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O “conhece a ti mesmo” e o pecado original do filósofo

06/11/2009

nb_pinacoteca_daumier_socrates_and_aspasia“Você viu isso com seus próprios olhos?” – a toda hora fazemos cobranças desse tipo, quando as pessoas falam de coisas, situações e acontecimentos que temos dificuldade em acreditar.  Damos uma enorme importância para o testemunho direto dos sentidos e, em especial, ao da visão. O olho é o privilegiado. Uma boa parte das metáforas que usamos na nossa linguagem são metáforas visuais ou ligadas ao olho. Falamos em “visão” para concepção ou para perspectiva. Falamos em “um olhar” para um tipo de interpretação. Ficamos muito satisfeitos quando o testemunho é direto dos olhos e, se usamos algum aparelho, é para potencializar os sentidos. Desse modo nos agarramos a microscópios e telescópios.

Confiamos nos nossos olhos e nos apresentamos a partir de nosso rosto. Maquiamos nossos rostos e nos preocupamos em mantê-los limpos. Eles não dão nossa identidade mais imediata. Os olhos, como a Bíblia disse, são as janelas da alma. E para que nossa alma não se apresente sempre da mesma cor, o que seria bem monótono, criamos lentes que servem antes para embelezar os olhos e mudar o rosto que para ampliar ou corrigir a visão.

Tudo se passa de modo tranqüilo, até o dia em que descobrimos que vamos morrer sem nunca poder ver nossa própria face, muito menos, é claro, nossos olhos. Podemos ver nossas mãos e uma boa parte de nosso corpo. Em tese, até órgãos internos podemos ver diretamente. No entanto, quanto ao nosso rosto, exatamente o elemento que diz para os outros o que somos por meio de expressões que temos dificuldade de controlar, nós sempre seremos testemunhas indiretas.  Temos o espelho. Sim! Mas podemos pensar o seguinte: e se os espelhos, por uma estranha propriedade que nunca nos demos conta, jamais apresentaram fidedignamente nosso rosto?

Imagine alguém solitário em uma ilha desde pequeno. Ele tem o espelho e pode, com sua inteligência, imaginar que o que ali aparece é o seu rosto. Todavia, ele não tem nem outros e nem instrumentos para colaborar no testemunho disso que toma como certeza. Um dia essa pessoa morre e é achado o seu corpo. Os marinheiros que descem na ilha descobrem, então, que aquilo que ele tinha como espelho era uma superfície tão lisa, parecida com um espelho, mas era uma máquina. Era um pequeno computador que criava uma imagem de quem o mirava, e a partir daí, por meio de um software interno sofisticado, passava a contar os dias e envelhecer normalmente a imagem ali posta, diante daquele que o mirava. Tudo corria de modo lógico na mais perfeita ordem e, no entanto, jamais aquele que ali viveu viu de fato o seu rosto. Morreu acreditando ter uma face, quando na verdade tinha outra.

Justamente a parte que mais nos importa para representar o que acreditamos que somos – o rosto – não é o que podemos ver diretamente. Alguns, com pouca experiência de convivência com o espelho ou com filmes de si mesmo, se espantam ao ver que suas expressões mudam e forma vincos e covas e formas de rir e corar que elas jamais pensaram que produziam. Mas, mesmo os que se apresentam diante de espelhos e filmes e tornam suas imagens banais, não sabem quem são. Não possuem o rosto sob seu campo visual como possuem uma boa parte do resto do corpo. O rosto, porta de nossa identidade, nós não vemos. Os olhos, janela da alma, nós não miramos.

Começa daí a filosofia de Sócrates: “conhece a ti mesmo”. Foi o que Sócrates tomou do Templo de Apolo. Não tomou nesse exclusivo sentido, mas é necessário saber que o “conhece-te a ti mesmo” não é algo simples. O que é mais difícil de conhecer somos nós mesmos, pois, só para termos uma idéia disso, basta notar essa situação do rosto. Ele, que sustenta os olhos, não se vê.  Já daí emerge toda a importância da inscrição do Templo de Apolo. Não é uma coisa fácil de levar a sério, de seguir. Estamos impedidos de realizá-la em seu plano que, em um primeiro momento, seria o mais fácil. Ora, quando nos damos conta que o nosso próprio rosto perecerá sem nunca se apresentar aos nossos olhos, é aí que começamos a ver que o “conhece a ti mesmo” não estava ali, no Templo, como uma brincadeira de Apolo. Conhecer a si mesmo, em princípio, se depender de enxergarmos ao menos uma vez nosso rosto, é uma tarefa impossível.

Não podemos ver nosso rosto e, então, nosso comportamento é sempre estudado indiretamente. Ou nos filmamos ou temos de ter o testemunho de um terceiro. Para escapar disso, pensamos em tomar nosso “eu” não como sendo nosso rosto e nosso comportamento, e sim como sendo o que expressamos de nosso “interior”. Eis então que percebemos que não temos facilidade nisso. Ao contrário, só podemos falar de nós mesmos, de nossos sentimentos, uma única vez. Quando falamos do que qualificamos como sendo o mesmo sentimento ou a mesma sensação, não podemos confiar na memória, por motivos óbvios,  e não temos uma regra objetiva para garantir que estamos, efetivamente, falando da mesma situação.  Uma dor de cabeça A em um dia X não tem como ser igualada com uma dor de cabeça B em um dia Y. Nada nos ensina o caminho para equacionar algo como A = B ou A ? B.

Assim, seja pelo conhecimento do nosso rosto ou pelas disposições de sentimentos e sensações, nosso conhecimento de nós mesmos é indireto e nunca poderemos dizer que temos certeza do que afirmamos sobre nós mesmos. Na prática, podemos aumentar a capacidade de eliminar várias coisas que nos atrapalham para a realização de tal tarefa. Todavia, em uma situação de experimento filosófico, não temos como pensar em algo que nos dê uma posição tranqüila para levar adiante a sugestão do Templo de Apolo.

Sócrates não tomou suas dores ou sua face como importantes para o auto-conhecimento. Também não tomou os sentimentos. Sócrates criou um subterfúgio para responder essa pergunta, o “conhece a ti mesmo”. Ele acoplou o eu ao conhecimento e, então, investigou o que ele sabia e o que ele não sabia. Ligou o “eu” ao saber, e então buscou checar o saber. E para tal usou os outros como espelhos intelectuais. Além do mais, construiu um método para tal, o elenkhós, o método da refutação, para que pudesse estocar os interlocutores e, então, ver em que pé ele próprio se encontrava quando ao conhecimento procurado.

Sócrates foi um gênio por ter escapado das situações de investigar a si mesmo a partir da primeira pessoa, ou seja, por introspecção. Mais ainda por escapar da investigação por meio da terceira pessoa, ou seja, pela observação que outros teria de seu comportamento corporal inteiro e, especialmente, facial. Ele fixou sua atenção em um “eu” que apenas se preencheria pelo seu saber e, na forma de admoestação somente, pelo seu daimonion.  Assim, já desde a primeira tarefa posta pelos deuses, o filósofo, não tendo como resolvê-la, encaminhou-se por um subterfúgio. Uma saída inteligente, sim, genial mesmo. Todavia, já aí se tratava não de uma resposta, de um seguir, mas de um desvio, de uma forma de ludibriar o deus do Templo.

A partir daí, a filosofia nunca mais respondeu suas perguntas. Ela aprendeu com Sócrates, para o bem e para o mal, que o que deveria fazer era buscar desvios. Assim, os filósofos passaram antes a colocar novas perguntas que responder as velhas. E estão nisso até hoje. Quem sabe o fato de estarem nisso até hoje não tenha sido uma maldição dos deuses, por essa tentativa inicial de enganá-los? Se assim é, haverá alguém irá redimir todos os filósofos, admitindo aos deuses que houve, no início, uma finta? Caso não, a filosofia não terá fim. Estaremos eternamente condenados a filosofar.

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo.

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