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O caso Geisy-Janine no ar

20/11/2009

Todos nós sabemos que o ensino da Uniban deixa a desejar em várias de suas unidades, e que é bem ruim em outras. Caso não soubéssemos isso, os RHs de todas as empresas estariam procurando formados vindos de lá. Mas, não é o caso, a ordem velada ou mesmo escancarada sempre foi a de não pegar profissionais ali formados.

Todos nós sabemos que Geisy não estava com um “micro-vestido” no dia da agressão. Sabemos bem por uma coisa simples: mesmo sentada, nas fotos que apareceu, o vestido não passava muito dos joelhos. E mais: Geisy tirou várias fotos, que saíram em capas de revistas, com o mesmo vestido, e realmente nem chegava a ser uma mini-saia.

O artigo de Renato Janine Ribeiro acerta num ponto: tratar o caso Geisy pela ótica exclusiva de que houve um caso de quebra de direitos humanos é pouco. Todavia, o artigo comete dois pecados que, a meu ver, são imperdoáveis. É que Janine Ribeiro põe panos quentes na questão da má qualidade da Uniban. Diz frases amenas em relação à pós-graduação e isenta de avaliação a graduação, fingindo desconhecimento. Ora, viveria Janine em Marte? E tendo sido membro da direção da CAPES e professor durante tantos anos, não saberia ele que José Arthur Giannotti, que seu ex-professor, foi para a televisão tentar barrar o nascimento da Uniban, como universidade, exatamente porque ela era um lixo?

O segundo pecado de Janine é também devido ao olhar: ele não sabe reconhecer o que é um “micro-vestido”? Ou ele, para preparar o conteúdo central do artigo, procurou mentir logo no início? Sim, pois no decorrer do texto Janine joga as coisas para o campo do “problema sexual” e, para tal, elaborou de início a idéia de denominar o vestido de “micro” para, então, embarcar por um artigo mais palatável ao que correu na própria imprensa.

A verdade é que Janine reduz tudo a um falso problema: sexo. Geisy teria, de fato, sido um agente de provocação. Portanto, no limite, ainda que não da maneira grosseira levada adiante pelo advogado da Uniban, também ele terminou por dar uma carga de responsabilidade ao acontecido à vítima. O problema todo teria sido de tesão – ele insiste. Os moços que a atacaram teria tido tesão por ela e, não sabendo lidar com aquilo, fizeram o que fizeram. Há verdade nisso? Só superficialmente.

Duas coisas pesam contra o argumento de Janine: 1) Geisy já havia freqüentado a escola com aquela roupa e nada ocorreu; 2) Geisy veio de ônibus (lotado) com aquela roupa e não foi motivo nem mesmo de um assobio. Tudo indica, portanto, que naquele dia o movimento ocorreu porque uma turba de arruaceiros estava disposta a fazer o que se faz, em geral, às sextas feiras, em escolas fajutas: mata-se aula e, para que outros não entrem na sala, cria-se alguma algazarra.

O problema do sexo é secundário no caso. Como sempre, o que está envolvido ali é um elemento que, não raro, vem junto com o sexo: poder. Na lógica dos agressores, Geisy deveria ter abaixado a cabeça, tirado a maquiagem e começado a chorar logo no primeiro momento da gritaria, mas ela não fez isso, ela se manteve digna e foi para a classe. Uma mulher não abaixou a cabeça no momento que 700 pessoas a chamavam de “puta puta puta”. Ei aí o elemento central: o que é o diferente, o que é anômalo – a mulher maquiada e de rosa, pronta para a balada –, pode ser tomado com bem mais diferente – a mulher que se coloca como mulher, sem abaixar a cabeça para um irmão conservador – e, então, ser colocado diante da máquina de moer do senso comum, para voltar à condição de igual. Nisso, os donos do espaço e os condutores do senso comum, os 700 que gritaram ali, fizeram o papel já posto pela própria direção da Uniban, o de cumprir esta regra: aqui, nas sextas feiras, o comportamento é este, o que nós dizemos, não o que cada um quer.

Essa minha forma de ver o problema me parece ficar mais sustentável à medida que, ao final, a Uniban aprovou o comportamento de agressão, ao expulsar a moça da escola. Voltou atrás por pressão popular, num ato isolado da reitoria.

A imprensa só conseguiu sair do senso comum no momento em que foi para o lado não do moralismo, e sim para o campo dos direitos humanos. Fez isso de modo reduzido, é claro, porque deveria, sim, ter estudado o problema pelo seu lado sexual. Todavia, o sexo, a tesão, ali, também não foram o elemento central. O elemento central foi o problema do diferente, mas do diferente em um sentido específico: o que não pode erguer os olhos, um belo dia, ergueu. Geisy começou a ser punida pelo que foi avaliado como a sua petulância – os alunos disseram isso e o advogado da reitoria confirmou. Não mentiram. Na simplicidade de bárbaros, falaram a verdade.

Tudo isso poderia mostrar apenas um erro a mais de Janine. Mas mostra mais que isso, mostra que, novamente, como no caso do garoto arrastado, o professor de ética prefere resvalar por caminhos que torna secundário a questão dos direitos humanos. E pior ainda: o professor de ética, que foi de um órgão de governo do PT, um órgão de avaliação do ensino, não quer se queimar com a Uniban e, assim, caiu fora de avaliar aquela escola do ponto de vista do tipo de educação que ali ocorre.

Não ocorreria algo do mesmo tipo que ocorreu com Geisy em uma boa universidade, esta é a verdade. Caso houvesse algo próximo, seria difícil não acontecer uma punição aos bagunceiros, não à vítima. Mas Janine parece mais propenso a jogar o problema para a “tesão” recolhida de garotos e, assim, se manter em boas relações com donos de escolas – poderosos políticos que ele teme enfrentar.

Paulo Ghiraldelli Jr.

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