Drummond explica: ela é duas em uma!

Assim, xifópaga, a bunda troca idéias consigo mesma sem precisar da versointrospecção. Uma nádega mostra para a outra como meneia gostoso. Uma vai, a outra vem. Uma vem, a outra vai. Sabe quando estamos andando na cidade e um circular cruza com o outro de forma lenta? Os motoristas trocam algumas palavras e riem. Pois é, eis aí o cruzamento de uma nádega com a outra. Fugaz, despreocupado, descompromissado – uma sorri para a outra e vai pelo seu caminho para em seguida voltar e repetir o gesto. E se você imagina que o motor do ônibus está sujo, esqueça! Você logo vai descer e isso, afinal, não é problema seu. Drummond consegue fazer da bunda alguma coisa que não é só para sentar ou para fazer sexo. Trata-se de algo para mais, ou seja, feito para rebolar. Nisso, nada há que a desabone.

Tudo que Drummond quer da bunda é que ela celebre a vida, pois a vida bem vivida é redonda. Por isso a bunda é vida nesse sentido de esbanjamento e alegria, ou seja, a bunda atua melhor no rebolar. Desde o início Drummond avisa que a bunda não é trágica. Ela é da arte grega da graça, não da catarse. Ninguém tem catarse com a bunda. Ah! Desvencilhe-se do que pensou, pois isso que pensou não é catarse, e é culpa dos intestinos, não da bunda!

Mas, a bunda alegre também é filósofa. Nisso, ela é colega de trabalho de Drummond. Pois ela insiste que há aqueles que também são redondos, ou quase isso, mas são garotos ainda, têm muito o que estudar. São os seios. Não, não pense que isso é nacionalismo do mineiro que, não tendo praia, nunca viu o estrangeiro chegar. O menosprezo de Drummond e da bunda pelos seios é porque estes não fazem graça. Os seios não são objeto de graça. Um homem pode rir da bunda de uma mulher e ainda continuar seu amante. Mas um homem não pode rir dos seios de uma mulher e continuar vivo.

Drummond não diz nada dos seios além de uma única frase que, afinal, é de desprezo. Desprezo dele e da própria bunda. De fato, os seios não participam daquilo que a bunda quer fazer. É que os seios fazem amor enquanto que a bunda faz sexo. Os seios são um presente oferecido por um bom decote em um baile de debutantes dos anos 50 e 60. Ora, a bunda é o que, bêbados, agarramos no final de um baile de Réveillon qualquer. Os seios vão ao camarote da ópera, a bunda vai para o carnaval. Os seios gostam do teatro, a bunda, no máximo vai ao circo. Os seios são guardados em potes, traje que fez cem anos há pouco tempo. A bunda é puta velha, já estava enrolada em ceroulas e panos bem antes. Os seios aparecem junto com a sexualidade da mulher. A bunda não, ela está lá desde sempre, e quando vira órgão sexual o faz meio que sem consciência. Os seios sabem a hora da volúpia. A bunda não sabe nada, quando vê, já foi tudo. O homem toca os seios, mas o homem nunca toca a bunda, a bunda é “para passar a mão”. Os seios são nobres, a bunda é plebéia.

Assim, ao fazer a apologia da bunda e o desprezo dos seios, Drummond foi antes um filósofo do Terceiro Estado que um poeta. Mas só como poeta conseguiu homenagear o populacho. O populacho, sabemos, gosta da bunda.

© Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo

São Paulo 17 de outubro de 2009
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