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Zé Carioca em ritmo de desventura

26/10/2009

O Rio de Janeiro era a capital do Brasil. Dentre as nossas cidades, era a mais cosmopolita. Era o nosso cartão de visita e o centro mais politizado do país. Tudo que acontecia no Brasil ocorria antes ou com a melhor intensidade no Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, o Rio acumulava a condição de cidade turística acolhedora, onde imperava a liberdade. Nossa liberdade, no Rio, era tão ampla quanto a Baía da Guanabara vista do lá Cristo Redentor. Durante o dia as musas da praia inspiravam os poetas. À noite, nas boates, excitavam o marido alheio. Esse foi um tempo em que nós podíamos ter coisas bem parecidas com aquelas que outros povos tinham, ou seja, o carteado, a roleta, o lança perfumes, a social democracia cabocla do Partido Trabalhista de Jango e o republicanismo rebolante e conservador de Carlos Lacerda.

Entre nós, é claro, havia alguns que reclamavam disso tudo. Ficavam chateados porque o Rio de Janeiro era a capital só para nós, enquanto que o mundo todo reconhecia como nossa capital, Buenos Aires. Mas isso não deveria importar, uma vez que o Pato Donald, quando quis fazer amigos, escolheu Zé Carioca. Zé Carioca! Ah! Zé – Zé Carioca. Walt Disney acertou em cheio quando deu à luz o simpático papagaio.

Naquele tempo, no final dos anos 50, nós não pensávamos que tínhamos de ser representados por uma estrela. Estrelas, para nós, eram as estrelas da companhia de aviação Cruzeiro do Sul, que deveria casar-se com a outra nossa melhor companhia do mesmo ramo, a Varig. Como tínhamos orgulho desses símbolos. Eles representavam o nosso esforço de nação em busca de um Welfare State especialmente brasileiro. E se não imaginávamos que podíamos ser representados por estrelas, muito menos pensávamos que o animal brasileiro fosse o tucano. Não, o animal brasileiro par excellence era o papagaio. Nosso real representante era um animal falante e verde, verde como a Amazônia que, naquela época, era o potencial pulmão do mundo. O animal verde, nosso símbolo, era o papagaio. E esse papagaio falante, malandro, tinha de ser carioca e não podia ser outra coisa senão um Zé – um Zé carioca.

Mas, do mesmo modo que Adão e Eva se entediaram do paraíso, nós, um dia, também nos cansamos desse mundo idílico que vivíamos. A “garota de Ipanema” achou que o Sol da praia mais lhe dava câncer que felicidade. Paramos de andar de bonde e de trem para circular de automóvel. Começamos então a nos modernizar. Modernidade era a palavra de ordem e, junto com ela, vinha a palavra planejamento. Todavia, tínhamos um problema nisso tudo. Um falso problema, mas que veio à tona como verdade. Como ser moderno e planejador sendo carioca? O Brasil todo começou a acreditar nisso e, em determinado momento, até mesmo o carioca imaginou que isso era um problema. Então, pelo voto, achamos melhor colocar no comando da nação, bem dentro do Rio de Janeiro, um médico mineiro – o JK. Esquecemos que, por definição, um mineiro não sabe o que é praia.

Muito antes disso, no Rio de Janeiro, um mulato epilético chamado Machado de Assis havia nos avisado para não confiarmos em médicos. Um desses, como nos contou Machado, havia cercado uma cidade toda após tê-la decretado insana. Assim, estávamos avisados que uma coisa chamada positivismo e outra chamada ciência não poderiam ficar soltas por aí. Mas ficaram. E o médico mineiro com nome de chapa de carro teve uma idéia parecida com a do médico de Machado: como no estado dele não havia praia, ele achava que as pessoas melhores são aquelas que nascem longe disso, as que nascem no meio do sertão. E num estágio de megalomania avançada associado à abstinência sexual, ele inventou algo bem pior do que o médico do Machado – ele criou o refrão “50 anos em 5”.

“50 anos em 5”. Ora, 50 anos são 50 anos. 5 anos são 5 anos. Faltou matemática no curso de medicina do mineiro, ele não havia aprendido a contar direito. Então, neste misto de falta de saber calcular associado a uma patologia psicológica forte, ele tirou a capital do Rio de Janeiro e a transferiu para um lugar cujas estradas apontavam a seguinte placa: “do nada ao lugar nenhum”. Talvez isso tenha sido um modo de avisar os belgas, os franceses e os alemães de que nossa capital não era Buenos Aires, que tínhamos uma capital – Brasília. Ao invés de uma cidade da liberdade, passamos a ter como capital um amontoado de concreto mal distribuído pela mentalidade de um engenheiro comunista que se achava arquiteto. O resultado disso foi desastroso, pois foi a desestruturação e a corrosão do imaginário e do cotidiano do Zé Carioca. De papagaio ele virou periquito e começou a minguar. Foi aí que a nossa utopia começou a definhar.

Sem a condição de capital, o Rio de Janeiro poderia ainda continuar a viver como cidade turística. Mas também isso lhe foi tirado. Acusávamos os americanos de puritanismo e, ao mesmo tempo, depois do mineiro pouco inteligente, elegemos um puritano hipócrita como presidente, o professor de português Jânio Quadros. O homem veio lá da conservadora vila Mariana, da cidade de São Paulo. Ele não entendia nada de liberdade. Acreditava piamente que a liberdade vivia no interior de garrafas, que ele esvaziava compulsivamente. Ele proibiu o biquíni em Copacabana, fechou as rinhas de galo e, na leva dessa avalanche, perdemos os cassinos. Foi decretado o fim da malandragem. Foi imposto ao Brasil o fim da cidade do Rio de Janeiro.

Alguns brasileiros dizem que o que veio depois disso foi muito ruim. Mas, de certo modo, tudo o que aconteceu depois já havia sido preparado antes, por nós mesmos, ao não suportarmos a nossa condição de Zé Carioca. Não soubemos redescrever o Zé Carioca de modo a levar tudo que ele tinha de bom para paragens melhores, e acabamos com ele. Não soubemos pensar caso a caso e, assim, aplicamos as proibições gerais, talvez válidas para outros lugares, também para a cidade do Rio de Janeiro, justamente o lugar que deveria ter uma única lei – é proibido proibir.

Essa é a minha história da cidade do Rio Janeiro nos anos 50 e início dos anos 60. Contando essa história desse modo, chamo a atenção para os dois elementos operacionais da filosofia do meu amigo Dick Rorty: redescrição e sentido histórico.

Como eu disse, não soubemos redescrever Zé Carioca para que ele, de malandro, pudesse ser o homem gentil da democracia. Com um pouquinho de boa vontade e criatividade poderíamos ter feito isso. Não! Optamos por não redescrever o malandro. Optamos pela regra de eliminar a palavra malandro. Em vez de continuar a ter apreço pelo simpático papagaio amigo do Pato Donald, deixamos o tempo passar no vazio e, um belo dia, acordamos com o capitão Nascimento soltando flatos pela rua e distribuindo um comportamento de duvidosa utilidade no Brasil atual.

Ao mesmo tempo em que não conseguimos essa redescrição do nosso papagaio, não fomos habilidosos no uso do pensamento histórico e, então, não conseguimos pensar as coisas caso a caso. Não abraçamos suficientemente o nominalismo. Fomos universalistas e começamos a destruir a federação e a aplicar políticas universalizantes sem medidas. Este foi o caso da vida turística do Rio. Fechamos os cassinos, eliminamos o carnaval de rua, proibimos as drogas para que elas pudessem ser vendidas por pessoas ligadas aos nossos congressistas somente e, enfim, quisemos criar um Brasil sério com regras universais. O resultado foi simples: a cidade de São Paulo passou de 3 milhões para 22 milhões de habitantes, e a cidade do Rio de Janeiro ficou aqui, 40 anos, esperando a sorte passar.

Essa desgraça ocorreu única e exclusivamente porque não utilizamos de uma boa maneira essas duas noções de Rorty: redescrição e o pensar histórico, o pensar caso a caso. Poderíamos ter usado Zé Carioca e poderíamos ter deixado o Rio de fora de nossa sanha proibidora. Mas não fizemos isso. Enterramos o amigo de Donald. Aliás, nos tornamos inimigos do Pato Donald. Ao mesmo tempo, nossa elite passou a usar Las Vegas, já que todo o pecado abaixo do Equador se tornou um pecado qualificado.

Como Zé Carioca era um símbolo de liberdade individual, uma redescrição inteligente ressaltaria essas suas qualidades. Um papagaio que consegue fazer o Pato Donald tomar caipirinha, em uma apresentação para crianças, não é um papagaio que merece aplauso? E o fato de Donald vir e não se fazer de rogado, tomando a caipirinha e tentando dar os primeiros passos do samba, também não é um grande mérito do bicho carioca? Sim, claro. Liberdade individual – eis aí o elemento central de Zé Carioca que, em uma redescrição, seria elevado à máxima potência. Tirem-me tudo, diria Zé Carioca aos tanques dos militares de 64, mas não vão tirar minha liberdade individual. Mas não foi isso que ocorreu. Zé Carioca não foi chamado para ser redescrito como o herói da liberdade individual, para a qual ele nasceu e com a qual ele podia ser o Zé Carioca.

Nossa outra preocupação seria pensar caso a caso a partir da história. Deixando de lado Curitiba, capital do estado do Paraná, todas as nossas capitais estaduais possuem história. Teríamos de ter um mínimo de historicismo na cabeça e, então, respeitar a história do Rio de Janeiro.  O Rio de Janeiro era a capital, o lugar dos cassinos, o lugar da Biblioteca Nacional e, principalmente, a casa de Ivon Cury. Quando aplicamos as regras de Araraquara e de Brasília ao Rio de Janeiro, matamos não mais o Zé Carioca, mas todo o resto dos papagaios.  Isto sim que foi ataque contra a ecologia. Poderíamos ter sido menos universalistas, mas nunca conseguimos imaginar uma ética que não fosse a do desrespeito ao ethos particular. Então, o ideal do médico mineiro se realizou, uma cidade idiossincraticamente charmosa como o Rio passou a viver igual a uma rotineira Belo Horizonte.

Sinceramente, eu espero que daqui para diante, agora que temos os instrumentos de Rorty postos de modo mais claro, que possamos não cometer mais esses erros. Mas, para tal, no que se refere ao campo da filosofia, teremos de criar toda uma outra geração de filósofos. Não podemos querer ser filósofos e ficarmos eternamente alunos. Eu concordo com a formação uspiana da qual eu mesmo, em parte, sou um fruto. Acho que o trabalho rigoroso com os textos clássicos e o tirocínio de fazer a exegese dos textos não é algo que se possa desprezar no treinamento de um aprendiz da filosofia. A formação em filosofia, atualmente, é escolástica? Sim, tanto pelo lado dos que estudam filosofia continental quanto pelo lado dos que estudam filosofia analítica. Há uma preocupação grande na especialização da repetição e no comentário pouco criativo. Isso tem um enorme peso, pois ninguém se torna filósofo por auto-didatismo. E ninguém se torna filósofo sem ter passado por uma boa escola. Mas isso somente, não adianta. Em um dado momento, é necessário chamar a imaginação.

Mas o que é a imaginação, quando se trata de pragmatistas?

Como eu a utilizo, a imaginação é o que Donald Davidson disse que é a responsável pela comunicação, e isso no caso específico da sua afirmação de que a linguagem não existe. A imaginação, como ela foi chamada por Rorty, não é a capacidade de produzir imagens mentais ou requisitar tais imagens. Rorty chamou de imaginação a capacidade de mudar as práticas sociais a partir da nossa produção de novos sinais e barulhos mais vantajosos.

Na minha história sobre o Rio de Janeiro, o que eu apontei foi para a falta de imaginação a respeito de nós mesmos, a respeito dos cariocas. Redescrevendo Zé Carioca nós estaríamos redescrevendo a nós mesmos. Poderíamos ter colocado na boca de Zé Carioca, uma vez no espelho, uma conversa sobre identidade social que, sendo a do malandro, não poderia nunca ter deixado a malandragem acabar. Como que um malandro pode viver sem os cassinos e sem que o congresso funcionasse aqui no Rio de Janeiro? É no baralho e na política que o malandro se faz e vive. Tirado isso do Zé Carioca, o que restou dele? Tirada a melhor descrição do Zé Carioca, nada ficou dele. Não havia nenhuma essência do Zé Carioca. Quando a melhor descrição dele não podia mais ser levada adiante, ele próprio foi pelo ralo.

Não existe ontologia que sobreviva ao desaparecimento de algumas palavras e algumas frases com que conversamos a respeito das tais entidades que, enfim, teriam alguma existência. Quando não conseguimos mais pronunciar a palavra malandro com tudo que ela implicava, o malandro realmente desapareceu. Como a liberdade exemplar nossa era a liberdade do carioca, ela foi eliminada juntamente com o fim do uso da palavra malandro. Não deu outra: os morros foram ocupados, então, pelo traficante, uma vez que o habitante de lá, o Zé Carioca, o malandro, havia sumido por conta de ninguém mais usar da palavra malandro. Insisto: não houve a redescrição do malandro, houve simplesmente a supressão. A melhor forma, a que nos traria vantagens, a que seria pragmaticamente vantajosa na guerra semântica, não ocorreu. Faltou-nos a loucura de criar um novo papagaio que pudesse usar do seu guarda chuvas antes como varinha de condão do que como uma cruz. E então, chegamos ao que chegamos. Não tendo aplicado Rorty no tempo que teríamos de tê-lo aplicado, estamos agora novamente na prancheta, tentando desenhar um bom mascote para as Olimpíadas, uma vez que esta se tornou o horizonte possível da reconstrução da liberdade do Rio de Janeiro.

Todavia, não podemos nos esquecer de que vivemos sob o redemoinho da contingência. Dependemos da sorte e não somente de esforços planejados. Um papagaio olímpico, libertário, mágico, capaz de voar mais alto do que as paragens do Cristo Redentor e, ao mesmo tempo, ser capaz de salgar a bunda em Copacabana, não pode jamais sair da cabeça de pessoas mentalmente sadias. Dependemos dos loucos para uma criação desse tipo e talvez tenhamos entre nós somente pessoas normais. Não creio que possamos fazer muito com a Turma da Mônica, já toda de terno e gravata nas fileiras do PSDB e, é claro, muito menos com a Turminha do Saci, feita pelo Ziraldo, que se filiou ao PT apenas para que a Onça Pintada ganhasse uma bolsa-floresta. Não! Nessa nova guerra semântica que vamos enfrentar na reconstrução do Rio de Janeiro, precisamos de um novo Zé Carioca, mas como um tipinho mais ou menos parecido com o Woodypecker, o Pica-Pau, capaz de deixar doido os que se pensam que podem controlar tudo.

Rio de Janeiro, 21 de outubro de 2009, I Colóquio Internacional Richard Rorty

© Paulo Ghiraldelli Jr.

Post scriptum

O texto acima é um exercício rortiano de redescrição e, ao mesmo tempo, a denúncia da falta de uma redescrição. Os aspectos jocosos de minha redescrição são propositalmente criados a partir da desconsideração da regra do “politicamente correto”.

Escuto às vezes algumas críticas a Rorty, dizendo que suas redescrições parecem indicar uma única via, a saber, a do “politicamente correto”. Talvez isso seja verdade quando Rorty tenta suavizar arestas em favor de uniões e não dissoluções, ou então quando ele mesmo dá exemplos americanos que funcionaram. Todavia, há casos em que o que se quer fazer com as redescrições merece outro caminho.

O filósofo que imagina que a tarefa da filosofia é a de produção de conceitos é, em geral, o filósofo que mais cria pré-conceitos. O pré-conceito é a realidade do conceito. Pois o conceito é delimitação e determinação. Quando fazemos isso, mais excluímos que incluímos. Mais atuamos com pré-conceitos do que com qualquer outra coisa. A filosofia, como Rorty a define, é vacinada contra isso.

A filosofia, como Rorty a vê e como eu mesmo a pratico, lida com palavras e não com conceitos. Palavras são palavras, podem se colocar no discurso literário e serem tomadas de modo leve. Não são conceitos, pois conceitos são elementos internas próprios de uma teoria. A filosofia, como eu a pratico, não teoriza. Não tem a pretensão de contar “o mundo como ele é”. Trata-se de um texto para impulsionar ações – em geral as ações vindas dos mais inteligentes. Escrevo para os mais inteligentes. Isso me permite expor visões jocosas, aquelas que o leitor mentalmente mais disposto ao texto enrijecido não tolera.

Fico tranqüilo em poder escrever assim como fiz, em uma intervenção que, tenho certeza, pode ser chamada de “filosofia como política cultural”, um nome criado por Rorty para esse tipo de trabalho de entrar na guerra semântica para mudar expressões e palavras, para criar vocabulários novos e, enfim, para contar as coisas de um modo diferente que abram portas para o pensamento. Afinal, não é porque somos filósofos que estamos impedidos de pensar.

PGJr. 25 de outubro de 2009.

Veja aqui o Cartoon da Disney, o célebre encontro de Donald com Zé Carioca. A maior homenagem que um americano poderia prestar ao Brasil. Delicie-se e tente entender Ari Barroso e a Aquarela do Brasil tocando no seu coração, sem qualquer ideologia anti-americanista. Cresça e sinta!

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