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Amor e sexo

27/11/2009

“Amor é isto, sexo é aquilo”. Rita Lee acerta em cheio quando canta esse tipo de coisa. Amor é isto aqui, o que eu faço, mas o sexo é aquilo lá, o que eles fazem. Mesmo os de conduta mais aberta, não raro, acabam por utilizar de uma frase como esta. No entanto, na mesma música, Rita Lee diz que “amor sem sexo é amizade”. Amor é o que eu faço, sexo é o que o outro faz e, no entanto, se eu amar e não fizer sexo nunca poderei dizer que amei, sempre terei de dizer que desenvolvi uma boa amizade. Abre-se aí, em nossa sociedade, um canal para a infelicidade e para a perversa jocosidade. Os que são só capazes de amizade, nunca de amor, são tidos como infelizes e, ao se apresentarem como insatisfeitos sexuais ou mesmo frígidos, são objetos de piada.

Diante disso, um marcusiano lembraria o quanto nossa “sociedade do trabalho” criou mecanismos de repressão. Ao mesmo tempo, um foucaultiano diria que qualquer discurso pretensamente “liberador”, envolvido com essa descrição acima, estaria ele próprio desenvolvendo mecanismos de poder e controle.

Durante um bom tempo procurei em meus textos separar a tese marcusiana da tese foucaultina. Distinguir repressão, na terminologia marcusiana, de poder e controle, na terminologia foucaultiana. Elas aparecem ligadas na esquerda americana dos últimos anos e, por conta disso, sempre me mantive atento para não induzir a erros os mais jovens. Mas, não é verdade que elas sejam teses incompatíveis. Com Marcuse, ficamos sabendo que vivemos um mundo deserotizado. Com Foucault, aprendemos que um mundo deserotizado não é um mundo que não fala de sexo mas, inversamente, fala muito de sexo.

Quando caminhamos com Marcuse, começamos a sonhar com uma sociedade em que vários elementos do hedonismo helênico deveriam ter sido valorizados pelo materialismo moderno e, no entanto, não foram. Assim, até mesmo as correntes menos tendentes a separar amor de sexo, acabaram por separá-lo e, assim, entraram pela via do enaltecimento do primeiro como um valor em si, e a recomendação do segundo como um valor médico, dado que o valor meramente procriativo foi perdendo crédito. Foucault, por sua vez, nos leva para campos nada utópicos. Para ele, a separação entre amor e sexo pode ser feita por um esquecimento do hedonismo que era inerente ao materialismo, mas isso importa menos do que ver que a separação, ao se colocar, nos joga todos não como cultivadores do amor, e sim como usuários de uma rede de discursos sobre o sexo que, em nossa sociedade ocidental, desde os gregos, foi se tornando o lugar da nossa verdade. Sendo necessário “conhecer-se a si mesmo”, como expôs o dístico do Templo de Apolo, então que se conheça o que fazemos com o sexo. Esse campo da trama na qual se encontra a verdade é, também, o lugar onde o poder, não como mera repressão, mas como força positiva, estabelece os seus micro-tentáculos de controle.

Não podemos viver só de amizade, e então temos de ter amor com sexo. Mas, nós sabemos bem (ou melhor, pressentimos) que estamos deserotizados. Deixados sem estímulo, ficaríamos passivos. Uma passividade excessiva criaria um tédio maior do que aquele que Nietzsche acreditou que era o que realmente vivíamos. Para nos tirar desse tédio e voltarmos a conviver com algum estímulo, uma avalanche de mecanismos – mais caricaturescos do que eficazes – nos surge por todos os lados: revistas de pornografia, sex-shoppings, filmes e programas eróticos ou pornô-eróticos na TV e, é claro, mil e uma possibilidades abertas pela Internet. Quando vozes do senso comum conservador tendem a surgir para vociferar contra isso, os próprios meios conservadores tratam logo de lhes dar uma explicação, para que o movimento de estímulo não pare. Por isso, uma revista Veja, altamente conservadora, estampa em sua capa, mais de duas ou três vezes em um ano, reportagens sobre a necessidade do sexo como elemento de uma felicidade indicada por médicos – as autoridades atuais a respeito não só do corpo, mas do espírito e tudo o mais.

Entrando no movimento de anti-deserotização promovido por essa indústria, não ficamos mais liberados. Somos apenas capazes de romper com algumas falas da repressão em seu estado mais audível para, então, nos ver presos em uma teia de mini-controles. Somos redescritos pela indústria da cultura erótico-pornográfica, que vai do sexo ao vivo em boate de terceira categoria ao consultório do psicanalista, e nisso ganhamos uma função em uma trama nem um pouco favorável à nossa liberdade. É o preço que pagamos para deixarmos para traz “amor é isto, sexo é aquilo” e adotar um posição que visa mostrar o quanto não queremos como imperativo viver o “amor sem sexo”, pois isto é apenas amizade.

Utilizando Marcuse e Foucault segundo a minha leitura e intenção, pode-se compreender de um maneira talvez útil os casos como o da professora baiana que dançou o “Todo Enfiado” e perdeu o emprego em sua escola (meu texto aqui), ou de situações como a da aluna da Uniban que foi hostilizada por colegas que a chamaram de “pu-ta, pu-ta, pu-ta” (e, depois, expulsa da universidade) (meu texto e vídeos aqui). Nos dois casos, o comportamento erótico foi tão enfatizado pelos analistas e pela mídia, em um sentido de reiteração do senso comum, que toda e qualquer análise que não reduzisse o episódio a um problema ligado ao sexo, em determinados momentos não mais atingia os ouvidos da maior parte de nossa sociedade. Claro! Marcuse poder estar certo: a deserotização é a regra e, quando o erótico sai das capas de revistas ou da internet para ocupar outro espaço, ele é convidado a voltar para trás, recolher ao lugar de onde veio. Mas Foucault também pode estar certo: não se quer fazer o erótico voltar e ficar lá de onde veio, assim, sem mais, o importante é levá-lo para um passeio antes de devolvê-lo em casa. Assim, há um convite para que ele caia na trama de um novo controle, os discursos de compreensão científica do erótico.

Quando adicionamos Marcuse a Foucault, entendemos o texto de Renato Janine Ribeiro (aqui), falando da garota da Uniban (na Folha de S. Paulo), como a reiteração do senso comum. Exatamente quando a mídia começou a dar passos no sentido de tratar do caso como um caso de desrespeito a direitos humanos, tentando vê-lo para além da trama das explicações sobre desejos, pulsões etc., Janine veio, não à toa tardiamente, dizer que se tratava, sim, de um problema de saber sobre a não disciplina de impulsos dos alunos da Uniban, que, então, teriam feito o que fizeram por uma “tesão” não explícita pela moça. Ou seja, Janine, sabendo ou não, cumpriu aí o papel da revista Veja: vamos falar de sexo, vamos nos liberar e falar de sexo, mas que ele não saia do campo do falar de sexo, que ele não se mostre como algo que pode, talvez, escapar do senso comum e escapar dos discursos científicos que já o aprisionaram. Eu diria que, nisso, Janine cumpriu aí a função clara de “ideólogo”, no sentido tradicional do termo – o que antes mascara que esclarece um episódio.

Uma visão bem melhor que a de Janine, quanto ao caso da “moça da Uniban”, foi a do psicanalista Contardo Caligaris, exposta também na Folha de S. Paulo (aqui). Ele não circunscreveu o problema ao erotismo, mas jogou-o no campo das relações de poder. Todavia, ele rapidamente limitou o campo, ao falar de “machismo”. Assim, também ele ficou aquém de escapar de uma crítica marcusiana-foucaultiana. O machismo, a dominação da mulher pelo homem, situação que vai do conflito real até chegar às caricaturas que conhecemos, ainda é um discurso da ciência. Ou melhor, agora, mais do que nunca, é um discurso da ciência – da antropologia à biologia. Assim, o problema é abordado por vários lados, mas o campo da deserotização continua valendo e o campo do controle do discurso científico sobre o erotismo e sobre o deserotismo também se mantém. Nenhum mecanismo de controle é ameaçado. No frigir dos ovos podemos dizer que tudo como antes: uma Geisy ou uma professora baiana não ganham nenhuma ajuda, apenas novas prisões.

O discurso asséptico das entidades de direitos humanos e políticos é, nesse caso, o mais libertador. Quando a questão vai para o âmbito do liberalismo instituído no Ocidente e, então, surgem as cobranças em favor da garantia da liberdade individual, aparentemente estamos deserotizando a situação, mas, na prática, estamos fazendo a única coisa correta: com tais atitudes promovemos o respeito ao campo das opções privadas – no caso de Geisy, o de se maquiar, se vestir,  no caso do da professora baiana, o direito ao lazer etc. –, e isso é o favorecimento da vida livre. Não forjamos mais deserotização. No máximo, a ficamos no mesmo nível. Mas, é certo, não colocamos um discurso científico que irá dizer “a verdade” do que ocorreu, criando então os controles ramificados em teia em mais forte posição.

Essa guinada para o campo da ação social pode ser assumida como uma saída filosófica: deixa a filosofia tradicional de lado, que se aproxima do senso comum neste caso, e opta-se pelo pragmatismo, pelo campo das tomadas de decisões políticas – em favor da democracia. De certo modo, isso faz parte da “filosofia como política cultural”, desejada por Richard Rorty.

Paulo Ghiraldelli, filósofo

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