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Da (falta de) etiqueta de Deus

02/11/2009

god“Quando um burro fala o outro murcha a orelha” – esta era a forma pela qual meu avô, um bom rábula, tentava reforçar o a admoestação de minha mãe sobre a minha conversação na mesa do jantar. Ela dizia: “quieto que seu avô está conversando com seu pai, não interrompa”. Meu pai nada dizia. Mas meu avô, para me dar atenção e, ao mesmo tempo, poder retomar a conversa com genro, utilizava desse expediente. Não era para que eu abaixasse a orelha como um burro isolado, solitário, mas sim acompanhado por ele mesmo, que se punha como um igual a mim na condição de burro. Eu era tão pequeno que não entendia direito a brincadeira dele, mas ela funcionava. Anos mais tarde tentei isso com meus filhos. Devo ter feito algo errado ou, talvez, aquilo só pudesse funcionar dentro do triângulo eu-mãe-avô, pois com meus filhos as coisas foram muito diferentes.

Essa idéia de que uma conversação não se interrompe e, ao mesmo tempo, de que não é por isso que não se pode dar atenção a todos, foi uma das lições que ficou do meu avô. Não à toa, cresci odiando aqueles que dizem “espere eu falar, depois você fala”. Essa prática da academia, de pseudocivilidade, nunca serviu para mim. O certo seria agir como agia meu avô: pode-se intervir sim, cortar a conversa, e o incomodado pode dar uma atenção a quem interrompeu e retomar a conversa com o outro logo em seguida. Esse traquejo da conversa de bar, meu avô a possuía como ninguém. A academia nunca conseguiria aprender isso. Era possível para meu avô fazer tal  coisa porque ele tinha um olhar tão sincero que mesmo eu, criança, que não estava bem entendendo a questão do “burro” ali posta, acabava por ver que não era errado eu intervir, mas que também não era correto eu intervir para quebrar a conversa de vez. Que coisa! Quando se tem um bom mestre, o mais sutil dos ensinamentos é possível de se fazer! Meu avô era um bom mestre.

Meu avô Carlos se foi. Minha avó Maria também. Meu pai também. Da família original, ficaram eu e minha mãe. Moro hoje com uma esposa que amo, uma terceira esposa. Sem os filhos que, chegando à adolescência, obviamente voltaram cada um para suas respectivas mães. Será que a adolescência deles um dia irá passar?

Durante anos fiquei irritado ao lembrar dos mortos de casa. Sentia aquele tipo de saudade amargurada. Sim, saudade mista com irritação. Não sabia a razão. Bem, eu imaginava que era a falta dos entes queridos mortos, ou seja, um luto que nunca se resolveu muito bem ou coisa parecida. E assim os anos se passaram. Mas, recentemente, ao preparar um texto para um colóquio a respeito da filosofia do meu amigo Richard Rorty, eu me deparei com a noção de “conversação contínua”. Como Rorty a viu, a filosofia seria uma conversação contínua, que jamais poderia ser parada pela fala de alguém que viria dizer “olha, acabou, o assunto acabou – eis aqui a chave que se pedia e pronto, com ela, o problema em questão está resolvido”. Não! Rorty ensinou que isso não é algo que podemos fazer. Então – e só então – comecei a entender o que eu sentia quando sentia saudade do meu avô, da minha avó e do meu pai. A saudade era irritante por uma simples razão: Deus não soube agir corretamente, não soube entender do modo como eu gostaria que Ele entendesse o recado do meu avô.

O modo como Deus entrou na conversa não foi aquele que eu entrava. O modo como aprendi acabou logo por permitir cada vez mais que meu avô não precisasse me admoestar como minha mãe fazia e, sim, colocar de modo inteligente e generoso a frase “quando um burro fala o outro murcha a orelha”. Mas Deus não teve essas possibilidades de aprender. Deus entrou de maneira espalhafatosa, infantil demais, de modo a não dar chance para que eu pudesse utilizar da técnica de meu avô. Antes que eu pudesse dizer “calma, quando um burro fala o outro murcha orelha”, Ele invadiu a conversa e me tirou o interlocutor. Ora, mas a conversa não havia acabado! Que falta de educação de Deus ao invadir uma conversa minha com meu pai, que não havia terminado, levando-o embora e me deixando aqui, com um monte de palavras na boca e um ouvido finalmente grande para ouvir. E o pior, Deus fez isso com minha avó e com meu avô também. Aliás, com o meu avô Deus foi matreiro, pois sabendo que ele tinha esse estratagema de segurar a conversação com vários, inclusive por meio do “quando um burro fala o outro murcha orelha”, Deus veio buscá-lo no sono. Só se pega um bom rábula para tirá-lo de uma conversa se ele está dormindo. Foi o que Deus fez, na sua total falta de etiqueta.

Ethos é costume, hábito, atitudes semelhantes. De ethos vem ética. Vem também etiqueta. Ora, etiqueta é pequena ética, isto é, hábitos pequenos que não servem para dizer quem somos a nós mesmos, como é o caso da ética, mas funciona para dizer quem somos para os outros, em situações bem determinadas. Uma conversação moderna, gerada no mundo burguês em que o mercado põe todas as principais regras, a etiqueta ganha uma característica especial. Ela é uma devedora da etiqueta da Corte, mas aplicada, então, a todo o burgo. Eis aí uma etiqueta: “quando um burro fala ou outro murcha a orelha”. Não se deve dizer isso, mas o comportamento deve ser segundo a vigência desse expediente, de modo a criar as interrupções que não são grandes barreiras, são apenas tempos de respiração para se integrar mais gente na conversa ou esperar mais um pouco.

Essa etiqueta jamais perdoaria aquele que em uma conversação, sem mais, interrompesse o que estava falando e fosse embora. Essa etiqueta, é claro, perdoaria menos ainda aquele que ao chegar para uma roda de três pessoas, pegasse uma pelo braço e, sem satisfação para a outra, fosse embora com o parceiro. Sim, isso é coisa sem etiqueta. Eis o que Deus não tem: etiqueta. É a falta de Deus quanto à etiqueta que sempre me irritou. Nunca achei polido ou mesmo inteligente da parte de Deus entrar na minha conversa e levar meu avô, minha avó e meu pai. Nunca engoli essa incapacidade de Deus de lidar com regras pequenas – etiquetas. Hoje eu percebo porque minha saudade nunca foi uma saudade boa, sempre foi diferente, incômoda. Sempre foi uma mágoa por ter sido posto no enfrentamento de alguém que, não tendo possuído avô, nunca foi introduzido no mundo da etiqueta. Não estou falando que gostaria que Deus fosse de uma polidez que eu mesmo, como filósofo, não posso ter – seria um hipócrita e um não filósofo se a tivesse. Mas, certa maneira de agir, que permitisse o “quando um burro fala o outro murcha orelha”, para que as conversas não ficassem atrapalhadas, isso sim seria bem útil.

© Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo

São Paulo, 2 de novembro de 2009, Dia de Finados

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